domingo, 29 de novembro de 2015

Imaginando Manchetes.


Pela manhã, nas bancas de jornais, a manchete da página principal d'O Estado de São Paulo (Estadão) indica: "Bicicleta, a nova aliada de São Paulo". Na Folha de São Paulo (Folha), seguindo a mesma lógica, o caderno Cotidiano teria uma página inteira com textos comentando os benefícios da bicicleta para a cidade, para o trânsito, para as pessoas, para o meio ambiente etc.
Hora do almoço, tv ligada na Globo, SPTV. César Tralli aparece sorridente, com um pedaço de Marginal Pinheiros ao fundo do cenário feito de vidro. Falando e sorrindo, se aproxima do telão que há no estúdio, e comenta feliz: "tá todo mundo entrando na nova moda da bicicleta. Você anda na rua, nas grandes avenidas e é bicicleta pra lá, bicicleta pra cá, uma maravilha! Parece que essa moda veio mesmo pra ficar entre os paulistanos, né Fulana?". Fulana é uma repórter, que está ao vivo em alguma rua de São Paulo, mostrando o intensivo movimento de pessoas em bicicletas. Ela comenta o fenômeno com o mesmo entusiasmo do apresentador.
Na hora do intervalo uma chamada das Casas Bahia começa com uma família heteronormativa, branca e sorridente. Pai mãe, filho e filha, nessa ordem. Todos estão utilizando capacetes e pedalam alegremente suas bicicletas pela Avenida Paulista. A voz grossa do narrador anuncia: "a Casas Bahia está quebrando os preços de bicicletas. Compre já a sua, em até doze vezes sem juros. Várias marcas e modelos, para crianças e adultos. Confira as ofertas". E ai passam os preços - e possivelmente alguma promoção: "na compra de uma bicicleta da Caloi você ganha um capacete, comprando duas bicicletas ganhas dois capacetes e garantia estendida".
Mais tarde, já na Bandeirantes, José Luís Datena começa o "Brasil Urgente" chamando um link ao vivo, em alguma grande avenida de São Paulo. Com a revolta ditando o tom da voz, esbraveja: "Estamos com o Comandante Hamilton sobrevoando onde ocorreu o atropelamento de outro ciclista. É um absurdo isso! Isso tem que acabar! Como pode numa cidade como São Paulo ter tanto ciclista atropelado? Eu não sei nem o que tem que acontecer com uma criatura dessas que atropela um ser humano que está de bicicleta! Já prenderam o assassino Comandante?". Hamilton também está indignado.
Novela das oito na Record, em uma nada sutil ação de merchandising, uma personagem entra numa loja da Riachuelo, acompanhada de uma amiga. Seguem direto para a seção de roupas esportivas, e provam muitas roupas "para pedalar". As personagens travam o seguinte diálogo: "nossa amiga, eles estão com uma promoção super massa nessa loja, a cada duas peças de roupas para andar de bicicleta que você compra, ganha um cupom para concorrer a uma bicicleta por dia", "sério?", "sério!", "nossa, então eu já vou comprar seis peças, pra ter mais chance no sorteio, por que a minha bicicleta está tão velhinha, coitada", risos.

Assim seria um dia comum na mídia paulista, caso a implantação de ciclovias e ciclofaixas fosse ação de uma gestão municipal com interesses aliados aos da grande mídia.


segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Dois anos sem dormir.


"Vinte meses em claro, quase dois anos sem dormir, prece rezada em longos atos, 
'Senhor, arraste-os para onde eles não possam mais mentir'".

Conto nos dedos os compromissos para fechar mais um ano. O vigésimo sexto na vida, o segundo no retorno à São Paulo, o segundo como mestrando, o quarto como cientista social, o vigésimo como Corinthiano etc.
Começo essa prosa lamuriosa com verso de um "grande nó", do Ludovic (não consegui ir em nenhum dos shows de reunião realizados este ano), não por acaso.
Gostaria de esvaziar o conteúdo metafórico do assunto, e retomar os dados numérico-anuais expostos acima, ressaltando o término do segundo ano como tal e tal. Quase dois anos sem dormir.
Me diziam, ainda neste ano - que parece que durou uns três - que é curioso ter de transitar entre tantos espaços distintos como eu faço. É mesmo. E eu sempre dizia: "é curioso, e é um saco". E que saco, por que em nenhum deles eu consigo dormir direito.
Faz vinte meses, na verdade vinte e um, se eu for ser rígido com os números, que essa palhaçada de não conseguir dormir direito começou. Eu sempre tive, aqui e ali, uns probleminhas pra empacotar no sono. Teve uma época que um remedinho ajudava, teve outra época que era outro remedinho, cheguei até a acampar em casa, e tem essa época, em que é o barulho incessante dos carros na rua, as rangeções do portão, os gritos estranhos que ecoam pelo bairro, o barulho do motor do portão do prédio da quadra de baixo, a ventania na árvore do jardim ao lado, os passos pesados do rapaz do andar de cima, o cachorro do vizinho brigando com a sua tigela de água e por ai vai. Tudo isso me faz estralar os olhos e acordar, ou sequer dormir.
Os ouvidos nunca se fecham por completo, os olhos parece que não pregam mais, e a cabeça não alcança mais o estado de relaxamento total (ou semi total) de outrora. Que merda eu tinha na cabeça quando achei que seria uma boa ideia? Não há descanso, isso não existe por aqui: estou há dois anos sem dormir.


sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Jovialidade & Sustos.


Não é do meu feitio olhar para as coisas e situações vendo mais o lado ruim do que o bom, mas esse ano a gente levou um sustão, hein? E depois do susto, depois que as pernas param de tremelicar e a gente volta a ver e viver as coisas em um ritmo mais ou menos ordinário, a gente senta e toma um café - ou um capuccino - adoçado pela prosa.
Você já morava em São Paulo, naquela casa na Aclimação, que a cada relato sobre ela faz a minha imaginação voar tão longe, para a cidade daquela época, para o seu jeito de ser jovial - jovialidade mantida, apesar dos sustos.
Havia um jardim, uma garagem e um cachorro nesta casa, e certa vez apareceram alguns filhotes de gatos por lá. Como havia um cachorro, as vozes que orquestravam as regras da casa orientaram que os gatos fossem levados para outro lugar, uma fazenda, se não me falha a memória.
Ah a jovialidade, a sua jovialidade. Me contou com um riso tão gostoso, maroto, de uma malandragem pueril, que escondeu um dos gatos dentro de casa, para que não fosse levado ao sítio. Passados alguns dias o gato já era parte da casa.
Imagino você, garota, jovial no jardim, na garagem, com o gato, com o cachorro, rindo e sorrindo - eu já falei que sou encantado pelo seu sorriso e por você. Imagino as vozes das ordens da casa se assustando com você ao verem o gato em casa. Lhe imagino desde sempre, causando sustos e sorrisos, muitos sorrisos.

Feliz Parabéns Vó!




segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Revisitando, reconceituando e repensando.


Lembro que naquele fim de tarde não fazia sol, o céu definia um tempo bem nublado, mas fazia calor. Talvez era o mormaço de um dia inteiro de vapor subindo da rua aos céus e sendo bloqueado pelas nuvens, causando uma massa escrotamente quente. Naquela época, inclusive, eu era professor de geografia, e naquele dia havia dado as quatro primeiras aulas da manhã, minhas sextas feiras eram assim. Voltei para casa, almocei, dormi, acordei inquieto, e após horas brigando comigo mesmo, me obrigando a ser útil, entendi que nada sairia de mim trancafiado em casa, e que o melhor era sair para fazer qualquer coisa para além do portão. Olá sociedade de consumo. Fui para o supermercado mais próximo, eu precisaria fazer um estoque de bebidas e alguns alimentos pro final de semana mesmo. A minha lembrança, rolando sofregamente o pdf para baixo aqui & agora, na verdade, começou depois que saí do mercado. Uma sacola com algumas latas de cerveja barata quente, algum tipo de comida fast, um saquinho de amendoim com tempero/veneno vermelho e uma garrafa de uma cerveja um pouco diferente do usual gelada. Me sentei em um banco de cimento a frente do estacionamento a frente do mercado. Tomei a cerveja comendo os amendoins e escrevendo algo no caderninho que me acompanhava na época (de capa vermelha). Havia saído sem o celular, não queria ser encontrado, não queria saber das horas. Quando a cerveja e os amendoins acabaram, e a claridade que passava pelas nuvens cinzas já era baixa, decidi que era hora de voltar para casa. Passos curtos, as sacolas batendo nos calcanhares. Cruzei o pontilhão no instante em que a chuva começou a gotejar, e me escondi da pancada forte de água debaixo do toldo de uma fábrica de produtos químicos para limpeza. Esperei a chuva passar, não tinha pressa, e lembro que fui caminhando por uma rua de lama, pelo puro prazer de sujar os tênis. Quanto tempo dura a alegria por um título? Me perguntaram certa vez. Ao chegar em casa e ligar o computador, no dia desta lembrança, a ansiedade se tornou explosão das mais positivas, das mais campeãs. No entanto, não demorou para que começasse a se dissolver, como o amaciante para roupas que rende mais - apenas um copinho em cinco litros de água - e ao pressionar o ponto no final desta frase voltarei a rolar sofregamente o pdf para baixo e a me questionar: "onde eu estava com a cabeça em achar que seria uma boa ideia?".