segunda-feira, 10 de agosto de 2015

As sombras enganam.


Quando eu pedalo entre as quatro e meia e as cinco e meia da tarde em alguma avenida larga de São Paulo, seguindo no sentido leste, portanto, dando as costas para a direção em que se põem o sol, é assustador acompanhar os carros que vem atrás de mim olhando para as sombras destes. Em geral elas se formam à minha esquerda, e indicam que há carros enormes se aproximando. Parecem maiores do que caminhões, ônibus; parecem que são tanques de guerra, monstros de pesadelos infantis invadindo a Marques de São Vicente. Parecem vir e crescer a mil por hora. Quando enfim se alinham a mim e me passam, vejo que são apenas carros, em tamanhos e velocidades habituais, que não podem me assustar mais do que já assustam - são carros, de aços diversos, contra meus ossos em cima de uma bicicleta barata. Às vezes eu sinto que estou bem perto de me acostumar com a ideia de que são apenas carros, e as sombras não mais irão me assustar, pois sei do real tamanho do que está por vir. Às vezes eu penso que, assim como diz  a música, já já eu vou perceber que "as coisas todas não estavam contra mim". São apenas carros, monstros assim (ainda) não existem.


Nenhum comentário: