quarta-feira, 15 de julho de 2015

Fragmento - VIII.


Às vezes Quase sempre estou alugando os ouvidos/olhos de alguém com minhas lamuriações cotidianas, e as pessoas com as quais dialogo, às vezes com ar de superioridade, às vezes não, resolvem o assunto, pois ele é eu sou chato. Frequentemente as pessoas acabam concordando comigo que as coisas de que reclamo são, de fato, um saco. Mas, não tarda, sempre acabam dizendo "ah, mas Gabriel, isso é a vida adulta". Em geral quando me dizem isso eu sinto uma vontade intensa de ir embora: quando foi que vocês se tornaram tão acomodados e conformados assim? Daí, normalmente depois que eu fui embora, eu fico pensando no que foi conversado e nessa tal "vida adulta", e concluo que, não meus caros, não é a vida adulta que me assusta. Outubro de 2013, encarnar um professor já não era tão doído assim, e o cotidiano tinha os ares mais saborosos do que qualquer aroma de baunilha que circula por aqueles ares. Fazia pouco tempo que o pagamento do mês havia caído, e eu precisava de um tênis novo. Numa tarde de calor, após passar a manhã na escola e almoçar em casa, parti repleto de boas companhias na busca por um par de calçados - sempre seguindo a regra do tênis ser "barato, confortável e preto". Foi uma tarde bonita, em que me senti desfrutando das iguarias mais belas da vida adulta, não só por que comprei meu próprio tênis, mas por ter o feito após um dia de trabalho, tendo de me virar com minhas próprias pernas, próprios pés, tendo os meus amigos por perto, voltando pra minha casa onde era senhor da minha organização e das coisas e da limpeza e da desorganização e das finanças e de tudo o mais que configura (uah!) uma vida adulta. O que me assusta, meus caros, não é a vida adulta, mas sim seguir nessa vida semi adulta atual por mais muito tempo.
Ps: deixei a caixa do tênis jogada num canto da sala até o dia em que me mudei daquela casa, hoje em dia ela guarda alguns cds (a maioria deles nada adultos).


Nenhum comentário: