domingo, 2 de agosto de 2015

O creme chocolatoso chama essência.


Teve uma hora em que eu sai, subi a escadinha de concreto que dá pra calçada e fiquei por ali observando o movimento de pessoas no final da tarde. Parecia que não ia dar muita gente mesmo, e isso faz parte; aliás, isso faz parte das ansiedades, e não esmorecer ante o fiasco possível, também ocupa parcela nisso. Mas não tem problema se deu ruim, quer dizer, não pode dar sempre ruim nem sempre bom, mas ai você ergue a cabeça, está em boa companhia (gente a ser levada à sério de verdade, sem afrouxar a gravata), vocês tomam um lanche conversando sobre o fiasco partilhado, e concluem que ele também tem de ser celebrado, claro, como não, estamos vivos aqui e vamos em diante. "Vamos?", eu pensei. Tanto pros intuitos daquela noite, quanto pros intuitos da vida em um plano mais a longo prazo: "qual será o próximo 'adiante' a ser seguido?", essa pergunta que tanto tem me consumido. Passei um tempo pensando e, tanto nos momentos anteriores quanto nos imediatamente posteriores ao fiasco, estive sentindo a pele ser recoberta por um creme chocolatoso de prazer. Depois, quando já estava meio decidido a ir, mas poderia não ir, caso julgasse melhor, resolvi refazer um percurso dito maldito por uma boca deveras maldita (podre + podre = bom?). Perambulei, conversei com as pessoas, fiz mais coisas prazerosas e singelas por ali (como vender CD's, de mão em mão), foi tão bom, que como em um jogo de vídeo game da década de 1990, passei mais uma fase e o prêmio foi mais uma porção de creme chocolatoso: "então vamos, caralho!". Fomos Fui e decorreram-se uma série de fragmentos registráveis e louváveis - subi as escadas pensando, degrau a degrau, como é bom fazer as coisas pensando com calma, sem se apressar, sem se forçar a nada; me sentei em um sofá pulguento e me recordei de um conselho dado por uma amiga em 2004; aquela música que diz 'estou aprendendo a andar de novo' não poderia ter sido executada em melhor momento. E assim seguiu-se a noite, com o eu sujeito ativo presente de maneira auto crítica, sensível e sempre perceptível e retornando mentalmente, tanto aos pensamentos recentes quanto aos valores antigos, clássicos, elementos vitais a mim. Quando acenderam as luzes e disseram "é hora de ir embora", bem, me assustei com o sol já ligado, com os movimentos e aromas e cabelos. Os primeiros passos, enquanto vestia minha blusa de moletom, foram seguidos de pensamentos repetitivos: "isso ainda faz tanto sentido, isso ainda é tão meu, isso ainda sou tão eu". Minhoquei pela cidade, entre o cedo e o tarde, e desci do ônibus (que jamais será uma das minhas linhas favoritas em são paulo), e quando vi, eu tinha pegado a chave errada pra abrir a porta.
Acho que entre subir as escadinhas de cimento e descer do ônibus o que ocorreu foi saborear o creme chocolatoso que construí ao longo da vida na última década - "foi no site daquele cara que eu conheci as bandas que ouço até hoje, foi no programa de rádio daquele cara que conheci outras tantas". Tem uma coisa que entendo como "essência", uma certa base, uma certa noção de valores que me fazem e me faço no mundo (como diz o ditado "eu não nasci ontem"). Agora, deste universo de metáforas, o que fica de prático e concreto é que eu noto que é óbvio que a vida vai ser uma bosta se eu estiver distante da minha essência, da minha própria construção e das minhas próprias lógicas e bases - pois, como diziam aqueles versos escritos em 2006: "eu sou do rock, eu vou pro inferno e gosto de clichês" - e como não sorrir largamente ao sentir-me abraçando e abraçado novamente por alguns dos cremes chocolatosos que compõem tal essência? Quando parei de sorrir?


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