terça-feira, 27 de outubro de 2015

Malcriadinho passa mal.


Ninguém estava destruído, a casa era boa, o sofá confortável e o almoço tinha sido bem do bom sim. Confabulávamos, sem semelhança alguma nos discursos. Fosse presente a imagem clássica da moça com a venda nos olhos segurando uma balança rústica, ela teria erguido um pouco o lenço sobre os olhos para tentar entender se o que ocorria em suas mãos era mesmo o aparente e tamanho desequilíbrio. No entanto, havia certo tom harmonioso - talvez um respeito mútuo, talvez alguma esperançazinha guardada nalgum canto - que dava um clima cordial de resolução adulta à questão. Dentre tantas falas sinceras uma se destacou: "só queria te pedir pra não fazer tal coisa". Lembro quando era criança e as tomadas de casa tinham um protetor plástico pois eu teimava em colocar o dedo (e demais objetos) nos furos atraentes delas. Não existe natureza humana, tampouco acredito numa "personalidade inata", eu só era teimoso. Era, sou, fui. Respondi meio de pronto, meio sem pensar, "não te importa o que eu vou fazer" (de certa forma eu já sabia que iria fazer "tal coisa"). A cordialidade acabou, o sofá ficou desconfortável, o desequilíbrio tornou a ser lógica ambiente. "Você é bem malcriadinho às vezes, credo". Malcriado. Deveria ter dito: "não me ensinaram a lógica para não cutucar tomadas, simplesmente as tamparam", isso configuraria mal criação? Mas não é disso que eu quero falar com isso tudo. Gostaria de dizer que até aqui intercedeu o Senhor, e deveria ter lhe dado ouvidos, pois a "tal coisa" na verdade foi apenas uma desgraça que veio para desgraçar mais ainda as desgraças dos meus dias. Fui malcriadinho, e como passei mal.


segunda-feira, 26 de outubro de 2015

E mergulhou.


[Antes de ler, dê o play aqui, e então comece a ler].

Sei que é ousado, mas digo (de maneira pretensiosa) que estou ouvindo o som da sola dos seus dois pés batendo sobre a superfície da água em uma piscina de azulejos azuis fincada no meio de um chão gramado no meio de uma área arborizada que me lembra um lugar bonito onde já estive mas nem de longe é tão bonito assim. Bato os pés e não me canso por que a sensação é uma delícia, e o som é também prazeroso. Repetitiva e multiplamente prazeroso. E essa passarinhada que chegou em seguida? Chegou uma nuvem: centenas, talvez tenha um milhar. São coloridos, não são da mesma espécie nem nada do gênero - os especistas já foram dormir. É uma nuvem de pássaros distintos mesmo; é tipo naquele filme preto e branco clássico com urubus dentro da sala, mas aqui é diferente, eles são bem suaves e se dão super bem e cacete passarinho com dentes sorrindo eu nunca tinha visto. Cantam numa harmonia tão intensa que até parei de bater as solas dos pés na superfície d'água da piscina de azulejos azuis para ouvir apenas eles, e para observar os movimentos que realizam no céu me focando apenas nisso. E os pássaros fazem um revezamento muito bonito, olha essas cores todas fundindo no céu azul claro - como os azulejos da piscina e as asas daqueles pássaros que se separaram da rapaziada de asas pra emitir outros tons, outros temas, outras linhas no céu. Olho para a água e vejo as nuvens de passarinhos dispersos se refletindo nela. Que espetáculo essa piscina cheia, de água e de gente, e empolgação, todos batem os braços, riem animadamente, sorriem, estamos todos nos divertindo. Parece o tipo de cena que eu jamais achei que viveria ou o tipo de cena que nos vendem como ideal de felicidade em comerciais fajutos mas é mais. Não é possível esses passarinhos mergulhando fundo na água da piscina e se fundindo às pessoas e se tornando pessoas e as pessoas ganhando asas e alçando voos e retomando mergulhos; e não há papéis fixos nessa dança toda. Vou fazer uma pausa para registrar isso mentalmente como uma foto............. Pronto.



quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Uma cena qualquer nesse cenário.


Tomando um copo de suco tóxico gelado,
Esperando um xixizinho quentesperto descer.
Um alarme estoura alardeante na rua,
Estouraram antes um vidro.
O tapete listrado aqui macio é gostoso,
O barulho do vidro estilhaçando no chão.
Desligam o alarme entre ofensas,
Outro gole ácido na geladez tóxica.
O xixi desceu quentesperto,
Devo agradecer por essa rotina?


quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Rua suja, rua viva.


Segunda feira, doze de outubro de dois mil e quinze. Foi quase as seis da tarde que aproveitei o fechamento de um semáforo na Avenida Francisco Matarazzo para encostar a bicicleta perto de um poste e tomar uma água. Durante a pausa notei que o ponto de ônibus em frente ao Parque da Água Branca estava lotado. Adultos, crianças e balões flutuantes com formas de personagens de desenhos animados ocupavam aquele espaço. Vozes e risadas eram ouvidas do outro lado da avenida, onde eu estava. O Parque estava fechando, e não parava de sair gente de dentro dele. Olhei o chão, tanto do ponto quanto da rua, e o vi repleto de latinhas de alumínio, garrafas plásticas, saquinhos vazios de pipoca, picolé, salgadinho etc. Como parte da estrutura do ponto de ônibus, feito com algum tipo de aço, duas lixeiras, que transbordavam estes mesmos vestígios de produtos consumidos em um feriado de lazer no Parque. "Não adianta dizer que a população não joga o lixo no lixo se o lixo já está cheio de lixo", pensei. Tornei a pedalar, e mais a frente, onde há duas ou três baladas, mais lixeiras cheias e mais resquícios de garrafas e embalagens diversas na calçada e na rua. 
Por um lado é ruim ver a rua suja, por outro lado é muito bom, é sinal de que pessoas passaram ali, pessoas viveram ali, pessoas consumiram picolés entre risos, pessoas beberam com os amigos, pessoas fizeram com que a rua se tornasse coisa viva, tirando-a da condição de mero trecho de passagem para carros segundo o google maps ou o waize. 
Já a rua muito limpa não me soa sinônimo de rua bem tratada, penso eu, mas sim de rua não vivida, não frequentada. 


terça-feira, 13 de outubro de 2015

A hipótese e a confirmação da tese.


Este texto surgiu de uma conversa com meu amigo André no dia em que fizemos isso: clique aqui
Aviso logo de antemão que usarei conceitos complexos apenas como palavras. Interprete como quiser, mas lembre que só deus pode me julgar.

A nossa sociedade lida com modos de vida muito cristalizados, verdadeiras fórmulas para tocar o viver adiante. Não creio que sejam cristalizadas pela eficácia em proporcionar uma boa vida - até por que, como diz o Peixe Morto, se estamos no auge dos tempos, por que tanta angústia?. Não acho, na verdade, que proporcione uma boa vida, vide as caras bravas dentro do ônibus e do trem, a quantidade de garrafas de corote que vejo largada pelas ruas, as filas gigantes em farmácias e o lucro inabalável da Ambev. 
Acho que isso ai que oferecem pra gente é só um modo de vida cristalizado pela conveniência. A busca pela estabilidade financeira, a compra da casa própria, o respeito ao patrão, a aceitação a tudo que não é tão bom assim mas tudo bem, poderia ser pior...
Se você começa a fugir um pouco dessas convenções pode ser que o pessoal te olhe com certa desconfiança, olhos arregalados ou um pouco entortados. Talvez até parem de olhar pra ti. Pode ser que comecem a falar mal sobre você, mas não mal para você, pra você tá legal, vão falar mal de você entre essa rapaziada, que vê o corromper à norma como negativo, como desvio-débil - ai o Fulaninho ali é louco ele mexe com uns negócios de banda de roque; ai a Fulaninha ali olha ela faz uns negócios esquisitos com tambor; olha ali ele de novo seguindo o caminho errado parece que não aprende que tem um caminho certo.
Saiu da norma é um tal de eeeeeeeppppppaaaaa ao tom mais Jorge Lafond possível. Histeria, não aceitação, gritos, preocupação, desnormatizações do próprio comportamento normativo para denunciar a fuga da norma por parte do outro: precisamos trazer a pessoa de volta à norma.
Nesse processo todo tem duas perguntas que me saltam à vista pela recorrência com que são feitas e pela lógica empregada para a realização destas.
A primeira pergunta soa mais como uma hipótese: "você tem merda na cabeça?". Geralmente é realizada quando as batidas fora do bumbo ainda não foram sistematicamente identificadas e mapeadas como um desvio frequente da norma. A pessoa fez um troço estranho aqui, outro dia ficamos sabendo que ela fez outra coisa assim. "Será que ela tem merda na cabeça?", o pessoal da firma ou do departamento vai perguntar na hora do cafezinho.
Já a segunda pergunta tem um tom de confirmação implícita: "que merda você tem na cabeça?". Aqui já há um diagnóstico: o de que há merda na cabeça, a dúvida agora é qual tipo de merda permite à pessoa se sentir à vontade para consumar tais desvios em suas ações. Normalmente essa pergunta é empregada por alguém que convive com um desviante e já reparou que aquela pessoa não pertence ao Olodum ou ao Timbalada, pois suas batidas com intensa frequência se dão fora do bumbo.
Desta forma, noto que pessoas que me conheceram, por exemplo, no ano passado, frequentemente dão risadas em algumas situações e comentam, "nossa, você tem merda na cabeça?", com um riso de desagradável desconfiança. Já a minha mãe, quando me sento ao lado dela no sofá e compartilho o que tenho feito, se lamenta: "que merda você tem na cabeça?", sem riso, é só lástima mesmo.
"Dito isso tudo, que conselho você daria para quem é jovem?".
Resposta: desvie, desvie muito, essa normas não valem a pena. Uma sociedade que se preocupa em comer iogurtinho direitinho para defecar bonitinho mas não olha pro próprio cocô e só toma merda como referencial para o que ela própria decidiu que é ruim não merece que você siga as normas dela.
Gostaria também de agradecer ao André, que já foi mencionado, também o Manolos e alguns autores das ciências humanas (eles sabem quem são). 


Napa Daria.


Teve uma época na vida, não me recordo ao certo qual, creio que eu tinha por volta de uns treze ou quatorze anos, em que eu gostava muito de comer sonhos, e as pessoas em volta me estimulavam nessa fissura cotidiana pelo prazer e pelo desejo de comer sonhos de maneira intensa, extrema, por vezes até exagerada, creio. Lembro que não raro chegava na casa de meus avós e havia uma caixinha com três ou quatro sonhos dentro; não raro algum outro parente ia à padaria e me trazia dois sonhos. "Coma, coma tudo, pode comer, você gosta, você adora, e se gosta tanto, coma, se esbalde". Educação para o exagero. Essas coisas criam marcas bem fortes na personalidade da gente, vejo hoje; parece besteirinha do dia a dia, mas não é não.
Mas não é disso que eu quero falar, mas foi bom ter falado disso.
Um tempão depois dessa época, uns dez anos, eu fiz um trabalho com uma rapaziada tão sangue bom que tenho certeza que se fossem doar sangue cada litro doado facilmente se tornaria uns dez litros nos bancos de sangue. Era realmente prazeroso fazer aquele trabalho, ouvia com atenção o que diziam, fazia alguns registros etc. Falavam muito sobre sonhos. Lembro que o cara mais falante da rapaziada uma vez explicou por que o cara que "comanda a coisa toda" era de pouco falar, às vezes até ficava no fundo da casa para não ter que falar muito - não vou contar o motivo - mas me recordo que ele disse: "o Fulano tinha um sonho, e ai ele abraçou esse sonho e tocou a vida dele em razão disso".
Agora a pouco eu entrei no site deles, noite passada tive um sonho que me lembrou das coisas que a gente conversava e vivia e eles faziam e eu observava e anotava e depois de um ano, mais ou menos, eu entreguei um relatório pra alguém, alguma instituição. Mas não falei de sonho, pros burocratas isso não interessa. Sonhei e entrei no site da rapaziada, que, de certa forma, representa uma materialização foda do sonho do cara.
Volta e meia eu sempre lembro das conversas sobre sonhos, não só com eles, mas com um monte de gente. Penso no último ano, que foi meio barra forçada em porta de vidraça - eu não precisava ter vivido um monte de coisa que me obriguei a forçar viver. Penso que talvez a gente não dê tanto valor assim pros nossos sonhos.
Dai foi agora a pouco, já tarde da madrugada, que lembrei dos sonhos comidos de maneira exagerada, dos sonhos que os rapazes falavam, do sonho que tive noite passada e parei pra pensar em busca de qual sonho eu tenho corrido. Observei que me deixei ser engolido pela rotina de obrigatoriedades imediatas. 
Coloquei uma música do meu compositor favorito, de certa forma me emocionei ao ver que, porra, o cara está fazendo isso há uns vinte anos já, e já declarou que era um sonho pra ele. Eu me sinto um babaca nessas situações. É necessário demarcar exatamente qual o sonho, qual o motivo disso tudo, e abraçá-lo com vontade, com intensidade, com a vida, comer com exagero quando ele chegar para conseguir tocá-lo adiante, tocar-me adiante. 
O resto é a mentira que bate na cara quando a gente acorda e vê que bosta, só mais um dia nessa merda. Volte a sonhar Gabriel, você não pode se deixar ser só mais um burocrata pra quem isso não interessa, você não pode ser só mais um entrando despretensioso napa daria dessa vida toda. Não seja babaca seu troxa, volte a sonhar e abrace com vontade o que soar verdade.

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segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Sobre viralatismo e vinhos.


O ano era 2007, e algum canal de tv aberta (Gazeta ou Rede TV, não lembro) exibia após o seu show futebolístico aos domingos à noite (composto por homens tentando vencer discussões sobre os lances dos jogos na base do berro) um programa sobre vinho. O apresentador era um rapaz chamado Lopes. Lopes aparecia sempre bem vestido em um terno alinhadinho, em gravações realizadas em um ambiente feito de madeira, com pouca luz - a maior parte da iluminação ia nele, auto intitulado "o homem do vinho". Lembro que os patrocinadores do programa eram lojas e importadoras de vinho: vendedores internacionais de drogas que causam alterações sensitivas, comportamentais, psicológicas e dependência naqueles que as consomem, ou seja, verdadeiros Pablos Escobares.
Lopes, o homem do vinho mostrava rótulos e fazia degustações deles. Falava dos sabores, das uvas envolvidas na produção, de com quais tipos de comidas combinariam. Lopes, o homem do vinho dava dicas de como montar uma adega em casa, de quais vinhos servir em qual tipo de ocasião social, estação do ano, cor de toalha, cor de roupa etc.
Me inquietava o fato de que o homem do vinho não falava de vinhos produzidos no Brasil, e, em razão disso, algumas vezes mandei e-mails para Lopes pedindo uma análise dos meus rótulos favoritos naquela época: San Goés, Sangue de Boi, Chapinha e Lazzari (este último fabricado sob demanda da rede de supermercados populares "Dia%"). Lopes nunca me respondeu, e nem nunca analisou meus vinhos na televisão. Eram só "rótulos chilenos" para cá, "novidade francesa" para lá, "combinação italiana" acolá. 
Esses dias, por agora mesmo, fui comprar um vinho de marca brasileira. Fazia tempo que não consumia tal droga sacra, e fui procurá-la em um canto do mercado onde há uma "climatização" para a venda dos vinhos: o chão é feito com um piso em taco de madeira, diferente do solado emborrachado do restante do mercado, as prateleiras, igualmente em madeira, diferem-se das demais. 
Nesta noite havia uma degustação, um rapaz vestindo terno servia vinhos em pequenas taças plásticas para pessoas vestindo ternos ou sapatos de salto, que conversavam de maneira amena em pequenas rodas. No ambiente, complementando a "climatização", uma música clássica - não identifiquei qual - era reproduzida em um volume agradável. Um segurança posicionava-se em uma espécie de entrada a este setor, e observava cada movimentação das pessoas.
Acessei o espaço com as prateleiras e transitei por entre elas, observando que eram divididas por países, indicados pelo nome e a bandeira. Assim, havia a prateleira do Chile, a da África do Sul, a da França, a da Alemanha, a da Itália, a da Argentina. E nada do Brasil. Perambulei duas vezes por entre todas as prateleiras: "será que não tem vinho brasileiro aqui nesse mercado?".
Foi então que observei, para lá da demarcação do piso em tacos de madeira, para lá da área ambientada como "de vinhos", uma placa indicando os "vinhos nacionais".
Se pensam viradores de taças finas mas me parece que, na verdade, essa rapaziada apreciadora de vinhos é um bando de vira latinhas, hein? O que é do Brasil é "nacional", não merece o nome do país, não merece o desenho da bandeirinha, não merece o piso de taco, não merece a musiquinha clássica, não merece que o segurança observe. Não merece uma análise sobre o sabor, o que combina e o que não combina com ele, não merece espaço em sua adega pessoal.