sábado, 26 de março de 2016

25 de Março e os acordos.


25 de março de 2015, cansado da vida cretina e sedentária regada à consumos mais ou menos mal medidos, em geral incompreendidos, frequentemente mal absorvidos. Cansado por uma vida metropolitana babaca e cara, xarope por lenta demais, e repleta da falta de noção de autonomia. Resolvi descolar uma bicicleta. Era, de certa forma - e tratei de acordar isso bem acordado comigo mesmo sem estar dormindo - uma forma de tentar resolver alguns problemas que vinham se acumulando no último ano e dois meses, e agravado nos últimos seis meses. Era, sob grande forma - e isso também foi esclarecido - um último suspiro. No acordo ficou firmado que: se eu não gostasse ou não fizesse bem abdicaria da bicicleta e da vida e das obrigações na cidade; se eu gostasse e a coisa durasse, assim seguiria dia e noite até o fim das obrigações na cidade; se eu gostasse, não gostasse ou antes desse juízo se tornar possível eu acabasse estatelado, esmagado, morto, sem vida debaixo de algum veículo motorizado, bom, ai não teria mais escolha. Ocorreu que eu gostei, a coisa entrou de verdade na minha vida, nos meus dias - se eu fosse como esses esculhambadores da experiência humana que gostam de pensar as coisas biologicamente diria que "entrou no meu sangue". Então firmei mais um acordo, ainda sendo um tanto quanto negativista e pejorativista e ranzinzista: se um dia roubarem minha bicicleta dentro dos limites dessa cidade eu vou embora.
25 de março de 2016, me recordei que era o dia que fazia um ano em que a bicicleta havia entrado, novamente/de volta, na minha vida, e a minha vontade era celebrar esse aniversário dando um pleno pedal com ela. Como estava guardada em um bicicletário fui retirá-la, e mesmo com a forte chuva que insistia em impedir o usufruto do selim e do guidão fui teimoso em perambular com ela, mesmo que empurrando-a, junto de boas pessoas. Então paramos em uma praça no centro, eu iria no mini mercado e a Deusa (sim, Deusa) na farmácia. Bicicleta acorrentada em um poste, "nos encontramos aqui". Quando eu estava na fila do mini mercado eis que Deusa aparece na porta dele com a bicicleta em mãos, por um instante imaginei que Deusa estava pedalando - demorei a entender o que ocorria, e só fui entender quando ela falou: "tentaram roubar sua bicicleta".
Vamos agora à descrição realizada pela Deusa: "eu estava esperando para atravessar a rua quando ouvi um barulho e olhei, achei que era alguém amarrando uma bicicleta no mesmo poste que você, dai um menino, que não conseguia nem sentar nela por que era alta demais para ele, veio passando perto de mim e eu parei na frente da bicicleta e falei 'ow, parou, desce'. Tombei a bicicleta, ele desceu dela, correu e subiu em uma outra, que parecia ser dele e estava só encostada ali, e foi embora".
Realmente demorei para entender que, na verdade, a minha bicicleta foi roubada por alguns metros. O barulho que Deusa ouviu era a corrente sendo arrebentada, e o garoto chegou a escorregar sobre ela alguns metros pela rua. Seria o estopim para que eu fosse embora, não fosse a atuação Divina. No entanto, passados 365 dias de uma das únicas escolhas corretas realizadas nesse período, depois, naquele 25 de março ainda pedalei, celebrei a existência sobre as duas rodas com gosto, mas sem deixar de questionar: será que o ato de furto e desfurto realizado pelo garoto no centro de São Paulo foi um sinal divino - Deusa! - para que eu centralize a vida em pedalar o mais rápido possível noutras freguesias? 
Ps.: em São Paulo não tem oásis, mas pedalar, a minha bicicleta, é o meu oásis móvel. Parabéns & Obrigado meu amor!


Nenhum comentário: