quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Lavar as mãos para almoçar.


Olhei para as mãos sujas e pensei se seria melhor lavá-las no banheiro mais distante do restaurante ou no que há próximo a sua entrada. Me recordei de outro restaurante, em que não havia tanto esta opção: a pia ficava ao lado da entrada, e se passava por ela antes de acessar os alimentos. Em razão do espaço ser relativamente pequeno, e os rostos deveras conhecidos entre si, havia certa expiação: "Gabriel, não vi você lavando as mãos", "é que eu já tinha lavado no banheiro antes", "sei...". Era curioso. Teve uma época que até se sentar e comer era necessário participar de três filas: para pagar, para lavar as mãos e para pegar a comida, às vezes havia uma quarta, para esperar vagar um lugar nas mesas brancas com ferros pretos. Neste modo de organização, muita comida ia pro lixo, e houve uma reorganização no modo de acesso a ela, que representou mais filas: uma para comprar um bilhete (frequentemente mais disputado do que tickets para show de reunião de banda caquética de roque), mais tarde, uma para entrar no restaurante, outra para lavar as mãos, para pegar comida e, às vezes, a de esperar um lugar vago. Certa vez me questionei: "com quantas pessoas distintas já me sentei nesses bancos? Será que em um futuro mais distante me lembrarei delas?". Me perco nestes redemoinhos de lembranças, e quase me esqueço que preciso lavar as mãos para almoçar.


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