quinta-feira, 7 de abril de 2016

Depois.


Lembro que quando vivi aquela época da vida em que os filhos da classe média são enfornados em salas de aula com formato de auditório, com o intuito de decorarem fórmulas para garantirem a continuidade do nível mediano de vida, teve uma vez em que eu me encontrei com uma jovem que tinha passado grande parte do fim da infância e de toda adolescência alçando sonhos que poderiam ser chamados de artísticos: queria ser cantora, queria ser atriz, gostava de teatro, da Maria Rita, tinha uma quedinha por alguns tipos específicos de filmes e se visualizava trabalhando neles e também em novelas; no dia em que a gente se encontrou por acaso me recordo que ela disse que estava se preparando para o vestibular para o curso de direito que se tornaria advogada legisladora defensora de bandido de colarinho branco etc e que depois que tivesse a vida garantida nesse aspecto voltaria a nutrir os sonhos tidos como artísticos, ser artista, ser cantora, brilhar na telinha na tv, ou coisa que o valha que não aconteceu nos últimos dez anos e creio que não virá a acontecer. Como a gente é burro de acreditar que vamos acabar uma coisa e ter pique de retomar nossos sonhos mais sinceros e abdicar de uma coisa que nos rendeu um padrão de vida médio e conseguir reorganizar as criatividades de dentro pra fora e o modo de ler o mundo que permite tais criatividades sendo que já fomos impugnados por uma atividade que nos sugou um pouco da alma.
Ela prestou direito, eu fiz ciências sociais. 
Verso 52.


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