domingo, 9 de agosto de 2015

Cara, no quê que cê tá pisando, cara?


[Leia ouvindo essa música].
A conversa começa tão bonita, tão graciosa, né? Me recorda os melhores dias que eu nunca vivi; na verdade me recorda os melhores dias que já vivi e me faz pensar nos que ainda não vivi. Mas não demora. Nunca demora. Quando percebo que não demorou, eu paro pra soltar um "êpa, que que é isso rapaz? no quê que cê tá pisando mêu?". Por que tem um cara pisando em algo! Olha lá gente, caramba, tá vendo? E é uma pisada que não é firme (talvez seja por isso que ela soe atraente) e é seguida de tantas outras coisas. Tanto mais sólidas, quanto mais limpas, quanto mais claras, quanto mais crescentes, progressivas (olha o progresso com forma de estrelinha surgindo junto ai gente, que brilho lindo meu deus, progresso me leva!). E são coisas sóbrias, daquelas que você consegue imaginar andando na linha em linha sem problemas com a linha sem pisadas fora da linha é só a linha a vida inteira. Ah a linha, tão tênue, é só achar uma fresta olhar e entrar e depois você volta ou não tanto faz. Mas ele tá sempre lá, quem está espertinho reparou. Ele são eles na verdade. E eu não sei se esse sujeito na terceira do plural corresponde aos passos do cara (nem sei se é um cara, na real pode ser uma mina, ou o que tal ser humano desejar se classificar ou não se classificar, beleza, mas eu já demarquei que é um ser humano, sorry); se correspondem ao cara (idem acima); ou à superfície em que os passos são dados. E continuam moles, e continuam frequentes, e continuam preguiçosos, e continuam acompanhadas por uma gama enorme de objetos e pessoas e animais e vegetais e sons e pratos de arroz e ressoagens do sopro divino concebedor da vida (vocês perceberam que começou um som que parece soneca após a merenda na pré-pré-escola?). (Olha o progresso em forma de estrelinha voltando rapaziada; êêêêêê). Voltou tudo. (Será que esses passos podem ser de dança?) Caramba que disposição, do cara, dos passos, da superfície, das estrelinhas, dos objetos em volta. Mas se estivesse se mantido naquela praia do começo já era uma linha válida pra consumir cinco minutos - os melhores dias que ainda vou viver. E ai os passos vão sumindo, parece, na verdade, que seguem o caminho e eu que fico parado olhando de longe (teve uma hora também que não pareciam passos). Vão sumindo, somem, desaparecem, e desaparece também tudo aquilo que o acompanhava e então chega ao fim a odisseia - e eu fico sem saber no quê que o cara tá pisando.


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