sábado, 29 de agosto de 2015

Meu riso peralta de frente pra Hitler.


Hitler bateu na porta, "você tem cinco minutos?", "ninguém tem minuto nenhum", "pra mim...", "como?", "pra eu falar com você", "jamais", "mas posso falar?", "pode" (que foi abreviação para: "pode, quem impede os outros de falar ou pensar ou quem fica monitorando os passos alheios numa nazistice bem organizada é você, e não eu; eu só não vou deixar de fazer nada para ouvir você falar").
"Desculpazzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz" - foi assim que eu ouvi: Hitler voltou para pedir desculpas.
Que flor, que graça, que humano, que belezinha, que amorzão, que coração, que alma, que demonstração tão digna de respeito e compaixão ao próximo e valorização tão ampla da diversidade da humanidade por sobre a terra. Mas a gente sabe que não, só ele finge por ai que não.
Ouvi a groselha hitlerista toda e respondi: "Olha, vou te falar a real..." - mas na verdade eu vomitei as mentiras mais desleais e inventivas e criativamente fantasiosas que a minha cabeça pega de surpresa poderia criar ali. Menti como o melhor dos escritores de ficções e novelas que articulam trezentos pontos distintos de situações, atuações e personagens em um tema amplo formando um enredo único em que os pontos M, D, Z, S, P da história se encontram em um sentido e uma lógica arrebatadores. O intuito, babaca, claro (olha quem era o interlocutor), era metralhar e chocar a pseudo fala de um pseudo atual e pseudo arrependido Hitler.
Fui um escroto com ele para deixá-lo pasmo, mas o fiz com mentiras fantasiosas, diferentemente das atitudes dele, que me chocavam conforme ocorriam, pois demonstravam os seus mais sinceros e bem tramados ideais e leituras da vida.
"Hitler, vá comer mortadela azeda" (deixar de comer carne animal nunca te fez um humano melhor, você tinha que parar com esse canibalismo medíocre, isso sim; pedir desculpazzzz, risos). "Coma a mortadela azeda e depois encoste o nariz numa parede e arrote bastante, para sentir o aroma do seu bafo fedorento - reflexo do próprio modus operandi? - bem em cima do seu próprio bigodinho". 
Falava e ria, ao notar que Hitler acreditava. Ria, inclusive, na cara dele, sem deixar de mostrar os dentes enquadrados na curvatura dos lábios indicando um sorriso. Um riso que corroborava todas as mentiras desfiladas ali. Um riso, na verdade, bem peralta, que me acompanhou em todo o resto do dia.


terça-feira, 25 de agosto de 2015

Uma salada com Odradek.


Meu pai gosta de ralar cenoura e beterraba para comermos na salada. As rala cruas e as guarda em potes separados na geladeira. Eu gosto da salada bem temperada, exageradamente mesmo, com vinagre, azeite e sal (meu coração um dia explode de tanto sal que eu coloco). Dai decidi almoçar ouvindo em sequência os três EP's do Odradek. Preparei um suntuoso prato de salada, com dois grandes punhados dos citados legumes ralados e dei play. Que ideia feliz. Conforme mexia o garfo sobre os alimentos no prato (para que o tempero se espalhasse) e tentava o fazer no ritmo rompido das músicas, notei como é impossível perseguir a matemática de números quebrados e dividendos indubitavelmente bem registrados que compõem estas músicas. Parecia que na verdade eram as beterrabas que iam me engolir, e não o contrário. Jack passou e levou o meu garfo, "porra, e agora como que eu como aqui?". Peguei outro garfo no chão e as folhas de alface fugiram pela porta que se abriu - que porta que se abriu? não sei, mas eu ouvi o rangido dela abrindo, vocês ouviram? "Ananias volta aqui rapaz, não morre não, devolve o prato seu malaco". Nossa, credo, come logo isso tudo e se foca no som se não vai dar congestão alimentar auricular-estomacal por que a salada e o arroz e o feijão junto com os Odradek's é muita proteína, muito ferro, muito carboidrato e essas coisas você tem que ser moderado pra comer, não pode se empanturrar, nenhum corpo consegue digerir essas coisas todas duma vez só.
Ouça Odradek aqui.


segunda-feira, 10 de agosto de 2015

As sombras enganam.


Quando eu pedalo entre as quatro e meia e as cinco e meia da tarde em alguma avenida larga de São Paulo, seguindo no sentido leste, portanto, dando as costas para a direção em que se põem o sol, é assustador acompanhar os carros que vem atrás de mim olhando para as sombras destes. Em geral elas se formam à minha esquerda, e indicam que há carros enormes se aproximando. Parecem maiores do que caminhões, ônibus; parecem que são tanques de guerra, monstros de pesadelos infantis invadindo a Marques de São Vicente. Parecem vir e crescer a mil por hora. Quando enfim se alinham a mim e me passam, vejo que são apenas carros, em tamanhos e velocidades habituais, que não podem me assustar mais do que já assustam - são carros, de aços diversos, contra meus ossos em cima de uma bicicleta barata. Às vezes eu sinto que estou bem perto de me acostumar com a ideia de que são apenas carros, e as sombras não mais irão me assustar, pois sei do real tamanho do que está por vir. Às vezes eu penso que, assim como diz  a música, já já eu vou perceber que "as coisas todas não estavam contra mim". São apenas carros, monstros assim (ainda) não existem.


domingo, 9 de agosto de 2015

Cara, no quê que cê tá pisando, cara?


[Leia ouvindo essa música].
A conversa começa tão bonita, tão graciosa, né? Me recorda os melhores dias que eu nunca vivi; na verdade me recorda os melhores dias que já vivi e me faz pensar nos que ainda não vivi. Mas não demora. Nunca demora. Quando percebo que não demorou, eu paro pra soltar um "êpa, que que é isso rapaz? no quê que cê tá pisando mêu?". Por que tem um cara pisando em algo! Olha lá gente, caramba, tá vendo? E é uma pisada que não é firme (talvez seja por isso que ela soe atraente) e é seguida de tantas outras coisas. Tanto mais sólidas, quanto mais limpas, quanto mais claras, quanto mais crescentes, progressivas (olha o progresso com forma de estrelinha surgindo junto ai gente, que brilho lindo meu deus, progresso me leva!). E são coisas sóbrias, daquelas que você consegue imaginar andando na linha em linha sem problemas com a linha sem pisadas fora da linha é só a linha a vida inteira. Ah a linha, tão tênue, é só achar uma fresta olhar e entrar e depois você volta ou não tanto faz. Mas ele tá sempre lá, quem está espertinho reparou. Ele são eles na verdade. E eu não sei se esse sujeito na terceira do plural corresponde aos passos do cara (nem sei se é um cara, na real pode ser uma mina, ou o que tal ser humano desejar se classificar ou não se classificar, beleza, mas eu já demarquei que é um ser humano, sorry); se correspondem ao cara (idem acima); ou à superfície em que os passos são dados. E continuam moles, e continuam frequentes, e continuam preguiçosos, e continuam acompanhadas por uma gama enorme de objetos e pessoas e animais e vegetais e sons e pratos de arroz e ressoagens do sopro divino concebedor da vida (vocês perceberam que começou um som que parece soneca após a merenda na pré-pré-escola?). (Olha o progresso em forma de estrelinha voltando rapaziada; êêêêêê). Voltou tudo. (Será que esses passos podem ser de dança?) Caramba que disposição, do cara, dos passos, da superfície, das estrelinhas, dos objetos em volta. Mas se estivesse se mantido naquela praia do começo já era uma linha válida pra consumir cinco minutos - os melhores dias que ainda vou viver. E ai os passos vão sumindo, parece, na verdade, que seguem o caminho e eu que fico parado olhando de longe (teve uma hora também que não pareciam passos). Vão sumindo, somem, desaparecem, e desaparece também tudo aquilo que o acompanhava e então chega ao fim a odisseia - e eu fico sem saber no quê que o cara tá pisando.


domingo, 2 de agosto de 2015

O creme chocolatoso chama essência.


Teve uma hora em que eu sai, subi a escadinha de concreto que dá pra calçada e fiquei por ali observando o movimento de pessoas no final da tarde. Parecia que não ia dar muita gente mesmo, e isso faz parte; aliás, isso faz parte das ansiedades, e não esmorecer ante o fiasco possível, também ocupa parcela nisso. Mas não tem problema se deu ruim, quer dizer, não pode dar sempre ruim nem sempre bom, mas ai você ergue a cabeça, está em boa companhia (gente a ser levada à sério de verdade, sem afrouxar a gravata), vocês tomam um lanche conversando sobre o fiasco partilhado, e concluem que ele também tem de ser celebrado, claro, como não, estamos vivos aqui e vamos em diante. "Vamos?", eu pensei. Tanto pros intuitos daquela noite, quanto pros intuitos da vida em um plano mais a longo prazo: "qual será o próximo 'adiante' a ser seguido?", essa pergunta que tanto tem me consumido. Passei um tempo pensando e, tanto nos momentos anteriores quanto nos imediatamente posteriores ao fiasco, estive sentindo a pele ser recoberta por um creme chocolatoso de prazer. Depois, quando já estava meio decidido a ir, mas poderia não ir, caso julgasse melhor, resolvi refazer um percurso dito maldito por uma boca deveras maldita (podre + podre = bom?). Perambulei, conversei com as pessoas, fiz mais coisas prazerosas e singelas por ali (como vender CD's, de mão em mão), foi tão bom, que como em um jogo de vídeo game da década de 1990, passei mais uma fase e o prêmio foi mais uma porção de creme chocolatoso: "então vamos, caralho!". Fomos Fui e decorreram-se uma série de fragmentos registráveis e louváveis - subi as escadas pensando, degrau a degrau, como é bom fazer as coisas pensando com calma, sem se apressar, sem se forçar a nada; me sentei em um sofá pulguento e me recordei de um conselho dado por uma amiga em 2004; aquela música que diz 'estou aprendendo a andar de novo' não poderia ter sido executada em melhor momento. E assim seguiu-se a noite, com o eu sujeito ativo presente de maneira auto crítica, sensível e sempre perceptível e retornando mentalmente, tanto aos pensamentos recentes quanto aos valores antigos, clássicos, elementos vitais a mim. Quando acenderam as luzes e disseram "é hora de ir embora", bem, me assustei com o sol já ligado, com os movimentos e aromas e cabelos. Os primeiros passos, enquanto vestia minha blusa de moletom, foram seguidos de pensamentos repetitivos: "isso ainda faz tanto sentido, isso ainda é tão meu, isso ainda sou tão eu". Minhoquei pela cidade, entre o cedo e o tarde, e desci do ônibus (que jamais será uma das minhas linhas favoritas em são paulo), e quando vi, eu tinha pegado a chave errada pra abrir a porta.
Acho que entre subir as escadinhas de cimento e descer do ônibus o que ocorreu foi saborear o creme chocolatoso que construí ao longo da vida na última década - "foi no site daquele cara que eu conheci as bandas que ouço até hoje, foi no programa de rádio daquele cara que conheci outras tantas". Tem uma coisa que entendo como "essência", uma certa base, uma certa noção de valores que me fazem e me faço no mundo (como diz o ditado "eu não nasci ontem"). Agora, deste universo de metáforas, o que fica de prático e concreto é que eu noto que é óbvio que a vida vai ser uma bosta se eu estiver distante da minha essência, da minha própria construção e das minhas próprias lógicas e bases - pois, como diziam aqueles versos escritos em 2006: "eu sou do rock, eu vou pro inferno e gosto de clichês" - e como não sorrir largamente ao sentir-me abraçando e abraçado novamente por alguns dos cremes chocolatosos que compõem tal essência? Quando parei de sorrir?