terça-feira, 13 de outubro de 2015

Napa Daria.


Teve uma época na vida, não me recordo ao certo qual, creio que eu tinha por volta de uns treze ou quatorze anos, em que eu gostava muito de comer sonhos, e as pessoas em volta me estimulavam nessa fissura cotidiana pelo prazer e pelo desejo de comer sonhos de maneira intensa, extrema, por vezes até exagerada, creio. Lembro que não raro chegava na casa de meus avós e havia uma caixinha com três ou quatro sonhos dentro; não raro algum outro parente ia à padaria e me trazia dois sonhos. "Coma, coma tudo, pode comer, você gosta, você adora, e se gosta tanto, coma, se esbalde". Educação para o exagero. Essas coisas criam marcas bem fortes na personalidade da gente, vejo hoje; parece besteirinha do dia a dia, mas não é não.
Mas não é disso que eu quero falar, mas foi bom ter falado disso.
Um tempão depois dessa época, uns dez anos, eu fiz um trabalho com uma rapaziada tão sangue bom que tenho certeza que se fossem doar sangue cada litro doado facilmente se tornaria uns dez litros nos bancos de sangue. Era realmente prazeroso fazer aquele trabalho, ouvia com atenção o que diziam, fazia alguns registros etc. Falavam muito sobre sonhos. Lembro que o cara mais falante da rapaziada uma vez explicou por que o cara que "comanda a coisa toda" era de pouco falar, às vezes até ficava no fundo da casa para não ter que falar muito - não vou contar o motivo - mas me recordo que ele disse: "o Fulano tinha um sonho, e ai ele abraçou esse sonho e tocou a vida dele em razão disso".
Agora a pouco eu entrei no site deles, noite passada tive um sonho que me lembrou das coisas que a gente conversava e vivia e eles faziam e eu observava e anotava e depois de um ano, mais ou menos, eu entreguei um relatório pra alguém, alguma instituição. Mas não falei de sonho, pros burocratas isso não interessa. Sonhei e entrei no site da rapaziada, que, de certa forma, representa uma materialização foda do sonho do cara.
Volta e meia eu sempre lembro das conversas sobre sonhos, não só com eles, mas com um monte de gente. Penso no último ano, que foi meio barra forçada em porta de vidraça - eu não precisava ter vivido um monte de coisa que me obriguei a forçar viver. Penso que talvez a gente não dê tanto valor assim pros nossos sonhos.
Dai foi agora a pouco, já tarde da madrugada, que lembrei dos sonhos comidos de maneira exagerada, dos sonhos que os rapazes falavam, do sonho que tive noite passada e parei pra pensar em busca de qual sonho eu tenho corrido. Observei que me deixei ser engolido pela rotina de obrigatoriedades imediatas. 
Coloquei uma música do meu compositor favorito, de certa forma me emocionei ao ver que, porra, o cara está fazendo isso há uns vinte anos já, e já declarou que era um sonho pra ele. Eu me sinto um babaca nessas situações. É necessário demarcar exatamente qual o sonho, qual o motivo disso tudo, e abraçá-lo com vontade, com intensidade, com a vida, comer com exagero quando ele chegar para conseguir tocá-lo adiante, tocar-me adiante. 
O resto é a mentira que bate na cara quando a gente acorda e vê que bosta, só mais um dia nessa merda. Volte a sonhar Gabriel, você não pode se deixar ser só mais um burocrata pra quem isso não interessa, você não pode ser só mais um entrando despretensioso napa daria dessa vida toda. Não seja babaca seu troxa, volte a sonhar e abrace com vontade o que soar verdade.

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