quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Qual a necessidade disso?


Quando eu era criança, e até mais jovem, eu era um incendiário, e em certos tempos, um verdadeiro homem bomba. Período de férias na rua dos meus avós eu e meus amigos comprávamos bombas, fogos, rojões, luminosos etc tudo o que fosse incinerante e, preferencialmente, explosivo e barulhento. 
Nos últimos anos passei a olhar essas coisas com certa bronca, classificando tais artefatos como cretinice barulhenta do inferno, queima de dinheiro e de recursos naturais que atazana os ouvidos dos animais em nome de comunicações simbólicas: o novo ano, o nascimento de jesus, o gol do título, a chegada dos homi etc.
Em 2014, na noite do revéion, coincidiu de eu estar em uma praia em que uma molecada soltava fogos. Senti um temor estranho, me protegi deles, como que sentindo o anúncio de uma tragédia - o garoto incendiário não existe mais. 
Em 2015, de novo: teria fogos na praia onde eu estava. Por volta das 23 horas as pessoas passavam e perguntavam "você sabe onde vai ser a queima de fogos?", "sei lá bicho", respondia honesto.
Então chegou a hora da queima dos estopins e dos estouros coloridos no céu. 
Aliás, sobre esse instante, lembro que até pouco tempo era famosa a frase "no meu [relógio] já é meia noite". Dai você estava na praia com a sua família e uma tia dizia "falta um minuto", e quando vocês estavam se preparando para a contagem regressiva uma turma ao lado já estava estourando champanhe e fazendo os votos de feliz ano novo. Hoje, com essa padronização da hora, todos os aparelhos de smartphone marcam o mesmo segundo, sempre, e esse tipo de coisa não ocorre mais: os robôs estão mais sincronizados do que nunca.
Cogumelos coloridos e prateados e dourados se replicam no céu por toda a orla. Um rastro branco se transforma numa bola vermelha, e em dezenas de bolas verdes que se estouram em pequenos folículos dourados. 
Eu estava meio bêbado quando essas coisas aconteciam, e não entendi, mas parecia que os fogos no céu estavam se replicando em milhões de bolinhas prateadas sobre a areia.  
Eu estava meio bêbado, e demorei pra perceber que estas bolinhas, na verdade, eram as luzes dos flashs de milhares de smartphones nas mãos de pessoas vestidas de branco filmando a queima de fogos. Olhei para a frente, olhei para trás, a imensidão de flashs estava em toda a faixa de areia, de ponta a ponta na praia
Ao meu lado um garotinho segurava desengonçado um celular que, em sua mão, parecia uma grande telha de barro. Ele assistia o formar e desformar dos cogumelos coloridos no céu por meio da tela retangular do smartphone. Junto dele um homem adulto, uma mulher adulta e uma moça adolescente, todos realizavam esta, talvez, nova etapa do ritual de ano novo: registrar no celular a queima de fogos do reveion.
Tenho minhas dúvidas se é muito nobre abordar a questão dessa maneira, mas ainda ali na praia realizei a mim mesmo uma pergunta singela: qual a necessidade disso?


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