sexta-feira, 19 de junho de 2015

Entre botas e mexericas: oceanos.


Teve um dia, que foi mais ou menos nessa mesma época do ano, que estava frio e eu me sentei em um canto ensolarado do quintal pra aproveitar a agradável sensação de calor-no-frio. Me sentei ali para escrever algumas linhas de desabafo em meu caderninho. Antes de ir lá, duas vozes debochavam de mim, pelo mesmo motivo que vinham sendo ríspidas nas últimas semanas: "cala a boca que você vai fazer ciências sociais? pra que vai servir essa merda na sua vida?". Logo que me sentei ao sol uma das vozes gritou, "lá vai o cientistazinho social com seu diariozinho". 
Foi um dia difícil escroto, mas ajudou a firmar uma decisão pra vida dali em diante. Eu tinha plena noção de que, à parte esse tipo de chatice e certas chateações com a cidade, tinha na vida em São Paulo tudo muito confortável: a casa dos pais, a casa dos avós, amigos e amigas, lugares preferidos por ir, jogos do Corinthians por frequentar. Mas havia ali uma vontade palpitante no ser (classificado desde pequeno por "curioso") em sair, ver o que dava pra fazer em outro lugar, talvez um ritmo de vida um pouco diferente - em consonância, claro, com a faculdade praguejada pelas vozes.

Era um começo de tarde quente, o suor ainda saía do corpo carregando as porcarias consumidas nas últimas quarenta e oito horas. No ambiente persistia o aroma do frango assado, quando uma voz suave perguntou: "e agora?". As malas estavam prontas, as caixas fechadas. Embora esperasse uma carona que sairia de carro, sentia como se me lançasse novamente ao mar da troca do cotidiano seguro e confortável pelas navegações desconhecidas, expressas em certo retorno à uma cidade deplorável. Estive disposto a encarar esse tipo de troca, mais uma vez.
O tempo não voou e nem voará, eu jamais direi isso. Ele se arrastou e se arrasta como uma topera manca. Teve ali um riso bonito subindo no bonde pela janelinha, mas em geral, é arrasto. Em geral é a sensação de puxar uma rede que volta pesada do fundo do mar, que permite supor fartura em peixes, camarões e demais frutos do oceano, mas ao chegar às areias revela botas, pneus e outros lixos quaisquer.
Tal qual nas ofensas em dia frio e na pergunta com aroma de frango, agora recentemente também houve interlocução. Dessa vez parecia não ser nada de mais, um encontro corriqueiro com alguém que sabe quem sou e sei quem é. Algumas angústias em comum, cálculos de prazos, limites de tempo. 
Dessa vez não tem segurança, não tem lá muito conforto na rotina cotidiana. Esta página aqui não me deixa mentir: não há aquele dia a dia saboroso que enche a boca como gomo de mexerica colhida no ponto e saboreada na sombra duma árvore. Desta vez, quando chegar a hora do "e agora?", já planejado de antemão, será tão suave pegar o meu diariozinho e apenas registrar o momento em que me lanço novamente à algum mar de incertezas e curiosidades, onde tocarei a vida até cansar, novamente.



Nenhum comentário: