sexta-feira, 31 de julho de 2015

Diálogo sobre permanência.


-Sabe, eu estive pensando na minha vida, as pessoas que conheci, me envolvi, me aproximei, me afastei, e decidi que tenho que mudar.
-Uau, como assim?
-Eu decidi que preciso ser um ser humano melhor pra lidar com as pessoas, não dá pra ser do jeito que eu sou sabe?
-Do jeito que você é como assim?
-Eu não tenho uma articulação muito boa com noções de respeito, calma, tranquilidade e igualdade relacional sabe?
-Bom. . . . . . Mas isso é com tudo, com todos, com todas? Explica melhor, não sei.
-Acho que isso vem da educação familiar. Em casa é todo mundo assim, meio carga explosiva. Sabe, meio intolerante briguento cascudo põem-pra-fora-sem-nem-pensar?
-Sei, sei. E você vai fazer o que pra (faz sinal de aspas com os dedos das mãos) ser um ser humano melhor?
-Primeiro eu mandei fazer uma faixa, de vinte metros por três, pra colocar ali embaixo no cruzamento da minha rua com a avenida, estará escrito: "a partir de hoje eu sou um ser humano melhor". Também passei numa estamparia lá no Brás e mandei fazer dez camisetas, cada uma de uma cor, com essa frase estampada em times new roman vinte e seis espaçamento duplo na cor preta na altura do peito.
-Legal! E o que mais?
-O que mais o quê?
-O que mais vai fazer pra ser um ser humano melhor?
-Ah, tipo, sei lá, isso ai eu espero as coisas irem acontecendo pra ver como vou reagindo e medindo e agindo e melhorando como ser humano.
-Mas você não pensou em nada?
-Uma coisa de cada vez né?
-Vamos supor, se uma pessoa com quem você se relaciona dedicou o dia a ir num enterro ou celebração fúnebre que seja, e à noite você sente que algo dela feriu seu ego, o que você faz?
-Vou discutir, claro. Se aquilo ferir meu ego e minhas convicções e minha formação e meu modo de ver o mundo. Claro que vou discutir, eu tenho que discutir, não dá pra fugir disso.
-Mas a pessoa foi num velório ou enterro naquele dia.
-Mas uma coisa não tem a ver com a outra, sobretudo se for algo tão grave assim a ponto de ferir meu ego. Não tem nem o que pensar, eu discuto sim.
-Bom...
-Tenta outra coisa.
-Vamos supor aqui . . . . . . . Que a pessoa está nervosa, ansiosa, chateada, cheia de coisa na cabeça, problema na família e está tendo um dia terrível.
-Teve enterro?
-Não.
-Certo.
-Mas teve a concentração de um monte de coisa ruim em poucas horas. Ela está indo te encontrar te ligou meio chorosa dizendo que ia atrasar e que os motivos disso a deixavam mais irritada ainda. Quando ela chegar, como você vai agir?
-Vou esperar ela chegar e sorrir e me beijar e me abraçar e dizer que estando comigo o mundo faz todo sentido e ela se esqueceu de todas as coisas ruins só por ter me visto de longe.
-Hm. Mas e sua atitude?
-Minha atitude é esperar algo dela. Óbvio. Ela que faça algo para mim antes de esperar algo meu para ela.
-Você faria um comentário, sei lá, deixa eu ver, sobre a roupa dessa pessoa?
-Depende, se eu achar tosca vou comentar sim. Tipo "ai que tosco, parece as roupas daquele pessoal tosco de quem sempre falo mau". 
-Mas você vai dizer isso pra pessoa que você sabe que está irritada? Você vai zoar mais ainda o dia dela?
-Vou falar sim. E isso não é zoar mais o dia dela, é só falar que a camisa é tosca e rir dela. Rir na cara dela. Normal. Se ela ficar mais irritada ou achar ruim é coisa da cabeça dela ué.
A conversa é interrompida por uma ligação no telefone celular do ser humano que visa melhorar:
-Alô, oi, sim, sou eu. Ah as camisetas ficaram prontas, ótimo. Tô indo buscar. . . . . . .Olha, depois a gente conversa mais, vou lá na estamparia buscar as camisetas pra mostrar pro mundo que virei um ser humano melhor. Beijo, seu merda.


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