segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Sobre viralatismo e vinhos.


O ano era 2007, e algum canal de tv aberta (Gazeta ou Rede TV, não lembro) exibia após o seu show futebolístico aos domingos à noite (composto por homens tentando vencer discussões sobre os lances dos jogos na base do berro) um programa sobre vinho. O apresentador era um rapaz chamado Lopes. Lopes aparecia sempre bem vestido em um terno alinhadinho, em gravações realizadas em um ambiente feito de madeira, com pouca luz - a maior parte da iluminação ia nele, auto intitulado "o homem do vinho". Lembro que os patrocinadores do programa eram lojas e importadoras de vinho: vendedores internacionais de drogas que causam alterações sensitivas, comportamentais, psicológicas e dependência naqueles que as consomem, ou seja, verdadeiros Pablos Escobares.
Lopes, o homem do vinho mostrava rótulos e fazia degustações deles. Falava dos sabores, das uvas envolvidas na produção, de com quais tipos de comidas combinariam. Lopes, o homem do vinho dava dicas de como montar uma adega em casa, de quais vinhos servir em qual tipo de ocasião social, estação do ano, cor de toalha, cor de roupa etc.
Me inquietava o fato de que o homem do vinho não falava de vinhos produzidos no Brasil, e, em razão disso, algumas vezes mandei e-mails para Lopes pedindo uma análise dos meus rótulos favoritos naquela época: San Goés, Sangue de Boi, Chapinha e Lazzari (este último fabricado sob demanda da rede de supermercados populares "Dia%"). Lopes nunca me respondeu, e nem nunca analisou meus vinhos na televisão. Eram só "rótulos chilenos" para cá, "novidade francesa" para lá, "combinação italiana" acolá. 
Esses dias, por agora mesmo, fui comprar um vinho de marca brasileira. Fazia tempo que não consumia tal droga sacra, e fui procurá-la em um canto do mercado onde há uma "climatização" para a venda dos vinhos: o chão é feito com um piso em taco de madeira, diferente do solado emborrachado do restante do mercado, as prateleiras, igualmente em madeira, diferem-se das demais. 
Nesta noite havia uma degustação, um rapaz vestindo terno servia vinhos em pequenas taças plásticas para pessoas vestindo ternos ou sapatos de salto, que conversavam de maneira amena em pequenas rodas. No ambiente, complementando a "climatização", uma música clássica - não identifiquei qual - era reproduzida em um volume agradável. Um segurança posicionava-se em uma espécie de entrada a este setor, e observava cada movimentação das pessoas.
Acessei o espaço com as prateleiras e transitei por entre elas, observando que eram divididas por países, indicados pelo nome e a bandeira. Assim, havia a prateleira do Chile, a da África do Sul, a da França, a da Alemanha, a da Itália, a da Argentina. E nada do Brasil. Perambulei duas vezes por entre todas as prateleiras: "será que não tem vinho brasileiro aqui nesse mercado?".
Foi então que observei, para lá da demarcação do piso em tacos de madeira, para lá da área ambientada como "de vinhos", uma placa indicando os "vinhos nacionais".
Se pensam viradores de taças finas mas me parece que, na verdade, essa rapaziada apreciadora de vinhos é um bando de vira latinhas, hein? O que é do Brasil é "nacional", não merece o nome do país, não merece o desenho da bandeirinha, não merece o piso de taco, não merece a musiquinha clássica, não merece que o segurança observe. Não merece uma análise sobre o sabor, o que combina e o que não combina com ele, não merece espaço em sua adega pessoal. 



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