terça-feira, 13 de outubro de 2015

A hipótese e a confirmação da tese.


Este texto surgiu de uma conversa com meu amigo André no dia em que fizemos isso: clique aqui
Aviso logo de antemão que usarei conceitos complexos apenas como palavras. Interprete como quiser, mas lembre que só deus pode me julgar.

A nossa sociedade lida com modos de vida muito cristalizados, verdadeiras fórmulas para tocar o viver adiante. Não creio que sejam cristalizadas pela eficácia em proporcionar uma boa vida - até por que, como diz o Peixe Morto, se estamos no auge dos tempos, por que tanta angústia?. Não acho, na verdade, que proporcione uma boa vida, vide as caras bravas dentro do ônibus e do trem, a quantidade de garrafas de corote que vejo largada pelas ruas, as filas gigantes em farmácias e o lucro inabalável da Ambev. 
Acho que isso ai que oferecem pra gente é só um modo de vida cristalizado pela conveniência. A busca pela estabilidade financeira, a compra da casa própria, o respeito ao patrão, a aceitação a tudo que não é tão bom assim mas tudo bem, poderia ser pior...
Se você começa a fugir um pouco dessas convenções pode ser que o pessoal te olhe com certa desconfiança, olhos arregalados ou um pouco entortados. Talvez até parem de olhar pra ti. Pode ser que comecem a falar mal sobre você, mas não mal para você, pra você tá legal, vão falar mal de você entre essa rapaziada, que vê o corromper à norma como negativo, como desvio-débil - ai o Fulaninho ali é louco ele mexe com uns negócios de banda de roque; ai a Fulaninha ali olha ela faz uns negócios esquisitos com tambor; olha ali ele de novo seguindo o caminho errado parece que não aprende que tem um caminho certo.
Saiu da norma é um tal de eeeeeeeppppppaaaaa ao tom mais Jorge Lafond possível. Histeria, não aceitação, gritos, preocupação, desnormatizações do próprio comportamento normativo para denunciar a fuga da norma por parte do outro: precisamos trazer a pessoa de volta à norma.
Nesse processo todo tem duas perguntas que me saltam à vista pela recorrência com que são feitas e pela lógica empregada para a realização destas.
A primeira pergunta soa mais como uma hipótese: "você tem merda na cabeça?". Geralmente é realizada quando as batidas fora do bumbo ainda não foram sistematicamente identificadas e mapeadas como um desvio frequente da norma. A pessoa fez um troço estranho aqui, outro dia ficamos sabendo que ela fez outra coisa assim. "Será que ela tem merda na cabeça?", o pessoal da firma ou do departamento vai perguntar na hora do cafezinho.
Já a segunda pergunta tem um tom de confirmação implícita: "que merda você tem na cabeça?". Aqui já há um diagnóstico: o de que há merda na cabeça, a dúvida agora é qual tipo de merda permite à pessoa se sentir à vontade para consumar tais desvios em suas ações. Normalmente essa pergunta é empregada por alguém que convive com um desviante e já reparou que aquela pessoa não pertence ao Olodum ou ao Timbalada, pois suas batidas com intensa frequência se dão fora do bumbo.
Desta forma, noto que pessoas que me conheceram, por exemplo, no ano passado, frequentemente dão risadas em algumas situações e comentam, "nossa, você tem merda na cabeça?", com um riso de desagradável desconfiança. Já a minha mãe, quando me sento ao lado dela no sofá e compartilho o que tenho feito, se lamenta: "que merda você tem na cabeça?", sem riso, é só lástima mesmo.
"Dito isso tudo, que conselho você daria para quem é jovem?".
Resposta: desvie, desvie muito, essa normas não valem a pena. Uma sociedade que se preocupa em comer iogurtinho direitinho para defecar bonitinho mas não olha pro próprio cocô e só toma merda como referencial para o que ela própria decidiu que é ruim não merece que você siga as normas dela.
Gostaria também de agradecer ao André, que já foi mencionado, também o Manolos e alguns autores das ciências humanas (eles sabem quem são). 


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