sábado, 26 de março de 2016

Movimentos de suspensão e desespacialização.


O rapaz se sentou em uma cadeira e afinou o violão. Começou a aquecer as cordas tocando leves sequencias de notas, interrompidas frequentemente para verificar a afinação ou alguma outra coisa. As caixas de som estavam desligadas, e eu apenas o via tocando. Não dá pra dizer que se tratava de uma praça pública, mas também não se tratava de um salão fechado, exclusivo e caro. Era, inclusive, aberto, inclusivo e gratuito. Acenderam dois pontos de luzes, paralelos entre si, e formando a mesma angulação, mas em pontos opostos, na direção do centro da "praça". Quando ligaram as caixas de som e o rapaz começou a efetivamente ser ouvido e visto tocando o violão, a moça de cabelos pretos e parcialmente presos começou alguns movimentos, ora seguindo a música, ora não. Em razão dos dois pontos de luz o corpo dela ganhava uma sombra duplicada, que pareciam dois ponteiros num relógio, e dependendo de para qual lado ela se mexesse, um dos ponteiros era mais densamente visível (quase palpável) no chão, e o outro era sugado para dentro do piso ou para além das luzes - não consegui criar uma diferenciação sobre o jogo de densidade dos ponteiros. O rapaz do violão acompanhava o som das cordas instrumentalizando outras sequências com a boca, em vocalizações de timbres inimagináveis, indescritíveis e frequentemente entrecortados pelos ônibus na rua e os aviões no céu - afinal, tratava-se de um espaço aberto no meio de uma metrópole onde o tempo era contado no girar inconstante da movimentação de ponteiros-sombra formados a partir de um corpo-ferramenta. Teve um instante, inclusive, em que o avião passava sobre nossas cabeças e a moça abriu os braços horizontalmente, bem esticados mesmo, então bateu um vento no rosto dela e os cabelos que estavam soltos se moveram de uma forma bonita e o suor no rosto dela, iluminado por um dos pontos de luzes, parecia, como o mexer dos olhos, compor toda aquela movimentação corporal integral. Dai aconteceu o que sempre acontece quando estou em um ambiente com uma música que me laceia a mente, e fechei os olhos. "Não feche os olhos, tem a moça junto da música", e tornei a abrir os olhos, mas a música me convidava a fechar os olhos e mergulhar em um ambiente que ia, pouco a pouco, sendo fecundado em meus sentimentos. "Feche os olhos só um pouco, tudo bem", e fechei, e fui para algum daqueles lugares que achamos ser bem conhecidos mas esquecemos que as pessoas estão sempre impondo mudanças nos lugares e nada será como antes, "caramba, vai ser estranho se a moça olhar para mim e eu estiver com os olhos assim". Tornei a abri-los. O espaço não era muito amplo, mas repleto de possibilidades para quem sabe olhá-las e achá-las. O espaço, aliás, era desespacializado, não era palco, não era praça, não era chão, nem era palco, talvez, ali, na base de um prédio, sufocado por outros prédios, próximo a tantas artérias de lentidão na cidade, fosse mais um campo de possibilidades para o movimento do que um espaço urbano qualquer em si. Dado instante a moça caminhou, desenhando traços invisíveis com sua meia preta no piso de linóleo cinza escuro, e se sentou em um extenso banco de madeira. Ali continuou com a incessante sessão de movimentações cativantes com seu corpo-ferramenta-humana, confesso que fechei os olhos mais um bocadinho, só alguns segundos, e quando voltei a tê-los abertos entendi que atrás dela havia uma plantação de cebolinhas gigantes, que se moviam lentamente com o vento, com a moça, com o rapaz do violão e com os olhares atentos que acompanhavam a tudo isso...
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Sobre o espetáculo "música e concerto", que assisti essa semana no Sesc Pinheiros, e que ocorrerá novamente (não "novamente", pois se trata de músicas e movimentos improvisados) na próxima terça e quarta (29 e 30/3) às 20h30 nesse mesmo local (desespacializado enquanto palco para experimentações da moça dos movimentos e do rapaz do violão e dos olhos e ouvidos que os acompanhem).


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