quinta-feira, 3 de março de 2016

Em São Paulo não tem oásis.


Parei a bicicleta, assim que o semáforo ficou amarelo, próximo a uma ampla rotatória no começo da zona norte. Olhei para os carros através do retrovisor, olhei para os comércios na calçada à minha direita e então para a rotatória à esquerda. Árvores altas faziam sombra na maior parte daquele círculo, que tinha seu chão forrado por um gramado entrecortado por passeios de asfalto com bancos de cimento. Ao pé de uma das árvores, sobre o gramado, repousavam apodrecendo alguns frutos. Instintivamente olhei para cima, e constatei se tratar de uma goiabeira. Nos galhos dela outras goiabas tinham a cor que sei ser o tom de quando estão naquele ponto de maturação em que proporcionam um sabor agradabilíssimo. O semáforo para veículos demorava em abrir quando o de pedestres começou a piscar, indicando que o primeiro abriria. Não hesitei em ignorar o semáforo e me dirigir para a calçada, a fim de esperar a próxima abertura do semáforo de pedestres para cruzar a via até a rotatória e saborear algumas goiabas. Enquanto os carros passavam perto de mim me recordei de que aquela rua é o início da via de uma ponte, que serve para acessar a cidade que existe para lá do rio tietê. Me recordei que embaixo daquela rua passa uma galeria que alimenta o rio com lixo e esgoto. Me recordei que as árvores e seus frutos são seres vivos que crescem graças a luz do sol e à água que suas raízes captam do solo. Imaginei que aquelas goiabas, amarelinhas e rechonchudas, eram, na verdade, bombas compostas por radiação químico-solar, chuva ácida e esgoto mais tóxico que o demônio tomando banho em Chernobyl. Desisti de comer a fruta direto do pé: em São Paulo não tem oásis.




Nenhum comentário: