terça-feira, 29 de março de 2016

Na biqueira - II


Diferentemente do outro dia em que me enfiei em biqueira, dessa vez fui sem indicação alguma de lugar. Não tinha nenhum referencial de local próximo a onde eu estava e ninguém para me orientar onde ir. Saí no modo selvagem mesmo, como se fosse um pedestre qualquer, mas com o olhar atento às movimentações que ocorriam ao meu redor em ruas, avenidas e vielas em que eu passava. Por ser fissura que bate em fim de mês, mais parecia um chocalho ambulante, andando pra lá e pra cá com duas notas de dois e um monte de moedas no bolso - "o dinheiro vai dar", eu pensava. Andei bastante até tomar coragem de conversar com algum transeunte que parecia poder me dar alguma indicação mais objetiva de onde ir ou para qual lado seguir. Por sorte o rapaz sabia, e por sorte eu já estava próximo. Há uma série de sinais de que você está perto, cada vez mais perto - "quente, quente, queimando" - embalagens pelo chão, pessoas com cara de que acabaram de usar, o cheiro resultante de pessoas usando naquele exato instante, pessoas que passam com os bagulhos na mão. Acompanhei com o olhar uma moça atravessando a rua, tinha o passo apressado e uma das mãos bem fechadas. Quando passou por mim, disfarçando o que tinha na mão, olhei na direção de onde veio, a calçada oposta, e foi um cantinho, uma entrada naquela estreita rua que me tirou um sorriso. Aproveitei que não vinham carros, atravessei a rua, andei alguns metros e já fui logo entrando. O cheiro era forte, o produto era fresco e parecia ser de qualidade: "vê meia dúzia dessa coxinha de festa pra viagem, e duas pra eu comer agora". 


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