terça-feira, 29 de março de 2016

Na biqueira - II


Diferentemente do outro dia em que me enfiei em biqueira, dessa vez fui sem indicação alguma de lugar. Não tinha nenhum referencial de local próximo a onde eu estava e ninguém para me orientar onde ir. Saí no modo selvagem mesmo, como se fosse um pedestre qualquer, mas com o olhar atento às movimentações que ocorriam ao meu redor em ruas, avenidas e vielas em que eu passava. Por ser fissura que bate em fim de mês, mais parecia um chocalho ambulante, andando pra lá e pra cá com duas notas de dois e um monte de moedas no bolso - "o dinheiro vai dar", eu pensava. Andei bastante até tomar coragem de conversar com algum transeunte que parecia poder me dar alguma indicação mais objetiva de onde ir ou para qual lado seguir. Por sorte o rapaz sabia, e por sorte eu já estava próximo. Há uma série de sinais de que você está perto, cada vez mais perto - "quente, quente, queimando" - embalagens pelo chão, pessoas com cara de que acabaram de usar, o cheiro resultante de pessoas usando naquele exato instante, pessoas que passam com os bagulhos na mão. Acompanhei com o olhar uma moça atravessando a rua, tinha o passo apressado e uma das mãos bem fechadas. Quando passou por mim, disfarçando o que tinha na mão, olhei na direção de onde veio, a calçada oposta, e foi um cantinho, uma entrada naquela estreita rua que me tirou um sorriso. Aproveitei que não vinham carros, atravessei a rua, andei alguns metros e já fui logo entrando. O cheiro era forte, o produto era fresco e parecia ser de qualidade: "vê meia dúzia dessa coxinha de festa pra viagem, e duas pra eu comer agora". 


sábado, 26 de março de 2016

25 de Março e os acordos.


25 de março de 2015, cansado da vida cretina e sedentária regada à consumos mais ou menos mal medidos, em geral incompreendidos, frequentemente mal absorvidos. Cansado por uma vida metropolitana babaca e cara, xarope por lenta demais, e repleta da falta de noção de autonomia. Resolvi descolar uma bicicleta. Era, de certa forma - e tratei de acordar isso bem acordado comigo mesmo sem estar dormindo - uma forma de tentar resolver alguns problemas que vinham se acumulando no último ano e dois meses, e agravado nos últimos seis meses. Era, sob grande forma - e isso também foi esclarecido - um último suspiro. No acordo ficou firmado que: se eu não gostasse ou não fizesse bem abdicaria da bicicleta e da vida e das obrigações na cidade; se eu gostasse e a coisa durasse, assim seguiria dia e noite até o fim das obrigações na cidade; se eu gostasse, não gostasse ou antes desse juízo se tornar possível eu acabasse estatelado, esmagado, morto, sem vida debaixo de algum veículo motorizado, bom, ai não teria mais escolha. Ocorreu que eu gostei, a coisa entrou de verdade na minha vida, nos meus dias - se eu fosse como esses esculhambadores da experiência humana que gostam de pensar as coisas biologicamente diria que "entrou no meu sangue". Então firmei mais um acordo, ainda sendo um tanto quanto negativista e pejorativista e ranzinzista: se um dia roubarem minha bicicleta dentro dos limites dessa cidade eu vou embora.
25 de março de 2016, me recordei que era o dia que fazia um ano em que a bicicleta havia entrado, novamente/de volta, na minha vida, e a minha vontade era celebrar esse aniversário dando um pleno pedal com ela. Como estava guardada em um bicicletário fui retirá-la, e mesmo com a forte chuva que insistia em impedir o usufruto do selim e do guidão fui teimoso em perambular com ela, mesmo que empurrando-a, junto de boas pessoas. Então paramos em uma praça no centro, eu iria no mini mercado e a Deusa (sim, Deusa) na farmácia. Bicicleta acorrentada em um poste, "nos encontramos aqui". Quando eu estava na fila do mini mercado eis que Deusa aparece na porta dele com a bicicleta em mãos, por um instante imaginei que Deusa estava pedalando - demorei a entender o que ocorria, e só fui entender quando ela falou: "tentaram roubar sua bicicleta".
Vamos agora à descrição realizada pela Deusa: "eu estava esperando para atravessar a rua quando ouvi um barulho e olhei, achei que era alguém amarrando uma bicicleta no mesmo poste que você, dai um menino, que não conseguia nem sentar nela por que era alta demais para ele, veio passando perto de mim e eu parei na frente da bicicleta e falei 'ow, parou, desce'. Tombei a bicicleta, ele desceu dela, correu e subiu em uma outra, que parecia ser dele e estava só encostada ali, e foi embora".
Realmente demorei para entender que, na verdade, a minha bicicleta foi roubada por alguns metros. O barulho que Deusa ouviu era a corrente sendo arrebentada, e o garoto chegou a escorregar sobre ela alguns metros pela rua. Seria o estopim para que eu fosse embora, não fosse a atuação Divina. No entanto, passados 365 dias de uma das únicas escolhas corretas realizadas nesse período, depois, naquele 25 de março ainda pedalei, celebrei a existência sobre as duas rodas com gosto, mas sem deixar de questionar: será que o ato de furto e desfurto realizado pelo garoto no centro de São Paulo foi um sinal divino - Deusa! - para que eu centralize a vida em pedalar o mais rápido possível noutras freguesias? 
Ps.: em São Paulo não tem oásis, mas pedalar, a minha bicicleta, é o meu oásis móvel. Parabéns & Obrigado meu amor!


Movimentos de suspensão e desespacialização.


O rapaz se sentou em uma cadeira e afinou o violão. Começou a aquecer as cordas tocando leves sequencias de notas, interrompidas frequentemente para verificar a afinação ou alguma outra coisa. As caixas de som estavam desligadas, e eu apenas o via tocando. Não dá pra dizer que se tratava de uma praça pública, mas também não se tratava de um salão fechado, exclusivo e caro. Era, inclusive, aberto, inclusivo e gratuito. Acenderam dois pontos de luzes, paralelos entre si, e formando a mesma angulação, mas em pontos opostos, na direção do centro da "praça". Quando ligaram as caixas de som e o rapaz começou a efetivamente ser ouvido e visto tocando o violão, a moça de cabelos pretos e parcialmente presos começou alguns movimentos, ora seguindo a música, ora não. Em razão dos dois pontos de luz o corpo dela ganhava uma sombra duplicada, que pareciam dois ponteiros num relógio, e dependendo de para qual lado ela se mexesse, um dos ponteiros era mais densamente visível (quase palpável) no chão, e o outro era sugado para dentro do piso ou para além das luzes - não consegui criar uma diferenciação sobre o jogo de densidade dos ponteiros. O rapaz do violão acompanhava o som das cordas instrumentalizando outras sequências com a boca, em vocalizações de timbres inimagináveis, indescritíveis e frequentemente entrecortados pelos ônibus na rua e os aviões no céu - afinal, tratava-se de um espaço aberto no meio de uma metrópole onde o tempo era contado no girar inconstante da movimentação de ponteiros-sombra formados a partir de um corpo-ferramenta. Teve um instante, inclusive, em que o avião passava sobre nossas cabeças e a moça abriu os braços horizontalmente, bem esticados mesmo, então bateu um vento no rosto dela e os cabelos que estavam soltos se moveram de uma forma bonita e o suor no rosto dela, iluminado por um dos pontos de luzes, parecia, como o mexer dos olhos, compor toda aquela movimentação corporal integral. Dai aconteceu o que sempre acontece quando estou em um ambiente com uma música que me laceia a mente, e fechei os olhos. "Não feche os olhos, tem a moça junto da música", e tornei a abrir os olhos, mas a música me convidava a fechar os olhos e mergulhar em um ambiente que ia, pouco a pouco, sendo fecundado em meus sentimentos. "Feche os olhos só um pouco, tudo bem", e fechei, e fui para algum daqueles lugares que achamos ser bem conhecidos mas esquecemos que as pessoas estão sempre impondo mudanças nos lugares e nada será como antes, "caramba, vai ser estranho se a moça olhar para mim e eu estiver com os olhos assim". Tornei a abri-los. O espaço não era muito amplo, mas repleto de possibilidades para quem sabe olhá-las e achá-las. O espaço, aliás, era desespacializado, não era palco, não era praça, não era chão, nem era palco, talvez, ali, na base de um prédio, sufocado por outros prédios, próximo a tantas artérias de lentidão na cidade, fosse mais um campo de possibilidades para o movimento do que um espaço urbano qualquer em si. Dado instante a moça caminhou, desenhando traços invisíveis com sua meia preta no piso de linóleo cinza escuro, e se sentou em um extenso banco de madeira. Ali continuou com a incessante sessão de movimentações cativantes com seu corpo-ferramenta-humana, confesso que fechei os olhos mais um bocadinho, só alguns segundos, e quando voltei a tê-los abertos entendi que atrás dela havia uma plantação de cebolinhas gigantes, que se moviam lentamente com o vento, com a moça, com o rapaz do violão e com os olhares atentos que acompanhavam a tudo isso...
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Sobre o espetáculo "música e concerto", que assisti essa semana no Sesc Pinheiros, e que ocorrerá novamente (não "novamente", pois se trata de músicas e movimentos improvisados) na próxima terça e quarta (29 e 30/3) às 20h30 nesse mesmo local (desespacializado enquanto palco para experimentações da moça dos movimentos e do rapaz do violão e dos olhos e ouvidos que os acompanhem).


terça-feira, 22 de março de 2016

A nova páscoa.


Então chegamos a mais uma semana santa. Ano de 2016, ânimos extremados pelo país, grampos ilegais daqui, nomeações ministeriais colocadas sob suspeita de lá, articulação para substituir aqueles que se quer foram julgados. 
A família tradicional cristã brasileira foi às ruas, começaram mansinhos mas não demoraram em mostrar a real face, com os dentes afiados bem à mostra. Bateram em quem tava passando com bicicleta vermelha, bateram em mãe com criança de colo com detalhes vermelhos na roupa, uniram a bandeira do Brasil a grupos que a defendem com um bigodinho grosso e curto entre o círculo azul e o losango amarelo. Criaram bonequinhos infláveis com as imagens daqueles que devem ser crucificados e atiraram pedras contra aqueles que ousaram discordar de suas opiniões inquestionáveis. Mas, então, chegamos à semana santa de 2016. 
Na sexta feira celebra-se, com todo o pesar da tristeza cristã, a morte injusta de um injustiçado perseguido injustamente pelo poderio romano por tê-los afrontado, proposto outras lógicas, ordens, distribuições. No sábado malha-se o traidor que caguetou a rapaziada toda do bem. E no domingo celebra-se o renascimento dele, óh, filho de deus, fundador da nossa crença e das nossas verdades. 
Assim, considerando o panorama político atual no país, e muitas atitudes do cidadão de bem brasileiro atualmente, sugiro algumas mudanças para a páscoa dessa rapaziada em 2016:

-Na sexta feira suspendam a "carne branca", e chafurdem a cara no churrasco, sobretudo com bastante carne vermelha, enfiem a faca nela e comam com vontade. Se possível, pintem o boi a ser abatido de vermelho e levem as crianças para uma divertida caçada no pasto, descarreguem esse ódio tal qual carrascos romanos desferiram marteladas nos pregos que fixaram o moço à cruz, se foi preso, coisa boa não deveria ser;
-No sábado nada de malhar o Judas, de tomá-lo por traidor ou coisa do gênero, nada de fazer um boneco e recheá-lo com doces. Antes esperem que ele lhes diga tudo que lhes é conveniente, que entregue todos os Jesusinhos e Cristinhos que lhes cabe perseguir, ouçam sem críticas e esperem que ele distribua ovos para que vocês procurem pelos neles. Depois, quando ele levantar o dedo e apontar para algum de vocês, ai sim é hora das pauladas, ai sim ele se tornou mentiroso bandido ladrão maltrapilho; não se esqueçam de utilizar grampos para prender um pano vermelho nele, chamem as crianças para bater também, assim elas entendem direito (sobretudo depois do exercício com o boi) como que funcionam as coisas;
-Por fim, o domingo. Nada de almoço de páscoa, celebração familiar, missa de manhã choramingando com "óh o cara ressuscitou e vai reinar nos nossos corações eternamente". Nada disso! Mendigo ladrão maltrapilho corrupto bandidinho duma figa, nós vamos te pegar, se foi preso coisa boa não era! Pena de morte já! Junte as crianças e saíam com elas para as ruas para mais uma divertida caçada, lembrem-se: vocês são romanos justiceiros, o senso de justiça está em seus olhos, ouvidos e naqueles que os alimentam com o que lhes interessa ouvir, qualquer discordância tem de ser apedrejada e crucificada. 
Não se esqueçam de fechar a semana santa com mais carne vermelha, sugerimos filet mignon à lá Fiesp.


segunda-feira, 21 de março de 2016

Crença/Vazio.


O percurso era longo, extenso mesmo, reparei logo no início. Não sei quantas centenas de quilômetros por uma rodovia, não sei quantas centenas por outra. Apenas alguma dezena por outra e, por fim, uma centena menos um por outra. Eu quero falar sobre esses últimos noventa e nove quilômetros. Aliás, eu não, a música me fala sobre. Naquela época eu tinha um aparelho achatado para ouvir música nos fones de ouvido, e se nele cabiam dez álbuns em mp3 era muito. Tinha de ser seletivo no que deixaria lá dentro, e nunca o saberei ser, eu acho. Lembro que eu deixava os álbuns mais suaves para o final do trajeto, quando minha inquietude já alcançava picos e a vista era mais agradável - o solo tão verde ao redor da estrada, por vezes salpicado pelo pobre coitado gado, o céu era daquele saudoso azul malhado por nuvens tão branquinhas que sequer o adesivo anti reflexo e a sujeira no vidro do ônibus conseguiam impurificar. A última música do último álbum ameno nos últimos áridos quilômetros da longa estrada. Em geral tocava quando o ônibus já estava passando entre breves subidas e descidas, cercadas pela imensidão dos cafezais, perto daquele ou passando por aquele pequeno município, que, na época, era só uma sórdida parada há poucos metros do meu destino final. Aliás, naquela época eu jamais imaginava que aprenderia tanto nos arredores daquelas ruas de paralelepípedos hexagonais. O ônibus chacoalhava e encostava em uma pequena rodoviária, com apenas cinco ou seis espaços para ônibus, alguns bancos de cimento e um relógio charmosamente velho na parede - quantas voltas. Então o ônibus saía do município, todo chacoalhando, percorria umas três ou quatro ruas, voltava para a estrada e seguia, pela última dezena e meia de quilômetros. Os violinos, os chocalhos, o violão, a bateria tão suave escondidinha lá no fundo e a voz grossa e agradável cantando algo sobre para achar a minha paz. As suaves mergulhadas da guitarra no ar, nos paraísos que meus olhos tocavam - e eu sempre assim os tratei - nos desejos por chegar logo, um tanto pelo cansaço do trajeto, o desconforto do ônibus, outro tanto pela real vontade de chegar  logo, descer na rodoviária e respirar o ar, todo aquele frescor. Deve ter tido uma vez ou outra em que desci do ônibus com a música ainda tocando nos ouvidos, e o toque do olhar na serenidade do reencontro com a rodoviária circular era amansado (ou agravado) pela ideia de que é hora de deixar deus afastado; ele nunca esteve próximo mesmo. Pra que encaixar um órgão tão bonito assim no final? E colocá-lo de maneira tão progressiva quanto o meu estômago pode aguentar e me fazer querer... Tanto querer foi vivido a partir dessa nota final, ressoando, que bonito ter aproveitado a música do início ao fim.


sábado, 12 de março de 2016

Nacional x Flamengo/SP - Campeonato Paulista série A3


"Um estádio sufocado pelo capital", isso é o que eu pensei repetidas vezes durante as cerca de duas horas que permaneci no Estádio Nicolau Alayon, o estádio do Nacional Atlético Clube, na região da Barra Funda em São Paulo. O estádio, tudo o que ocorre dentro dele, e todos os que circulam dentro dele, tudo e todos, estão sufocados pelo capital, pela especulação imobiliária. Logo atrás do estádio cerca de uma dezena de grandes torres, com vinte e sete andares cada, cobrem o horizonte, trata-se de um bairro vertical com apartamentos de alto padrão, ou seja: lugares para ricos. Dependendo do ângulo que se olha, a sensação é de que os prédios, em breve, engolirão ou pisotearão o estádio. Espero, honestamente, que isso não ocorra: essa praça futebolística é um oásis no futebol profissional na cidade de São Paulo. Ainda dentro da área do clube, a poucos metros do gramado, os tentáculos do capital financeiro internacional se fazem presentes em campos de society, pelo que sei utilizados como "escolinha de futebol do barcelona". Os jogos da escolinha, com dezenas de garotos desfilando à lá Messi e Neymar, uma ode ao futebol globalizado-espetacularizado-sonegador, de certa forma interfere no que ocorre no gramado do Nicolau, de onde os apitos do árbitro da escolinha se fundem aos do árbitro do jogo profissional.
Bom, vamos às fotos de Nacional x Flamengo de Guarulhos.



















































quinta-feira, 10 de março de 2016

Você não tem o perfil.


Às vezes as pessoas fazem comentários para mim e eu guardo aquilo como um bom dispositivo para pensar. Acho que o exemplo mais vívido disso foi quando, em 2005, uma senhora falou que eu não deveria ser levado à sério por me "auto intitular Coiso". De certa forma, ela estava certa, no entanto há um juízo de valor na fala dela que eu suspendo: qual a vital necessidade de ser sério, de ser levado à sério? Sobretudo quando se é e se faz coisas de Coiso...
Foi no ano passado, ou no fim do retrasado, não sei, faz um ano, mas não chega a dois, me disseram: "você tem potencial para a academia, mas não tem o perfil". Esse papo de ter ou não perfil para algo, que parece enquadramento classificatório em processo seletivo para obtenção de emprego, foi dito por alguém que, em tese, detém o perfil e em pouco tempo estará ditando normas sobre perfis.
Aliás, vocês leram esse texto que saiu na Carta Capital sobre "a vaidade acadêmica"? Digamos que quem me classificou como "desperfilizado" para a academia é alguém que domina amplamente a destilação de tais vaidades.
Mas vamos manter o rumo da prosa: "você tem potencial para a academia, mas não tem o perfil".
E não tenho mesmo. Acordei, faço o meu horário, tenho meu planejamento do que ler e do que escrever, mas os rigores necessários - talvez os componentes de tal "perfil" - me são fugidios. A disciplina para o trabalho não ocorre com simplicidade, e quando ocorre, quando engato no trabalho, a cabeça só desliga em casos extremos: dores nos olhos, pulsação na cabeça - esses dias cheguei a cochilar sentado de frente para o computador.
Na verdade a maior parte do tempo sinto vontade de ter um trabalho que não seja tão reflexivo, tão constante. Um trabalho em que bato o cartão, assino o ponto, dou tchau para algum tipo de secretarix e vou para casa e acabou, até amanhã.
Não tenho perfil para encerrar um dia de trabalho a noite em um ponto, deitar para dormir e ao acordar encontrar novas respostas na cabeça, que indicam que não dormi, não descansei, que a cabeça não desligou, ficou lá a noite toda inteira martelando as questões e buscando um modo de solucioná-las.
Me recordo da noção de perfil de quem falou que não o tenho, e olho para o meu próprio cotidiano, em que desenvolvo o potencial que supostamente eu teria. Suspendo o juízo, tal qual em 2005: será que eu quero desenvolver esse tipo de perfil?
Atenção: isso é uma foto de perfil.