segunda-feira, 21 de março de 2016

Crença/Vazio.


O percurso era longo, extenso mesmo, reparei logo no início. Não sei quantas centenas de quilômetros por uma rodovia, não sei quantas centenas por outra. Apenas alguma dezena por outra e, por fim, uma centena menos um por outra. Eu quero falar sobre esses últimos noventa e nove quilômetros. Aliás, eu não, a música me fala sobre. Naquela época eu tinha um aparelho achatado para ouvir música nos fones de ouvido, e se nele cabiam dez álbuns em mp3 era muito. Tinha de ser seletivo no que deixaria lá dentro, e nunca o saberei ser, eu acho. Lembro que eu deixava os álbuns mais suaves para o final do trajeto, quando minha inquietude já alcançava picos e a vista era mais agradável - o solo tão verde ao redor da estrada, por vezes salpicado pelo pobre coitado gado, o céu era daquele saudoso azul malhado por nuvens tão branquinhas que sequer o adesivo anti reflexo e a sujeira no vidro do ônibus conseguiam impurificar. A última música do último álbum ameno nos últimos áridos quilômetros da longa estrada. Em geral tocava quando o ônibus já estava passando entre breves subidas e descidas, cercadas pela imensidão dos cafezais, perto daquele ou passando por aquele pequeno município, que, na época, era só uma sórdida parada há poucos metros do meu destino final. Aliás, naquela época eu jamais imaginava que aprenderia tanto nos arredores daquelas ruas de paralelepípedos hexagonais. O ônibus chacoalhava e encostava em uma pequena rodoviária, com apenas cinco ou seis espaços para ônibus, alguns bancos de cimento e um relógio charmosamente velho na parede - quantas voltas. Então o ônibus saía do município, todo chacoalhando, percorria umas três ou quatro ruas, voltava para a estrada e seguia, pela última dezena e meia de quilômetros. Os violinos, os chocalhos, o violão, a bateria tão suave escondidinha lá no fundo e a voz grossa e agradável cantando algo sobre para achar a minha paz. As suaves mergulhadas da guitarra no ar, nos paraísos que meus olhos tocavam - e eu sempre assim os tratei - nos desejos por chegar logo, um tanto pelo cansaço do trajeto, o desconforto do ônibus, outro tanto pela real vontade de chegar  logo, descer na rodoviária e respirar o ar, todo aquele frescor. Deve ter tido uma vez ou outra em que desci do ônibus com a música ainda tocando nos ouvidos, e o toque do olhar na serenidade do reencontro com a rodoviária circular era amansado (ou agravado) pela ideia de que é hora de deixar deus afastado; ele nunca esteve próximo mesmo. Pra que encaixar um órgão tão bonito assim no final? E colocá-lo de maneira tão progressiva quanto o meu estômago pode aguentar e me fazer querer... Tanto querer foi vivido a partir dessa nota final, ressoando, que bonito ter aproveitado a música do início ao fim.


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