terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Para além das buzinadas - I.


Voltei de Marília (cidade querida, que saudade) para São Paulo faz mais ou menos e exatamente dois anos. O motivador disto era fazer um mestrado em Antropologia Social, tocando uma pesquisa de caráter etnográfico com torcedores de futebol. No entanto, assim como dizia que em Marília fiz duas faculdades - uma na Unesp e outra no Cão Pererê - brinco de ouso dizer que neste período de retorno a São Paulo realizo duas pesquisas: uma com os torcedores e outra sobre os modos de vida paulistanos.
Houve um período, e agora já falo mais abertamente sobre isso, em que eu cogitava diariamente a ideia de ir embora. Inspirar-me no rapaz que rasgou as notas da apuração de carnaval, pegar as folhas todas que tinha ao meu redor, rasgá-las e ir embora. 
Quando isso estava no nível de fazer planos sobre para onde eu iria, tive alguns dias de calma e tomei algumas decisões, dentre elas organizar uma bicicleta. Comecei a pedalar por ai, e foi bacana. Me deu uma motivação outra para tocar a vida aqui. 
Isso tem a ver com a pesquisa sobre os modos de vida dos paulistanos pois tem me permitido vivenciar a rua e o trânsito sob outra perspectiva, a de agente atuante neste - já que não dirijo, e meus deslocamentos eram todos por meios de transportes públicos.
Às vezes estou passando com minha bicicleta por aquela estreita faixa cinza, entre a rua e a calçada, e um mínimo desvio, seja escapando de um buraco e caindo para o centro da rua, seja olhando para o lado oposto de onde vem os carros (para ver se vem mais carro), e logo ganho uma buzinada e/ou um grito. 
Um ponto a se considerar é o de que a mídia, desde o início da implantação das ciclofaixas por uma gestão do PT, faz a sua parte em inflamar os ânimos contra o sujeito - tomado como anímico, desprezível e menos paulistanamente humano - em cima da bicicleta. 
Mas o que há para além das buzinadas? O que há para além dos gritos de "sai da rua", "vai tomar no cu" e "ciclofaixa do caralho"? (Listei alguns dos que ouvi nos últimos dias, e que me trazem a este texto). Simbolicamente, o que estão comunicando?
Neste capítulo de minha pesquisa informal sobre os modos de vida paulistanos ainda não cheguei a uma conclusão direta, mas tenho alguns apontamentos a fazer.
A lógica do carro é burra, explico citando apenas um exemplo - a pesquisa é informal. 
Outro dia permaneci cerca de três minutos em um canteiro central duma avenida, eram mais ou menos 19 horas e a quantidade de carros por ali bem grande. Enquanto aguardava o semáforo de pedestres de um lado abrir, acompanhei os carros que passavam do outro lado. No período de três minutos o semáforo para carros abriu duas vezes, e na faixa mais próxima ao canteiro passaram, na primeira vez, nove carros, e na segunda, oito. Contei quantas pessoas havia em cada carro, sendo que, do total de dezenove carros que passaram, dois tinham duas pessoas, e o restante uma. Portanto, a lentidão para a circulação de pessoas é causada pelo volume de carros.
O que há de conclusividade nisso? O trânsito não é formado por pessoas em trânsito, mas sim por pessoas atravancadas em amontoados de aço, engenharia e tecnologia parados. Isso é irritante, suponho.
E mais irritante ainda, creio, é estar lá, dentro do seu sonho de consumo, do produto dos seus dias de trabalho - que é pago com o suor dos seus dias de trabalho - os vidros fechados para aproveitar ao máximo o vento gélido do ar condicionado pago com a cara gasolina, e ao seu lado passa, assobiando, bem mais rápido do que você (por que não está parado) uma porra dum ciclista.
Ele pedala sorridente, usa um capacete com adesivos ilegíveis e agora parou de sorrir para assobiar. O semáforo abriu, ele se foi, você ficou. Mais a frente, na mesma avenida, outro semáforo atravancando o seu retorno para casa - que nem é tão longe do trabalho assim - e você vê, lá na frente, o maldito ciclista.
Mandá-lo tomar no cu, buzinar agressivamente para ele, erguer o braço, o dedo médio etc. Isso é tudo que lhe resta, pois, para além das buzinadas, está a frustração ao ver que o modo de vida que enfiaram na sua cabeça como "o único possível", não é tão eficiente assim em uma cidade que cada vez mais se parece com uma toupeira manca tentando alcançar uma pequena e ligeira rã que lhe serviria como alimento.


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