terça-feira, 30 de junho de 2015

Amargo.


O terceiro despertador da manhã tocou, e eu o ignorei, como os outros dois anteriores. Trabalhei no texto até azora e dormi mau, um princípio de gripe atrapalhou a respiração durante toda a madrugada. Uma gritaria, seguida de toques repetidos de buzinas festivas, invadia o quarto, "que saco é estar morando em um prédio cercado por escolas". O barulho dos adolescentes berrando se somou às vias nasais entupidas, e foi impossível retomar o sono. Levantei, procurei um anti gripal, o cheiro do café me atraiu, mas não encantou. Tinha um pão com manteiga, e um leite amornado para acompanhar os comprimidos. Os adolescentes não calavam a boca ou as buzinas. Da janela consegui ver que se tratava de um campeonato de futebol disputado em uma quadra semi fechada de um dos colégios. Adolescentes jogavam e adolescentes torciam, aos berros. Que saudade dessa insanidade mirim. Praguejei-os. Praguejei também o comprimido que entalou na garganta. Praguejei também o leite que vazou da embalagem quando lhe cortei a pontinha. Praguejei mais ainda o dia, a semana, o período, a época, a fase da vida, as escolhas malditas desde março de 2009. Na perspectiva paralela à minha cabeça e aos meus ouvidos um diálogo foi travado: "gostoso esse chocolate né? Ele é amargo", "ele é o que?", "amargo", "é?", "é, ele é amargo". Pensei: "não sei se sou amargo, só acho que estou".


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