sexta-feira, 29 de abril de 2016

7x1


Virou moda entre os jovens e não tão jovens assim quer dizer então que virou moda entre a rapaziada e os não tão rapazes assim do que decorre a compreensão de que virou moda entre o pessoal e isso sim entre o pessoal sim pois pessoal são pessoas e independente de idade ou espírito mais ou menos juvenil para enquadrar as pessoas. Virou moda entre o pessoal falar coisas como "todo dia um 7x1 diferente" para se referir a acontecimentos ruins. Aliás, como estudioso do futebol (credo, que frase horrível). Como estudioso das relações estabelecidas a partir do futebol (continua ruim). Como pesquisador de ciências humanas interessado em relações que se dão a partir ou com o futebol (jesus, só piora). Parece que não vai ter jeito. Bom, a partir dessa situação em que me coloco, tenho me formado, pesquisado, sido etc, com relação a pessoas e futebol, penso que daqui um tempo seria interessante averiguar o sentido dessa expressão, 7x1 - sete a um - no imaginário popular brasileiro e, quem sabe, pleitear junto à academia brasileira de letras ou a ABNT ou sei lá quem que regula a definição, inserção e/ou retirada de termos do português - Aurélio, é você? - de colocarmos "sete a um" como um adjetivo negativo ou adjetivo pejorativo ou "adjetivo que indica grande derrota; que ou aquele que foi vergonhosamente derrotado, perder sem honras". Enfim, vocês entenderam - mas dá pra ficar mais claro aqui

Verso 35.

Era um dia de vitória, porra, como não considerar vitória ter passado ali tranquilamente umas quatro horas focado na coisa e com pique de passar mais umas dez no dia (foram mais oito) nessa funça (como diz um amigo carioca)? Vitoriaça. Ai eu fui no mercado, mas, caramba, como diz o pessoal, "todo dia é um 7x1 diferente". Ali no caixa onde a moça passa os produtos e pega o meu dinheiro para que eu possa levá-los foi uma caixinha que me levou ao chão tal qual Júlio César após mais um, e, virou passeio. Uma pequena caixa de papelão; papel cartão na verdade. Entre amendoins, aparelhos de barbear descartáveis, chicletes, balas, pilhas. Uma caixinha. Era alguma coisa com "nuts" que estava escrito nela, mas dentro não tinha nada. Era uma caixinha vazia e não sei o que tinha dentro dela antes, mas fora estava escrito alguma coisa com nuts. Porra (falei "porra" de novo, desculpa) lembro que quando o ônibus já estava há umas cinco horas e meia na estrada e parava na última parada (ou penúltima, dependia da linha) antes do meu destino e ai depois ele saía, no caminho entre a rodoviária onde havia parado e a rodovia onde, inversamente, tornaria a atingir sua velocidade máxima (ou perto disso), tinha uma fábrica que nas laterais tinha o escrito "nuts" alguma coisa. Era a mesma fonte da caixinha que estava no caixa do lado da moça do caixa. Era a mesma caixinha que eu via no mercado em que eu ia com tanta frequência durante os seis anos que morei em Marília. Caralho porra (de novo porra, caralho!) hoje teve até outro 7x1, mas é desnecessário descrevê-lo após tamanha precisão na descrição do de ante ontem. 
Espera aí, vamos repetir a pergunta de outro dia e colocar um link?
Sim.
Eu nunca vou sarar dessas saudades? Que mostra que eu acertei ao colocar esse título nesse texto de 1/3/2016 no plural, pois ali eu lido com uma saudade específica, mas elas são múltiplas, e saltam à minha cabeça com diversos sinais distintos - ante ontem foi com uma caixinha vazia e quatro letras: nuts.




quarta-feira, 27 de abril de 2016

Notívago.


Uma vez eu li alguém em alguma rede social dizendo que era "notívago" e que isso era algo ruim numa casa onde só ele era isso. Notívago, segundo o dicionário on line gu-gou, é "que ou aquele que anda ou vagueia à noite; que ou o que tem hábitos noturnos". Nunca fui muito afeito a esse tipo de definição. Não estou preocupado em definir ou classificar muito as coisas, menos ainda em organizá-las para tal (talvez aqui resida um erro pontual para minha trajetória como antropólogo). Mas, digamos, pra amenizar a questão profissional, que minhas limitações com isso se deem, sobretudo, no que diz respeito a mim mesmo. Desde que parei de me autointitular "Gabriel, o Grunge", lá pelos idos de 2006, eu desencanei disso de procurar termos com os quais me classificar ou me identificar com alguma classificação e colá-la sobre minha testa ou meus hábitos. Ocorre que, bem, veja só, se foi no Facebook que li a postagem do "notívago" (que na verdade se escreve "noctívago"), eu poderia compartilhá-la hoje em dia. Menos pela vontade ou orgulho de sê-lo, e mais pela necessidade do meio. Explico.
Verso 33.
A casa onde moro é a casa onde sempre morei. Nasci num hospital, dias depois me trouxeram para cá e, exceto o período perambulando por casas distintas em Marília, essa é minha casa. Teve também um período aqui em São Paulo - cerca de metade do tempo nesse meu tragicômico retorno - em que dividi-me entre aqui e o lado ocidental da coisa. Bom, mas essa é a casa onde conheço cada cantinho. É aqui onde acaba a luz de madrugada e eu consigo andar no escuro sem tropeçar em nada ou sem errar o caminho. É casa, estritamente. Ocorre que a rua é barulhenta, está entre algumas avenidas grandes da região e por todo o dia (o que engloba a noite) é cortada por carros, ônibus, caminhões, motos com escapamentos soltos e agrupamentos de pedestres mais ou menos barulhentos. Tem um cachorro que mora em alguma casa, creio que mais pra baixo, que todas as noites começa a latir por volta da uma da manhã, os demais cachorros da rua, e das ruas em volta, o seguem com latidos, compondo uma sinfonia canina única e duradoura. Há também os casos de rompimento da lógica da propriedade privada, em que larapios , serei brando, curiosos pulam portões para averiguar o que há dentro de carros e casas, por vezes levam souvenirs, por vezes levam vidas. Não tem muito jeito, essa porcariada de discurso do Datena me consumiu aqui - embora eu não assista Datena, mas tenha assistido algumas vezes, e outro dia tenha rolado um tiroteio aqui na rua, e teve uma vez (mas já faz tempo) que num curto período de tempo algumas dessas pessoas curiosas pularam o portão aqui de casa seguidas vezes em busca de dar uma espiada. Tem vezes em que a coisa é complexa: uma moto desce a rua, de repente o motor é subitamente desligado, mas eu ainda a ouço sendo deslizada pela rua, em seguida ouço um, dois, três ruídos vindos do portão, meu cachorro (o Ditão) irrompe em latidos no quintal de casa, sendo ele o puxador da Brava Orquestra Canina, outro ruído no portão, "caralho que porra é essa deixa eu ver"; levanto da cama, coloco os óculos, olho pela fresta da janela aberta do quarto ou desço até a sala para observar a frente da casa. Em geral não é nada, quer dizer, nunca foi nada, além do fato de que o sono se dissipou, bateu asas e voou.
E foi assim que me tornei notívago. Aproveito a falta de paz para dormir escrevendo uma dissertação (e textos soltos no blogue), sobretudo, às madrugadas.

Ps: é mentira, essa foto não é daqui de casa não.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Doênça.


Nunca em tão pouco tempo, com intervalos tão curtos e com tamanha constância me recordo de ter passado tantos períodos mergulhado em doênça. É incrível como a gente dá um tiro na vida e a retaliação dela é com metralhadoras e tanques de guerra e de roupas sujas e fedidas. É gripe resfriado inflamação alergia diarreia vômito virose fibrose entorse cu de burro e os caralho. É muita doênça pra muito pouco tempo. "Filho da puta, doênte do caralho", ele falou, eu respondi "filho da puta já morreu", dai o negócio descambou pra baixo e não teve mais volta. Baixo calão segunda divisão nenhum respeito mínimo entre eu e eu mesmo. Rajadas de metralhadoras com chineladas avoadas direto no pé da orelha. "Porra caralho me larga dessa doênça", "filho da puta", "pega nóis caralho", eu falei quando subi na bicicleta e fui pedalando com toda a minha força mantendo um ritmo pesado, mas a doênça não parava de vir - não tem como fugir da doênça quando o ambiente, a cidade, os espaços, tudo, formam uma capsula comprimida de doênças (olhe ao entardecer aquela camada grossa em tom de laranja-acinzentando que se forma no horizonte, a gente mora dentro dessa bolha de sujeira) - até que me choquei num palanque. Subi nele, tossi, espirrei, assoei o nariz - gastei mais dinheiro com vitamina C em comprimidos que se esfarelam nágua, remédio para gripe em embalagem econômica, xarope para tosse alérgica, tosse com catarro, tosse causada por motivos desconhecidos mas ainda assim uma tosse bem conhecida, gasta mais dinheiro com antibiótico também pra desinflamar, uma pomada para aliviar as dores físicas na coxa e outra pra tirar aquela micose nojenta que nasceu perto das bordas do saco, perde tempo e dias indo numa praga dum consultório para fazer exercícios e mexer os músculos em coma que começam a causar dores e mais dores. Subi no palanque, dei um tapinha num microfone e ergui o dedo indicador esquerda: "nunca antes na história dessa vida fiquei tantas vezes doente em tão pouco tempo". Bati as folhas contra a madeira plana do palanque, a fim de organizá-las juntas. Estava feito o verso 37.


Produtos.


Tem aquela velha tiradinha que diz que quanto mais queijo você põe num sanduíche menos queijo terá para colocar nos próximos. Tem também uma velha fala que diz que cada dia a mais que se vive é um dia a menos que se viverá. Tem aquela outra que diz que tira põe deixa ficar guerreiros com guerreiros fazem zig zig zaa, mas essa última eu não sei o que quer dizer. Parece que a cada semana o intervalo entre um maço e outro diminuí, e a sede aumenta conforme correm as páginas do texto. Também parece, por uma ironia reversa sobre as metas inatingíveis, que quanto mais texto há, mais texto há de ter, e para cada texto a mais que se tem de fazer mais maço se irá queimar e mais sede se irá ter. Maior será o vazio pelo que foi deixado de lado, e maior será o estranhamento perante o trabalho ao término de um dia inteiro. É uma ironia, tanto a queima de produtos, quanto a criação de produtos, tanto quanto o estranhamento do trabalhador frente o produto que ele mesmo criou. Que estupidez.
Verso 38.


quinta-feira, 21 de abril de 2016

Desorganizado.


Verso 39.
Daí teve um dia em que eu recebi um e-mail do serviço de biblioteca da faculdade falando que o prazo dos livros que eu havia retirado estava para vencer, e eu deveria devolvê-los no dia seguinte. Como ainda estou os usando acessei o site da biblioteca para renovar o empréstimo mas, surpresa negativa, não poderia renovar um deles. "Bom, assim sendo, vou para a faculdade amanhã, xeroco o capítulo mais relevante no momento e o devolvo". Rapaz, não é que eu tive que investir todo o dia nisso? Digo, foi um dia inteiro só para ir até a universidade xerocar trinta páginas e entregar um livro. Quando estava pedalando de volta da faculdade me recordei de um dia peculiar em Marília. Na época morava a menos de um quilômetro da universidade, havia chegado em casa da escola onde dava aula, estava calor, eu tinha acabado de almoçar e, pelado com um cigarro apagado na boca, esperava a água ferver para passar um café e com o café passado acender o cigarro. Antes da borbulha se fazer na caneca de alumínio meu celular tocou, era um funcionário da graduação me perguntando se eu não iria para a colação de grau, que começaria em dez minutos. Havia esquecido completamente disso, e me vesti às pressas, saí correndo, atravessei rodovias e corri pela calçada da faculdade com o cigarro apagado na boca. Quando cheguei a cerimônia já havia começado, e fui orientado pelo funcionário que me ligou para aguardar o fim da coisa toda e fazer o "juramento" junto do diretor, o que ocorreu. Por fim, com o grau devidamente colado, saí da sala, me sentei ao lado da porta e acendi o cigarro. Fez sentido me recordar disso enquanto voltava da universidade aqui em São Paulo, onde fui apenas para devolver um livro, pois entendi que uma das coisas que me causa tanta gastura por aqui é o fato de que eu sou desorganizado, esqueço das coisas, dos compromissos, quando tenho agenda esqueço onde a pus e quando uso a do celular esqueço de marcar os eventos nela. Eu sou isso, eu sou assim, e em São Paulo isso é um problema, por que coisas que seriam pequenos eventos (devolver um livro) se tornam um grande empreendimento (um dia inteiro). Encheu o saco, pra falar a verdade. E eu não me vejo muito disposto a mudar um traço que me agrada em minha personalidade - a tranquilidade - em razão dos ritmos e distâncias duma cidade não - se fosse a última cidade do mundo pra se viver até me esforçaria, mas não é.


segunda-feira, 18 de abril de 2016

Concretude.


No verso 42 não vai ter elucubração misteriosa-fantasiosa. Só areia, cimento, pedra e água.
Nas últimas duas semanas tenho trabalhado de 12 a 14 horas diárias na minha dissertação. Entre leituras, escritas, releituras, reescritas, retornos, retomadas e despertares súbitos na madrugada para escrever aquele insight que veio durante o sono comprovando que na verdade eu não estava dormindo, estava pensando. Daí que chegou o final de semana do golpe e eu queria ir para algum outro cantinho, próximo dos próximos. Caiu como uma luva que haveria um festival de música no sábado e no domingo em Mogi das Cruzes/SP e fui para lá. Desanuviar a cabeça, não tanto do golpe, mas sim do trabalho, do texto, do monotematismo necessário aos que estão no processo concentrando de escrita monográfica. Fiz algumas fotos, inclusive, estão aqui. Mas ai qual o presente que meu corpo dá ou recebe no retorno de um mísero período de 24 horas desligado do trabalho? Gripe, dores, tosse, garganta dolorida, catarro escorrendo pelo nariz, catarro subindo pela garganta, arrepios na cabeça indicando que tem catarro descolando do crânio - tomei um remédio que parece ter isso como efeito para isso como problema. Que grande bosta.


quinta-feira, 14 de abril de 2016

Rotina.


Meus dias têm tido a seguinte estrutura: acordo como um pão passo um café tomo o primeiro café do dia me desgostando com as notícias e fumando um cigarro e já enfio a cara no computador para brincar de artesão das palavras etnográficas. De certa forma é bom, mas de certa forma não, mas o dia que deixar de ser assim não serei eu fazendo a coisa. Depois de umas quatro horas eu tenho que passar outro café, uso, inclusive, o mesmo filtro de papel usado ao acordar, tanto por razões pseudo ecológicas quanto por motivos de sabor, se eu já estiver com fome vejo se tem alguma coisa para rango e almoço, se não tiver nada desço até um mercado do bairro, inclusive com nome de bairro, e compro alguma coisa, se não tiver com fome eu passo o café e volto a cara para a frente do computador onde passarei mais algum tempo, até dar fome. Depois que eu almoço eu tomo mais café e fico com a cara no computador, até cansar mesmo. Normalmente quando isso acontece eu janto ou tomo banho. Uma coisa curiosa que tem acontecido é que eu tenho tomado banho apenas dia sim/dia não, acho que essa média vai mudar para dia não/dia não/dia sim quando chegar o frio. Depois que eu jantei e/ou tomei banho eu volto com a cara pra frente do computador e dos livros - importante mencioná-los, mesmo que no fim da prosa, sempre tem uns três ou quatro livros em volta do computador na mesa ou em cima da cama, às vezes depois da paçoca toda eu vou dormir e tem tanto livro na mesa que eu não tenho nem pique de colocá-los de volta na prateleira e durmo com eles na cama ou os deixo em cima da cadeira mesmo por que a mesa está com o computador e cheia de tralhas. Normalmente eu faço isso tudo de cueca, quando meu pai está em casa, ou pelado, quando ele não está em casa. Hoje estou sozinho e ai fui urinar no banheiro que tem na sala onde tem um espelho oval relativamente grande. Enquanto eu urinava olhei para o meu corpo nu de perfil e olhei para a minha bunda e dei um tabefe nela de baixo pra cima e ela mexeu e remexeu como que fazendo ressoar o tabefe. "Caralho essa porra de ficar sentado numa cadeira velha e dura de frente prum computador o dia inteiro está destruindo o meu corpo estou envelhecendo de mais em pouco tempo olha toda essa flacidez", dei outro tabefe e confirmei a molenguice da bunda como um fator a ser encadeado para pensar o envelhecimento corporal que ainda me assusta e que ainda penso como precoce. Mas preciso dormir, amanhã eu trabalho.
Verso 46.
Ps.: importante ressaltar que nos intervalos para descer e pegar café, almoçar, jantar, comer pão, gritar correndo pelado ou de cuecas pelos espaços da casa, eu sempre acabo dando uma atenção para o Ditão, o cachorro que mora embaixo de uma mesa de escritório posicionada em frente à máquina de lavar roupas no quintal de casa.


terça-feira, 12 de abril de 2016

Bibida.


Uma vez eu saí pra comprar cerveja e meu pai perguntou se eu não achava que estava gastando muito dinheiro com bebida. Ele tem um jeito de lidar com as coisas em que pergunta ou comenta uma vez só, depois, quando elas se repetem, ele não pergunta ou comenta, apenas olha. Eu acho que eu tinha dezesseis anos quando tomei um esculacho do meu vô sem que ele me dissesse nada, apenas me olhou. Daí em diante eu entendi bem como funcionam algumas hierarquias que, de certa forma, marcam o desprezo de quem está acima mas te dão certa liberdade para agir. Ninguém vai dizer nada, ninguém vai te impedir de nada, vão olhar
Verso 48.
Eu já pensei mais sobre essa questão do consumo de cerveja e de bebidas acoólicas em geral, embora o meu foco seja mesmo a cerveja. Mas eu não penso com relação à dinheiro gasto, penso em comparativo com o resto da vida que vai pelo ralo. Tanto que, na única vez em que meu pai fez a pergunta, minha reflexão com ele foi de que eu não me preocupava por estar gastando dinheiro com cerveja, me preocupava mesmo era a angústia pela sensação do tempo passando como que em vão, sem lá muito aproveitamento. Pelo menos eu tenho dinheiro pra tomar uma cerveja. 


segunda-feira, 11 de abril de 2016

Gráfica.


Verso 49.
Sempre gostei de material gráfico. Lembro de ir com meu pai naquelas feiras de negócios com diversos expositores mostrando produtos de gráficas para pessoas que trabalhavam realizando trabalhos gráficos e voltar com sacolas cheias de amostras dos produtos gráficos e me divertir com aquilo. Etiquetas, rótulos, embalagens, envelopes - a materialidade do jingle da mackcolor me agradava, inclusive pelo aroma da tinta. Teve uma altura do campeonato que eu pensei em deixar tudo de lado, ainda não havia tanta coisa envolvida nesse 'tudo', é verdade, e me zarpar para alguma cidade pequena (no máximo cem mil habitantes) e descolar um trampo numa gráfica. Aprender a manusear um papel, uma impressora industrial, ligar irritado, mas parcimonioso, para algum cliente para lhe falar que pela quarta vez me mandou um arquivo em PDF com formato ou alguma coisa errada - aprenderia também sobre o que são certos e o que são errados numa gráfica. Pensei também, isso foi um pouco depois, na ideia de ir para alguma cidade um pouco maior (no máximo duzentos mil habitantes) e fazer uma faculdade de design gráfico, um curso de dois anos, e paralelamente trabalhar numa gráfica, ai eu aprenderia a mexer em papel e em impressoras, e também teria uma formação voltada a outra etapa do processo, a de criação das peças gráficas. Dai, antes disso tudo ainda, tinha uma época que logo na entrada da região onde eu trabalhava tinha uma gráfica bem grande e quando eu passava lá indo pro trabalho eu ouvia o barulho das máquinas e imaginava "caramba que máquinas grandes, se eu trabalhasse aqui eu ia resmungar do barulho delas, aposto, e ia também usar algum tipo de protetor auricular bem grande, ia praticamente enrolar um colchão na minha cabeça pro ruído das máquinas não arrebentar meus tímpanos musicais". Teve também, nesse mesmo período, o dia em que eu descobri o site duma gráfica rápida on line que foi uma época bem legal, eu ficava namorando a infinidade de produtos gráficos no menu de produtos e serviços e no portfólio deles e ficava imaginando o processo para a composição das peças, por que, querendo ou não, deve ter uma etapa no processo de criação dessas peças que é manual, deve ter algum contato humano antes da coisa ser toda maquinada. Não sei, quem sabe, são muitas impressoras.

 

sábado, 9 de abril de 2016

Nada-nada.


É bem verdade que acordei tarde, e também que comecei a trabalhar tarde. Precisava/queria ir ao mercado e ainda inventei de comprar uma massa para fazer bolo que estava barata, dai fui fazer o bolo e tudo o mais. Também é verdade que enquanto esperava o bolo assar peguei para ler um artigo que rendeu ótimas luzes sobre o que deveria fazer e que consistia como "trabalho" - na verdade eu já estava trabalhando, então, consideremos que o dia útil de Gabriel começou às 17h30, que foi o instante em que coloquei o bolo no forno e olhei no relógio do microondas para calcular o tempo que levaria pra assar e fui ler. Então olhei no relógio e eram 5h12, "bom, acho que deu de trabalhar nesse texto por hoje não? Vamos descansar". Peguei aquela cerveja que estava gelando e metade do pacote de pickles - eu precisava/queria ir ao mercado - e subi para me deitar na cama e descansar. Eu sempre demoro algum tempo para desbaratinar do trampo e conseguir pegar no sono. Não sei por que imaginei que ia me deitar na cama com pickles e cerveja e ouvir alguma boa música e esperar o desbaratinamento chegar e seria tudo zen. Se transcorreram dois minutos olhando para o ventilador circulante à minha frente, tapando parte da bagunça do armário aberto, foi muito. É incrível como me assusta a possibilidade de não fazer nada, de descansar no sentido mais puro da palavra. Me assusto, realmente, com o modo como a ideia de "ficar parado" me inquieta, apavora, desajusta e faz, no mínimo, descer até a sala e pegar o computador para escrever esse texto enquanto tomo cerveja e como um quarto de quilo de pickles.
Verso 51.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Depois.


Lembro que quando vivi aquela época da vida em que os filhos da classe média são enfornados em salas de aula com formato de auditório, com o intuito de decorarem fórmulas para garantirem a continuidade do nível mediano de vida, teve uma vez em que eu me encontrei com uma jovem que tinha passado grande parte do fim da infância e de toda adolescência alçando sonhos que poderiam ser chamados de artísticos: queria ser cantora, queria ser atriz, gostava de teatro, da Maria Rita, tinha uma quedinha por alguns tipos específicos de filmes e se visualizava trabalhando neles e também em novelas; no dia em que a gente se encontrou por acaso me recordo que ela disse que estava se preparando para o vestibular para o curso de direito que se tornaria advogada legisladora defensora de bandido de colarinho branco etc e que depois que tivesse a vida garantida nesse aspecto voltaria a nutrir os sonhos tidos como artísticos, ser artista, ser cantora, brilhar na telinha na tv, ou coisa que o valha que não aconteceu nos últimos dez anos e creio que não virá a acontecer. Como a gente é burro de acreditar que vamos acabar uma coisa e ter pique de retomar nossos sonhos mais sinceros e abdicar de uma coisa que nos rendeu um padrão de vida médio e conseguir reorganizar as criatividades de dentro pra fora e o modo de ler o mundo que permite tais criatividades sendo que já fomos impugnados por uma atividade que nos sugou um pouco da alma.
Ela prestou direito, eu fiz ciências sociais. 
Verso 52.


terça-feira, 5 de abril de 2016

Sem meias palavras.


Lembro que em julho de 2013 eu inventei que me inscreveria pro mestrado na USP, e que isso seria uma conquista a alcançar. Naquela época eu estava dando aulas e, no mês em que iniciava o processo seletivo, agosto, peguei uma carga completa de aulas, o que, por um lado, atrapalhou os estudos, mas, por outro, fez com que eu aproveitasse cada trinta minutinhos livre para estudar. Passou agosto com provas e a escrita do projeto (em três dias no computador da Mariângela, por que eu estava sem na época) e só no fim de setembro seria a tal entrevista e na primeira sexta-feira de outubro sairia o resultado da bagaça. Minha ideia era pelo menos chegar à entrevista, me daria por "vencedor" - no estilo Los Hermanianos - com isso. Cheguei nela, vim para São Paulo fazê-la, voltei e no dia seguinte ao retorno não teria aula para dar, apenas uma reunião, e alistei os bons e próximos da época (eu e mais quatro) para tomarmos duas ou três caixas de bavaria em plena terça à noite. A semana foi corroída num universo mesclado de ansiedade e sensação de dever cumprido - "mas já que chegamos até aqui, eu poderia muito bem ser aprovado". Daí por volta das 19h da sexta saiu a lista, e eu já havia agenciado a compra de um ácido, "para o bem ou para o mal". Foi para o bem, eu fui aprovado. Lembro que as pessoas que ficaram sabendo me deram os parabéns de maneira tão enfática, tão feliz, algumas me abraçaram, outras queriam saber o que eu estudaria, e houve até quem desse pulos de plena felicidade me abraçando por saber o que eu estudaria. Eu mesmo estava feliz pra caralho. Naquela noite teve um rolê bem louco na cidade, Partido dos Poetas Pobres, Japona Invocada e, coroando a noite, Rock Rocket. Fiquei muito louco de ácido, depois me mantive calibrado enchendo a cara de vodka com energético. Lembro da sensação de trocar mensagens com a minha mãe lá pelas 5 da manhã falando que meu telefone estava com o visor na cor do coração da alcachofra. Voltei para casa sem meias e sem palavras - descalço vendo luzes coloridas às 7 da manhã pisando em cacos de vidro pela calçada e na lama entre as pistas da rodovia que eu atravessava pra chegar em casa e apenas sorrindo. E quando cheguei eu estava muito louco, e feliz, e sorridente pra caralho pensando que havia entrado num rumo fantástico pra minha vida que era a continuidade de uma vida muito louca regada a um conhecimento antropológico e humano e artístico e corinthianista e colorido... A gente nunca imagina que no cotidiano planejado teremos como maior felicidade no dia a hora em que levanta pra pegar mais um café requentado, acende um cigarro vagabundo sentado na privada e fuma, bebe café e caga.
***
De certa forma, esse é o começo de uma contagem regressiva. Esse é o verso 55, adiante, amanhã vem o verso 54 da prosa.