sexta-feira, 31 de julho de 2015

Diálogo sobre permanência.


-Sabe, eu estive pensando na minha vida, as pessoas que conheci, me envolvi, me aproximei, me afastei, e decidi que tenho que mudar.
-Uau, como assim?
-Eu decidi que preciso ser um ser humano melhor pra lidar com as pessoas, não dá pra ser do jeito que eu sou sabe?
-Do jeito que você é como assim?
-Eu não tenho uma articulação muito boa com noções de respeito, calma, tranquilidade e igualdade relacional sabe?
-Bom. . . . . . Mas isso é com tudo, com todos, com todas? Explica melhor, não sei.
-Acho que isso vem da educação familiar. Em casa é todo mundo assim, meio carga explosiva. Sabe, meio intolerante briguento cascudo põem-pra-fora-sem-nem-pensar?
-Sei, sei. E você vai fazer o que pra (faz sinal de aspas com os dedos das mãos) ser um ser humano melhor?
-Primeiro eu mandei fazer uma faixa, de vinte metros por três, pra colocar ali embaixo no cruzamento da minha rua com a avenida, estará escrito: "a partir de hoje eu sou um ser humano melhor". Também passei numa estamparia lá no Brás e mandei fazer dez camisetas, cada uma de uma cor, com essa frase estampada em times new roman vinte e seis espaçamento duplo na cor preta na altura do peito.
-Legal! E o que mais?
-O que mais o quê?
-O que mais vai fazer pra ser um ser humano melhor?
-Ah, tipo, sei lá, isso ai eu espero as coisas irem acontecendo pra ver como vou reagindo e medindo e agindo e melhorando como ser humano.
-Mas você não pensou em nada?
-Uma coisa de cada vez né?
-Vamos supor, se uma pessoa com quem você se relaciona dedicou o dia a ir num enterro ou celebração fúnebre que seja, e à noite você sente que algo dela feriu seu ego, o que você faz?
-Vou discutir, claro. Se aquilo ferir meu ego e minhas convicções e minha formação e meu modo de ver o mundo. Claro que vou discutir, eu tenho que discutir, não dá pra fugir disso.
-Mas a pessoa foi num velório ou enterro naquele dia.
-Mas uma coisa não tem a ver com a outra, sobretudo se for algo tão grave assim a ponto de ferir meu ego. Não tem nem o que pensar, eu discuto sim.
-Bom...
-Tenta outra coisa.
-Vamos supor aqui . . . . . . . Que a pessoa está nervosa, ansiosa, chateada, cheia de coisa na cabeça, problema na família e está tendo um dia terrível.
-Teve enterro?
-Não.
-Certo.
-Mas teve a concentração de um monte de coisa ruim em poucas horas. Ela está indo te encontrar te ligou meio chorosa dizendo que ia atrasar e que os motivos disso a deixavam mais irritada ainda. Quando ela chegar, como você vai agir?
-Vou esperar ela chegar e sorrir e me beijar e me abraçar e dizer que estando comigo o mundo faz todo sentido e ela se esqueceu de todas as coisas ruins só por ter me visto de longe.
-Hm. Mas e sua atitude?
-Minha atitude é esperar algo dela. Óbvio. Ela que faça algo para mim antes de esperar algo meu para ela.
-Você faria um comentário, sei lá, deixa eu ver, sobre a roupa dessa pessoa?
-Depende, se eu achar tosca vou comentar sim. Tipo "ai que tosco, parece as roupas daquele pessoal tosco de quem sempre falo mau". 
-Mas você vai dizer isso pra pessoa que você sabe que está irritada? Você vai zoar mais ainda o dia dela?
-Vou falar sim. E isso não é zoar mais o dia dela, é só falar que a camisa é tosca e rir dela. Rir na cara dela. Normal. Se ela ficar mais irritada ou achar ruim é coisa da cabeça dela ué.
A conversa é interrompida por uma ligação no telefone celular do ser humano que visa melhorar:
-Alô, oi, sim, sou eu. Ah as camisetas ficaram prontas, ótimo. Tô indo buscar. . . . . . .Olha, depois a gente conversa mais, vou lá na estamparia buscar as camisetas pra mostrar pro mundo que virei um ser humano melhor. Beijo, seu merda.


quarta-feira, 29 de julho de 2015

O poder do minimalismo.


Então me encontrei com aquele um tanto quanto conhecido interlocutor. De certa forma estava me preparando para tal fazia alguns dias (pessoas espirituosas diriam que foi o destino). Quando chegou já começou a falar "tracacás" e "querequequés", gaguejou e balbuciou um pouco. Eu havia me preparado para o momento não combinado criando algumas respostas para possíveis perguntas, previamente imaginadas como cabíveis e realizáveis por ele. Uma delas foi feita exatamente como eu havia imaginado (que bom seria se todo roteiro mental imaginário se confirmasse na argamassa concreta dos dias). Não tive problemas em contar até três e libertar, por meio das palavras vocais, o que havia sido gestado mentalmente, nalgum momento de rancor para responder a tal pergunta. Era uma frase a minha resposta. Eu respondi com uma frase, encerrando o assunto. Com uma frase, aliás, encerrei uma fase. Curta, sem pirilampices vocais ou floreios verbais, eu falei a frase. Foi então que percebi o poder do minimalismo bem moldado, lapidado e acalmado (sobretudo acalmado). Subitamente todo o rancor se dissipou. Com uma frase, encerrou-se uma fase.


segunda-feira, 27 de julho de 2015

Fragmento - XIII.


[ou: "Diz equilíbrio"].
Ninguém nunca questionou o equilíbrio ou a falta deste no outro ou a necessidade de alcançá-lo por que sim ou ficamos floreando sobre "nossa como somos equilibrados e como isso é bom óh humanidade nos tome como exemplo". Acho que o equilíbrio era tamanho, tão bem dosado, que nem dava tempo de ficar preocupado com essas coisas metalinguísticas. O tempo era preenchido vivenciando esta qualidade coletiva, o que consistia em saboreação mútua, claro, do tal equilíbrio. Demorei pra perceber que aquilo era sinônimo de equilíbrio. Por um tempo, na verdade, me vi desejoso daquilo como um referencial de desequilíbrio, o que o tornava atraente. Mas ao entendê-lo como equilíbrio passei a vê-lo, justamente, como creme saboroso a ser reconstruído. Dai eu olho no espelho e digo: "diz equilíbrio", e é tudo mais falso que pobre que se diz de direita.


sábado, 25 de julho de 2015

Fragmento - XII.


[Ou: "Afa Xina"].
Lembro que um dos caras mais bacanas que eu conheci naquele período chegou tarde da noite aquele dia, o que era estranho, ele sempre estava entre os primeiros. Falou que estava em outro evento, que combinava mais com suas preferências musicais e vitais. Justo. Correto. Certíssimo. Ele chegou e pediu uma raiquenem, disse que onde estava tinha apenas uma outra cerveja muito ruim de nome inominável e indizível nesta página. Lembro-me até hoje dele rindo e passando a mão do seu pescoço até a sua barriga e dizendo: "preciso dar uma limpada depois de passar a noite bebendo aquilo", fazendo uma careta característica para falar o nome d'aquilo. Olho em volta e vejo aquilo; fecho o documento de texto pois vejo aquilo demais; converso com amigos e amigas do peito e só falo daquilo; durmo, sonho, acordo, levanto, retorno a dormir, torno a sonhar e é só aquilo passeando pela cabeça. Eu preciso dar uma limpada, passou da hora da faxina, Gabriel, vai tomar suas rainequem.



sexta-feira, 24 de julho de 2015

O cara do banco.


"É necessário que você abra uma conta na agência tal do banco tal", "mas a conta que eu tenho não serve?", "não, tem de ser esse tipo de conta nessa agência e desse banco, se não não vai dar certo", "óh quei". No trajeto, que nem era tão longo assim, me recordei de quando abri a conta que já não servia mais. Na verdade, me lembrei de quando a conta que eu havia aberto em 2009 foi transferida de agência, e eu fui até esta para assinar um documento que indicava que eu estava ciente da transição de agência. O rapaz que me atendeu era franzino, magro, meio baixo, tinha poucos fios de cabelo na tampa do cucuruco e uma folhagem ralha nas laterais e parte traseira do crânio. Os olhos eram cansados, a pele das bochechas e do queixo enrugadas e castigadas pelas lâminas dos barbeadores. Me fazia perguntas de maneira mecânica e sem empolgação ou ânimo. Enquanto digitava dados de maneira intensa no teclado do computador, desviei o olhar de seu rosto para o seu peito, onde balançava, no ritmo das mãos digitantes, um crachá. "Funcionário desde 1989" (não me recordo do dia ou do mês, mas gravei o ano, por ser o mesmo do meu nascimento). Acima desta informação a foto três por quatro de um rapaz jovial, semi sorridente, com uma barba que margeava toda a boca (um legítimo cavanhaque), o cabelo loiro brilhante cobria toda a cabeça e uma franja tímida caía sobre a testa. Atrás do crachá estava pendurado um óculos, que ele posicionou a frente dos olhos quando foi ler as informações presentes em meus documentos. "Deus me livre perder a vida atrás de um balcão de banco", pensei. No dia seguinte à abertura da nova conta na nova agência do mesmo banco, resmungava a vida e meu pai sugeriu: "preste um concurso e garanta a vida". Me lembrei da lembrança do rapaz, me lembrei do "deus me livre" que falei em 2009 e ainda falo. Subi as escadas para o meu quarto, voltei a perder investir a vida na frente de um computador.


quinta-feira, 23 de julho de 2015

Fragmento - XI.


Eu estava apoiado na janela, junto de mais três pessoas. A idade de uma delas fazia com que a média etária daquela rodinha subisse uns dez ou quinze anos. Naquela época eu estava ainda assombrado pela proximidade do passado recente, e quando essa rapaziada começou a tecer comentários maldosos sobre terceiros e a sobrevalorizar os seus pares me lembrei de sujeitos com os quais estive em rodinhas no à época "passado recente". Nenhum desses tem uma janela daquelas, isso é: naquela cidade, naquele bairro, com aquele preço de aluguel, aquele preço de condomínio, aquele custo de vida, aquela padaria outro lado da rua. Nenhum desses rivaliza posições em um ambiente extremamente hierarquizado e polarizado e insalubre; nenhum desses em nenhuma daquelas rodinhas investia o tempo sacro da cabeça bem moldada em listar ozinimigos e os depreciar. Você nunca lerá os nomes deles nos jornais. Mas tem uma coisa, na verdade várias, e os adjetivos estão espalhados por este fragmento, e eu sei que vocês entenderam que eu estou falando dos meus referências vidográficos de prestígio e conduta.




sexta-feira, 17 de julho de 2015

Fragmento - X.


Tem dias em que eu acordo e dormi mau ou pouco ou ambos, e ai me lembro daquela manhã em que a gente dormiu largado e pelado, lado a lado, em pleno friozão de agosto, e acordamos sem qualquer auxílio de nenhum tipo de despertador às 9h15. Meu ônibus partiria em vinte minutos, e antes do antes da gente dormir você havia dito que me levaria na rodoviária. Vestimos Entramos com tanta velocidade nas toneladas de roupas que a época exigia que vestíssemos e fomos meio que quase mais ou menos que voando até a rodoviária; quando lá chegamos o ônibus estava parado na plataforma, já com o motor ligado, e eu fui o último passageiro a embarcar; não lembro se os demais passageiros viram a gente se beijar, pois não lembro se a gente se beijou na frente do ônibus. Na verdade acho que até nas noites em que durmo bem e acordo legal oh yeah para o dia eu me lembro daquela manhã, se não ao despertar, nalgum instante ao longo do dia, e ai é nesse momento que eu desejo que ninguém tivesse acordado, que a porta da casa tivesse emperrado ou que um mau súbito tivesse tomado meu coração e o explodido ou mesmo que um caminhão se chocasse contra o lado que eu ocupava no carro (à caminho da rodoviária) e eu ficasse por ali mesmo - seria glorioso. Enfim, tem dias em que eu só desejo não ter embarcado em um ônibus naquela manhã.


O último ato de esperança.


Você me custou cento e vinte e oito reais, pagos à vista, sem chorar. Demorei pra assumir essa necessidade, mas assumi e, literalmente, a banquei. Eu espero te usar por um pouco mais do que quatrocentos dias. Em você farei planos, grifarei textos, elaborarei linhas e linhas e linhas e linhas e também passarei raiva. Se chegar em quinhentos dias de uso é sinal de que algo deu bastante errado. Você é o meu último ato de esperança, de fazer a coisa a ser feita com gosto, de ter foco, de fazer com prazer o que sempre deu prazer e que, ultimamente, parece que deixou de ser algo massa (como dizem os jovens). Além de deixar de ser algo massa, tomou ares de penoso, de negativamente trabalhoso e quase irrealizável. Talvez tenha se tornado tudo isso de errado pela falta de ritmo ordenado, pela falta de um local fixo para fazê-lo. Essa é a aposta, essa é a esperança e isso é o que me levou a gastar cento e vinte e oito reais em você, uma mesa para eu escrever minha dissertação de mestrado.


quinta-feira, 16 de julho de 2015

Fragmento - IX.


Deixei a marcha bem pesada, para pedalar pouco e andar bastante, era uma rua plana e eu não tinha pressa; a velocidade às vezes é desprezável. Então passei por uma caçamba dessas de entulho. Passei e retornei, pelo hábito lixeirístico artístico de ver se há materiais interessantes. E havia: uma tela para pintura e algumas caixas de CD's, ambas em ótimo estado. Cabiam na mochila. "As pessoas não sabem o que jogam fora", sempre penso isso quando me deparo com uma caçamba de entulho que mais parece um tesouro à céu aberto. "O que você costuma fazer com essas coisas? Você guarda e espera vir alguma ideia?", me perguntaram, e eu não soube o que responder, acabei dizendo o óbvio: "não tem uma regra, acaba sendo assim, às vezes não, tanto faz". Tem coisas que as pessoas jogam no lixo, tem coisas que eu pego do lixo; tem coisas que eu jogo no lixo, tem coisas que não são coisas e não são lixo mas são tão tesouros que, na experiência fragmentar da vida, se tornam esse suspiro.


quarta-feira, 15 de julho de 2015

Fragmento - VIII.


Às vezes Quase sempre estou alugando os ouvidos/olhos de alguém com minhas lamuriações cotidianas, e as pessoas com as quais dialogo, às vezes com ar de superioridade, às vezes não, resolvem o assunto, pois ele é eu sou chato. Frequentemente as pessoas acabam concordando comigo que as coisas de que reclamo são, de fato, um saco. Mas, não tarda, sempre acabam dizendo "ah, mas Gabriel, isso é a vida adulta". Em geral quando me dizem isso eu sinto uma vontade intensa de ir embora: quando foi que vocês se tornaram tão acomodados e conformados assim? Daí, normalmente depois que eu fui embora, eu fico pensando no que foi conversado e nessa tal "vida adulta", e concluo que, não meus caros, não é a vida adulta que me assusta. Outubro de 2013, encarnar um professor já não era tão doído assim, e o cotidiano tinha os ares mais saborosos do que qualquer aroma de baunilha que circula por aqueles ares. Fazia pouco tempo que o pagamento do mês havia caído, e eu precisava de um tênis novo. Numa tarde de calor, após passar a manhã na escola e almoçar em casa, parti repleto de boas companhias na busca por um par de calçados - sempre seguindo a regra do tênis ser "barato, confortável e preto". Foi uma tarde bonita, em que me senti desfrutando das iguarias mais belas da vida adulta, não só por que comprei meu próprio tênis, mas por ter o feito após um dia de trabalho, tendo de me virar com minhas próprias pernas, próprios pés, tendo os meus amigos por perto, voltando pra minha casa onde era senhor da minha organização e das coisas e da limpeza e da desorganização e das finanças e de tudo o mais que configura (uah!) uma vida adulta. O que me assusta, meus caros, não é a vida adulta, mas sim seguir nessa vida semi adulta atual por mais muito tempo.
Ps: deixei a caixa do tênis jogada num canto da sala até o dia em que me mudei daquela casa, hoje em dia ela guarda alguns cds (a maioria deles nada adultos).


terça-feira, 14 de julho de 2015

Fragmento - VII.


Durante a noite alguém havia nos passado o próprio endereço de sua residência para que lá fossemos no dia seguinte, que seria um domingo. Ele ainda falou: "vocês não querem anotar?", "não, é perto da casa do fulano não é?", "é", "então a gente sabe chegar". O domingo amanheceu quente como as representações medievais do inferno. O ventilador, coitado, como em boa piada de comercial de loja popular em janeiro, não resistiu; também, já não oferecia grandes alívios. "Vamos lá?", "vamos", dissemos. Compramos meia dúzia de garrafas de cerveja geladas e partimos na direção do endereço registrado mentalmente por dois bêbados na noite anterior. Era um sol forte, um calor irritante e lembro que seu sapatinho estava incomodando no calcanhar. Se não tivessem derrubado as árvores daquele grande círculo gramado o calor não seria tão intenso. Anda pra lá anda pra cá retorna desce uma rua o final vocês já sabem: não achamos a casa e voltamos para a minha nossa com as garrafas nas sacolas já aquecidas pelo perambular debaixo do sol. Água gelada do chuveiro nos lombos fornece alívio. O Corinthians jogava contra a Portuguesa. "Vamos tomar um sorvete?", falaram à janela. E nós fomos. Tem domingos e domingoS, e quanta glória social neste finalizado com vários éssis maiúsculos.


sábado, 11 de julho de 2015

Fragmento - VI.


Eu gosto de acordar e ver as atualizações que o celular indica - que, em tempos de vida social amorfa, são poucas. Então me levanto da cama, faço uma série de alongamentos musculares no peito (pois tenho dores no peito, dentre outras coisas) e vou ao banheiro, onde urino e escovo os dentes. Gosto de ir até a cozinha e, antes de qualquer coisa, tomar meio litro de água em temperatura ambiente. Me agrada sentir a boca seca se reidratando, assim como gosto muito da sensação do esôfago e do estômago sendo recobertos pela água; gosto de perceber a água semi gélida descendo pelos dutos secos do meu sistema digestivo e os abrindo para mais um dia. Então vejo se tem pão, e o preparo de acordo com as possibilidades: se tem frios, vai frios, se tem margarina, vai margarina, se tem requeijão, vai requeijão; em geral acho bom que não tenha faltado pão ou algo para acompanhá-lo. Dai como o pão, tomo mais meio litro de água e faço ou requento um café ou preparo uma xícara de café solúvel; em ambos coloco um pouco de leite (pra não atacar o estômago). Enquanto tomo o primeiro café do dia gosto de fazer algo contemplativo, como ler algo tranquilo ou me atualizar de acontecimentos recentes por meio do meu celular; ou fazer algo criativo, como criar um Miltinho ou escrever algum texto sem pé nem cabeça, ou mexer em fotos. Em geral gosto de passar as duas primeiras horas do dia fazendo isso: me entupindo de café e lendo alguma coisa ou criando alguma outra coisa junto do café. Me entupo de café até os intestinos, bombardeados por um litro de água e alguns mililitros de cafeína e leite, indicarem que, como diziam os Teletubies, é hora de dar tchau. Então, retorno ao banheiro, passo uma dezena de minutos felizes, e me dirijo para o ambiente onde trabalho (que, dependendo da casa onde eu esteja, varia de lugar). Ligo o computador ou pego o livro da vez e procuro ter foco para o trabalho; em geral esse momento dura três horas, período em que sigo me entupindo de café. 
O que quero demonstrar com esse fragmento? Que meu processo de funcionamento intelectual está intimamente ligado ao meu processo de criação fecal.



quinta-feira, 9 de julho de 2015

Feriado do cu do palhaço.


Esse texto é chulo, doído, pesado e desprezível. Se existe uma "deep web", esse texto vai pra seção "deep blog". Não será divulgado e apenas os olhos curiosos o lerão. Não será configurado ou corrigido. O escrevo com o nojo das mãos recobertas por catarro que grudam nas peças do teclado e repuxam os dedos a cada letra digitada.
Estou gripado há mais de uma semana. É gripe sim, não é dengue nem qualquer outra porra. Fui em show em um dia frio, o lugar era abafado e quente, saí de lá e tomei uma rajada de vento frio no peito e na cara. Shazam Jesus, no dia seguinte ao seguinte acordei mau. Dores de cabeça, de garganta, tosse pesada, espirros, assoagens constantes do nariz.
Mintupi de remédios, melhorei e tomei uma chuva, peguei metrô com ar condicionado com a roupa ainda molhada. A gripe voltou, se potencializou, yeah yeah yeah vamos acabar de foder com esse merdinha, devem ter dito os vírus griposos. E foderam mesmo.
É feriado, olha que legal. Feriado por alguma porra qualquer inútil que uns descabidos paulistas golpistas tentaram fazer e fracassaram há uns pares de décadas. Estou trabalhando desde as 14 horas, interrompi o trabalho para ir ao mercado, e já voltei a ele. Como uma topera manca, ele não anda. Passam-se horas, dias e o progresso foi uma página escrita, duas corrigidas. Um chute no cu.
Era uma e onze da manhã quando fui até a cozinha tomar mais uma dose de xarope. Um barulho na rua fez-me levantar para olhar a garagem e ver se estava tudo certo; parecia algum impacto no portão. Cheguei na cozinha e tomei uma dose de xarope, em seguida resolvi tomar um copo de refrigerante gelado, pensei: "mintupindo de xarope pra tosse, refrigerante gelado e incoerência".
Dai me lembrei se tratar de uma noite de feriado prolongado, e como sempre isso abriu a gaveta das memórias de outros feriados prolongados. Aqui bateu forte a paulada da "incoerência" junto do xarope e do refrigerante.
Me recordei de quando assinei o termo de compromisso mental pessoal sobre voltar a morar em São Paulo: "você vai fazer isso pra acabar de queimar o que lhe resta de juventude". Rá, que piada. Não durou três meses, e se eu queimei, não vi resquícios da fumaça ou senti o sabor do fumo. A juventude foi trancada, foi largada, ou caiu em algum trecho dentre os 450 kms de rodovia naquele fatídico dois de fevereiro de dois mil e quatorze.
É de foder o cu do palhaço. Está tudo errado.

terça-feira, 7 de julho de 2015

Picardias alcoólatras - três.



Lembro que naquela noite você se aproximou de mim através da janela de mensagem de texto do celular. Nunca neguei que eu não esperava receber aquela mensagem, mas entrei no assunto e ele foi crescendo. Sei que dado instante, numa das mensagens, você propunha que eu descesse até a sua casa: "vamos tomar uma cerveja aqui em casa?". Eu desci até lá, caminhando no escuro do começo da madrugada, e quando cheguei você me falou que ainda tínhamos que comprar a cerveja. Não havia locais abertos próximo dali, o mais perto ficava onde eu estava antes de descer. Subimos, então, para lá, no escuro da madrugada. Quando nos encostamos no balcão do bar, que em razão da sua baixa estatura, era quase do seu tamanho, rolou certo desentendimento pacífico pois ambos queriam pagar pelas cervejas que levaríamos para a sua casa. Com sua voz tão única você riu e disse "tudo bem" quando eu falei: "olha, esse tipo de dádiva social não combina com pessoas da nossa profissão, vamos rachar a conta e tudo certo?". Mais tarde descemos e subimos por entre dádivas picardiosas.



segunda-feira, 6 de julho de 2015

Picardias alcoólatras - Dois.


Lembro que naquela noite você se aproximou de mim, estávamos juntos ao balcão do bar. Fazia já certo tempo que compartilhávamos picardias práticas. Eu olhei aquele extenso menu repleto de opções etílicas - mais extenso ainda por se tratar de uma terça feira - e devo ter feito cara feia. Não sabia o que vinha na maioria das bebidas, e de muitas delas eu mal saberia pronunciar o nome; minha cara ficou mais feia quando vi que a cerveja mais barata custava oito reais. A lata. Da ruim. Você me perguntou se eu sabia onde estava a minha comanda, que era na verdade um cartão magnético, e eu respondi que sim. Você pediu para vê-la, eu a segurei em mãos. Você a pegou e guardou no bolso frontal de sua calça: "hoje eu que vou pagar tudo que a gente for beber", "mas...", "não tem mas, você já bebeu isso aqui?", "não", e pediu duas doses daquela bebida que eu jamais saberei pronunciar o nome.

domingo, 5 de julho de 2015

Picardias Alcoólatras - Um.


Lembro que naquela noite você se aproximou do balcão do bar, nunca tinha me dirigido a palavra nem nada do tipo. Quer dizer, até tinha, mas nada de substancialmente relevante ou minimamente relevante em termos de fazer nascer pensamentos picardiosos. Pediu uma cerveja, uma garrafa mesmo, e lhe informei que os copos grandes haviam acabado. "Tudo bem", você disse, "mas tem desses menores, você quer quantos?", "dois". Após pegar os copos você encheu ambos. Achei aquilo curioso, pois você estava sozinha. Uma de suas mãos segurou a garrafa e um dos copos, a outra ergueu o outro copo e o moveu na minha direção: "vem beber e dançar comigo?". Não entendi, mas bebi e dancei e shalaialaia trululu berebereberebebe bububu ai ai ai ai ui ui ui.


sexta-feira, 3 de julho de 2015

Nascos Telas.


Breve relato de José Gomes Neto - XXVIII:

"Era dia de festa, e havíamos combinado de não passarmos da conta, de não chegarmos perto da conta, e de apenas festejarmos. Segundo a matemática exata que não dialoga com outros saberes, 1+1 será sempre 2, assim como unir uma cabeça desajustada a uma alma descontrolada representou, naquele dia de festa, o não cumprimento do combinado. Ficou tarde e estávamos ambos com as cabeças cheias de contas passadas, e, dado momento, o metrô realizou uma de suas paradas. Naquele instante os pés dela começaram a realizar um exercício à lá sparring nascos telas do meu corpo. Inicialmente, na primeira sparringada, eu não entendi o que era aquilo, na segunda compreendi, na terceira segurei os pés e antes do início da quarta repreendi a ideia que ganhava forma e causava dor. Deveria ter aproveitado a pausa prolongada da parada do vagão na estação e descido por ali mesmo, teria evitado todos os pares de meses seguidos sendo objeto para sparring".

José Gomes Neto,
01 de Setembro de 2013,
Saco de pancadas.





quarta-feira, 1 de julho de 2015

A frustração e a bola debaixo do fusca.


Tenho uma ideia pré concebida do que quero escrever nesta página em branco que até o momento tem duas linhas de texto corrido sem vírgula; três linhas. No entanto, digitei "frustração" no campo de busca deste blog, e a surpresa foi desagradável, frustrante (aihn) mas não surpreendente. 
Ocorre que, dessa vez, a bola rolou pra debaixo do fusca e ficou presa entre a rua e o escapamento, e não há perna cumprida ou cabo de vassoura que a tire de lá. 
"Você se comporta como um senhor resmungão, sabia?", falou uma voz simpática que eu não ouvi - não no sentido de não dei ouvidos, mas sim no sentido de conversávamos por mensagens de texto. É difícil não resmungar quando você se sente frustrado, argumentei.
E a frustração é simples e curta, como a perna que sequer toca a bola debaixo do fusca: eu desejei uma situação na vida, eu a alcancei, e quando tinha de fazer o que era pra ser feito (que seria prazeroso pra caramba), não rolou. Pois a bola está presa debaixo do fusca.


Fragmento - V.


Não tem jeito, quando eu vejo, eu já estou surpreso comigo mesmo. Dessa vez a revelação da surpresa veio por meio da frase: "se você está reclamando disso, você percebe o quão careta está ficando?'. Cheguei até a me ausentar por alguns instantes, mas quando retornei, segui a lógica de reclamações mentais. Também, eu não conseguia ouvir nada, todos os assuntos estavam rompidos e, enfim, aquilo não fazia lá muito sentido. Dai aconteceu daquele ritual ter fim e eu estar livre para pegar a minha bicicreta e voltar para a casa onde tenho morado. Pedalava suavemente, sempre com os olhos atentos às setas dos carros e aos motoristas nada prudentes quando, boiiiing, uma chapuletada em meus pensamentos soou como uma paulada em minha cabeça: "seu animal, você não percebeu que hoje é o começo do fim? Que hoje acabou uma das etapas mais xaropes dessa coisa toda e que agora falta só a parcela menos árdua e um tanto quanto bastante saborosa do bagulho?". Sabe, deu até uma vontade de cortar caminho por dentro de um parque só pra pensar mais nisso. Ao sair, confirmei: de fato, é uma percepção louvável.