quarta-feira, 24 de junho de 2015

Personagens em filme de ação.


Do ponto de vista individualista, eu tenho coisas mais importantes a fazer agora do que este texto. Do ponto de vista comunitário, eu também teria outras tarefas por cumprir, mas quero preciso escrever esse breve texto.
Ontem dois canais de televisão aberta transmitiram ao vivo uma perseguição policial. No auge desta, um policial desce de sua motoca super motorizada e dispara vários tiros em dois rapazes, caídos à calçada e nomeados pelos apresentadores da mídia como "suspeitos". 
Quem tem um pouco de bom senso de humanidade fica meio espantado com as imagens. O teor de desprezo à vida, de desrespeito à própria noção de sociedade e a frieza do policial são chocantes.
Hoje à tarde vi homens em uma lanchonete vibrando com a atuação do policial: "mesmo se fosse meu filho, tem que meter fogo", disse um deles. No facebook e no twitter me alivio ao ver pessoas próximas comentando a situação com o espanto de que falei acima, e também lamento ao ver professores, maconheiros e/ou artistas declarando apoio ao policial.
A tentativa de homicídio realizada pelo homem de farda é chamada pela mídia de "ação". É curioso que este termo coincida com o gênero de cinema que mais excita a masculinidade belicosa ocidental. É "ação", como os filmes do Schwarzeneger ou do Stalone sujo de lama com a calça rasgada numa selva qualquer matando dezenas de pessoas sem rosto nem sabor, apenas identificadas como "inimigas", ou suspeitas.
Quando morava no interior, e a TV mostrava "imagens de ação violenta em São Paulo" eu pensava: "credo, São Paulo tá complicado", e sentia que aquilo estava afastado de mim. Hoje eu saí da lanchonete, ao lado dela, observando a movimentação das pessoas que atravessavam uma grande avenida, dois homens de farda ao lado de suas motocas super motorizadas - será que receberam o mesmo treinamento daquele que estrelou as imagens de ontem a poucos quilômetros dali? 
Chega até a dar uma pontada fria no baço quando a gente percebe que faz parte de um filme de ação. O passo seguinte é seguir caminhando, torcendo para não decidirem que estamos encenando a personagem do "suspeito". 


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