quarta-feira, 27 de abril de 2016

Notívago.


Uma vez eu li alguém em alguma rede social dizendo que era "notívago" e que isso era algo ruim numa casa onde só ele era isso. Notívago, segundo o dicionário on line gu-gou, é "que ou aquele que anda ou vagueia à noite; que ou o que tem hábitos noturnos". Nunca fui muito afeito a esse tipo de definição. Não estou preocupado em definir ou classificar muito as coisas, menos ainda em organizá-las para tal (talvez aqui resida um erro pontual para minha trajetória como antropólogo). Mas, digamos, pra amenizar a questão profissional, que minhas limitações com isso se deem, sobretudo, no que diz respeito a mim mesmo. Desde que parei de me autointitular "Gabriel, o Grunge", lá pelos idos de 2006, eu desencanei disso de procurar termos com os quais me classificar ou me identificar com alguma classificação e colá-la sobre minha testa ou meus hábitos. Ocorre que, bem, veja só, se foi no Facebook que li a postagem do "notívago" (que na verdade se escreve "noctívago"), eu poderia compartilhá-la hoje em dia. Menos pela vontade ou orgulho de sê-lo, e mais pela necessidade do meio. Explico.
Verso 33.
A casa onde moro é a casa onde sempre morei. Nasci num hospital, dias depois me trouxeram para cá e, exceto o período perambulando por casas distintas em Marília, essa é minha casa. Teve também um período aqui em São Paulo - cerca de metade do tempo nesse meu tragicômico retorno - em que dividi-me entre aqui e o lado ocidental da coisa. Bom, mas essa é a casa onde conheço cada cantinho. É aqui onde acaba a luz de madrugada e eu consigo andar no escuro sem tropeçar em nada ou sem errar o caminho. É casa, estritamente. Ocorre que a rua é barulhenta, está entre algumas avenidas grandes da região e por todo o dia (o que engloba a noite) é cortada por carros, ônibus, caminhões, motos com escapamentos soltos e agrupamentos de pedestres mais ou menos barulhentos. Tem um cachorro que mora em alguma casa, creio que mais pra baixo, que todas as noites começa a latir por volta da uma da manhã, os demais cachorros da rua, e das ruas em volta, o seguem com latidos, compondo uma sinfonia canina única e duradoura. Há também os casos de rompimento da lógica da propriedade privada, em que larapios , serei brando, curiosos pulam portões para averiguar o que há dentro de carros e casas, por vezes levam souvenirs, por vezes levam vidas. Não tem muito jeito, essa porcariada de discurso do Datena me consumiu aqui - embora eu não assista Datena, mas tenha assistido algumas vezes, e outro dia tenha rolado um tiroteio aqui na rua, e teve uma vez (mas já faz tempo) que num curto período de tempo algumas dessas pessoas curiosas pularam o portão aqui de casa seguidas vezes em busca de dar uma espiada. Tem vezes em que a coisa é complexa: uma moto desce a rua, de repente o motor é subitamente desligado, mas eu ainda a ouço sendo deslizada pela rua, em seguida ouço um, dois, três ruídos vindos do portão, meu cachorro (o Ditão) irrompe em latidos no quintal de casa, sendo ele o puxador da Brava Orquestra Canina, outro ruído no portão, "caralho que porra é essa deixa eu ver"; levanto da cama, coloco os óculos, olho pela fresta da janela aberta do quarto ou desço até a sala para observar a frente da casa. Em geral não é nada, quer dizer, nunca foi nada, além do fato de que o sono se dissipou, bateu asas e voou.
E foi assim que me tornei notívago. Aproveito a falta de paz para dormir escrevendo uma dissertação (e textos soltos no blogue), sobretudo, às madrugadas.

Ps: é mentira, essa foto não é daqui de casa não.

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