terça-feira, 1 de março de 2016

Eu nunca vou sarar dessas saudades?


Fim de noite. O fim do som, a saída da galera, o acender das luzes, o despedir-nos da banda, dos DJ's, dos amigos, das amigas, decretavam: fim de noite. Em geral eu estava bambo, pendendo para um lado e para outro em uma alternância significativa. Mas, também em geral, eu recolhia as últimas forças dentro do corpo (ou me valia das energias tão potentes dentro dele) para arrastar algumas caixas de cerveja, abrir uma das geladeiras e posicionar outras caixas de modo que mantivessem a porta aberta enquanto eu preenchia os espaços vazios das prateleiras com garrafas repletas de cerveja, a serem geladas para o consumo no dia seguinte. Me recordo da sensação do sopro frio no meu rosto e nos meus braços, e do perfeccionismo empregado na ação de deixar todas as garrafas com o rótulo virado para frente, facilitando a ação de quem fosse trabalhar servindo o público na noite seguinte. Às vezes eu arrastava as caixas para o fundo do bar, às vezes elas já estavam lá, e eu só ajudava a encaixá-las nos freezers da forma mais funcional possível, tanto para que gelassem, quanto para que fossem rapidamente pegas quando o bar enchesse na noite seguinte. Às vezes eu só segurava a porta do freezer. E na noite seguinte, muito possivelmente, eu estaria lá, talvez ajudando a vender as cervejas, com certeza ajudando a tomá-las. Não importa os altos e baixos que passem, que ocorram, que sejam superados etc: eu nunca vou sarar dessas saudades?
***
Eu decretei fim do dia de trabalho por volta das 1h20, e abri uma renomada cerveja que havia em minha geladeira: rótulo fosco, líquido caro, vasilhame frágil. Comprei pela internet e veio em uma embalagem que a protegia de impactos. A coloquei em um copo específico, de um modo específico. Saboreei a espuma branca amarelada e o líquido cor de cobre. Tanto sabor se misturando na minha boca. Mas na verdade eu só queria ter tomado uma Bavaria de 600ml num copo plástico no Cão Pererê.



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