quinta-feira, 10 de março de 2016

Você não tem o perfil.


Às vezes as pessoas fazem comentários para mim e eu guardo aquilo como um bom dispositivo para pensar. Acho que o exemplo mais vívido disso foi quando, em 2005, uma senhora falou que eu não deveria ser levado à sério por me "auto intitular Coiso". De certa forma, ela estava certa, no entanto há um juízo de valor na fala dela que eu suspendo: qual a vital necessidade de ser sério, de ser levado à sério? Sobretudo quando se é e se faz coisas de Coiso...
Foi no ano passado, ou no fim do retrasado, não sei, faz um ano, mas não chega a dois, me disseram: "você tem potencial para a academia, mas não tem o perfil". Esse papo de ter ou não perfil para algo, que parece enquadramento classificatório em processo seletivo para obtenção de emprego, foi dito por alguém que, em tese, detém o perfil e em pouco tempo estará ditando normas sobre perfis.
Aliás, vocês leram esse texto que saiu na Carta Capital sobre "a vaidade acadêmica"? Digamos que quem me classificou como "desperfilizado" para a academia é alguém que domina amplamente a destilação de tais vaidades.
Mas vamos manter o rumo da prosa: "você tem potencial para a academia, mas não tem o perfil".
E não tenho mesmo. Acordei, faço o meu horário, tenho meu planejamento do que ler e do que escrever, mas os rigores necessários - talvez os componentes de tal "perfil" - me são fugidios. A disciplina para o trabalho não ocorre com simplicidade, e quando ocorre, quando engato no trabalho, a cabeça só desliga em casos extremos: dores nos olhos, pulsação na cabeça - esses dias cheguei a cochilar sentado de frente para o computador.
Na verdade a maior parte do tempo sinto vontade de ter um trabalho que não seja tão reflexivo, tão constante. Um trabalho em que bato o cartão, assino o ponto, dou tchau para algum tipo de secretarix e vou para casa e acabou, até amanhã.
Não tenho perfil para encerrar um dia de trabalho a noite em um ponto, deitar para dormir e ao acordar encontrar novas respostas na cabeça, que indicam que não dormi, não descansei, que a cabeça não desligou, ficou lá a noite toda inteira martelando as questões e buscando um modo de solucioná-las.
Me recordo da noção de perfil de quem falou que não o tenho, e olho para o meu próprio cotidiano, em que desenvolvo o potencial que supostamente eu teria. Suspendo o juízo, tal qual em 2005: será que eu quero desenvolver esse tipo de perfil?
Atenção: isso é uma foto de perfil.




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