sexta-feira, 22 de abril de 2016

Doênça.


Nunca em tão pouco tempo, com intervalos tão curtos e com tamanha constância me recordo de ter passado tantos períodos mergulhado em doênça. É incrível como a gente dá um tiro na vida e a retaliação dela é com metralhadoras e tanques de guerra e de roupas sujas e fedidas. É gripe resfriado inflamação alergia diarreia vômito virose fibrose entorse cu de burro e os caralho. É muita doênça pra muito pouco tempo. "Filho da puta, doênte do caralho", ele falou, eu respondi "filho da puta já morreu", dai o negócio descambou pra baixo e não teve mais volta. Baixo calão segunda divisão nenhum respeito mínimo entre eu e eu mesmo. Rajadas de metralhadoras com chineladas avoadas direto no pé da orelha. "Porra caralho me larga dessa doênça", "filho da puta", "pega nóis caralho", eu falei quando subi na bicicleta e fui pedalando com toda a minha força mantendo um ritmo pesado, mas a doênça não parava de vir - não tem como fugir da doênça quando o ambiente, a cidade, os espaços, tudo, formam uma capsula comprimida de doênças (olhe ao entardecer aquela camada grossa em tom de laranja-acinzentando que se forma no horizonte, a gente mora dentro dessa bolha de sujeira) - até que me choquei num palanque. Subi nele, tossi, espirrei, assoei o nariz - gastei mais dinheiro com vitamina C em comprimidos que se esfarelam nágua, remédio para gripe em embalagem econômica, xarope para tosse alérgica, tosse com catarro, tosse causada por motivos desconhecidos mas ainda assim uma tosse bem conhecida, gasta mais dinheiro com antibiótico também pra desinflamar, uma pomada para aliviar as dores físicas na coxa e outra pra tirar aquela micose nojenta que nasceu perto das bordas do saco, perde tempo e dias indo numa praga dum consultório para fazer exercícios e mexer os músculos em coma que começam a causar dores e mais dores. Subi no palanque, dei um tapinha num microfone e ergui o dedo indicador esquerda: "nunca antes na história dessa vida fiquei tantas vezes doente em tão pouco tempo". Bati as folhas contra a madeira plana do palanque, a fim de organizá-las juntas. Estava feito o verso 37.


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