sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Quê que eu faço com essa massa toda?


Breve relato de José Gomes Neto - XXIX:


"Tive por um tempo aquele ótimo interlocutor, a quem eu jamais ousaria chamar de amigo. Era uma espécie de parede supra animada com quem eu conversava frequentemente. Na verdade eu também não chamaria aquilo de conversa, visto que a grande maior parte do tempo era eu quem falava. E falava. Certa vez a parede interlocutória deu uma ideia: "deixe o objeto de lado, vamos pensar no fenômeno". Que tijolaço é chegar neste ponto. Fiz isso. Como se tivesse entrado em uma boa cantina italiana e pedido uma bela lasanha, mas em vez de comê-la em pedaços, com todos os ingredientes a cada garfada, me concentrasse em desmembrá-la. Restou apenas a massa. Placas de massa amarela, avermelhadas pelo molho, empilhadas no prato. Eu olho pra massa, aquele monte de objeto sem fenômeno, eu me recordo do sabor dos fenômenos, estão ainda por aqui, nos cantos da boca, debaixo da língua e no topo do esôfago. Eu olho pro prato: 'quê que eu faço com essa massa toda?'".

José Gomes Neto,
12 de Fevereiro de 2014,
Objeto sem fenômeno.



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