terça-feira, 30 de junho de 2015

Amargo.


O terceiro despertador da manhã tocou, e eu o ignorei, como os outros dois anteriores. Trabalhei no texto até azora e dormi mau, um princípio de gripe atrapalhou a respiração durante toda a madrugada. Uma gritaria, seguida de toques repetidos de buzinas festivas, invadia o quarto, "que saco é estar morando em um prédio cercado por escolas". O barulho dos adolescentes berrando se somou às vias nasais entupidas, e foi impossível retomar o sono. Levantei, procurei um anti gripal, o cheiro do café me atraiu, mas não encantou. Tinha um pão com manteiga, e um leite amornado para acompanhar os comprimidos. Os adolescentes não calavam a boca ou as buzinas. Da janela consegui ver que se tratava de um campeonato de futebol disputado em uma quadra semi fechada de um dos colégios. Adolescentes jogavam e adolescentes torciam, aos berros. Que saudade dessa insanidade mirim. Praguejei-os. Praguejei também o comprimido que entalou na garganta. Praguejei também o leite que vazou da embalagem quando lhe cortei a pontinha. Praguejei mais ainda o dia, a semana, o período, a época, a fase da vida, as escolhas malditas desde março de 2009. Na perspectiva paralela à minha cabeça e aos meus ouvidos um diálogo foi travado: "gostoso esse chocolate né? Ele é amargo", "ele é o que?", "amargo", "é?", "é, ele é amargo". Pensei: "não sei se sou amargo, só acho que estou".


segunda-feira, 29 de junho de 2015

De Cisão.


-Bom, tem outra coisa.........................
-Hm.
-Não sei como vai soar pra você.............mas eu pensei muito nisso........................
-Hm.
-Bom, quero que saiba que eu gosto muito de você.....................................
-Hm.
-E que você faz parte dos meus planos pra vida..........se os planos da minha vida fossem o tesouro de um pirata..........................................você seria o pote de ouro marcado no x.
-Hm.
-Eu ia esperar mais um tempo pra te contar........te contar......te falar........te informar................só te informar mesmo........................................mas acho que agora é boa hora.
-Hm.
-Bom..........................
-Hm.
-Acho que seria uma boa............................................a gente ir morar junto ia resolver os meus problemas e os seus.....................................ia ser maravilhoso ter você sempre por perto. Eu pensei nisso muito tempo, e eu decidi que isso é o melhor, por que resolve os seus problemas e os meus problemas todos..................................Pensei e percebi e decidi e tô te informando pra você que que que isso é o melhor pros dois.................................E ai seria como se a gente fosse tipo colegas mesmo ali morando junto. Acho que agora é uma boa hora pra te informar dessa decisão. Está decidido.
-Hm.
-Mas ai se você me disser não, bom, dai tudo bem, não tem jeito. Mas não me procure não me ligue não mande mensagens não vá atrás de mim não fale meu nome não pense em mim não escreva a letra inicial do meu nome não coma nos restaurantes que frequentamos não tome cervejas produzidas na região onde nasci e morei não compre papel higiênico pra limpar a bunda toda cagada da mesma marca que eu compro não faça nada além de chorar no dia do meu aniversário não apareça nos mesmos ambientes que eu e nem ouse cogitar mental ou cardiovascularmente a ideia de que eu gostei de você um dia.
-Hm............................. Então não é um ato de decisão. É um ato de cisão.




sábado, 27 de junho de 2015

Picardias alcoólatras - zero.


Entrei em crise. Travei. O cérebro empacou, o fígado se repuxou inteiro ("parece que é feito de massinha", eu falei) e o coração chegou a enganar, como quem diz: "e ai amigo, vamos chegar?". Apertei os freios com força, chegando a encostar as mãos na ponta do guidão. 
A ladeira é íngreme, a queda é longa, e é difícil manter o equilíbrio em situações dessa (des)ordem. Eu sei bem como é rolar de maneira descontrolada. Eu sei mais sobre rolar de maneira descontrolada do que sobre caminhar com rigidez. Mas não há corpo humano que resista a certos trancos. Nem fígado que resista aos copos. Nem pulmão que resista à tanta poluição. Nem coração que resista a tanto tudo isso e mais um pouco vá com calma que esse peito não lhe pertence assim dessa forma.
E quando a crise bate à porta, quando a trava é acionada e as chaves sumiram-se todas, há só uma saída: escrever. Na verdade há duas: recordar e escrever. Que as vitórias do passado, que os "levanta-te e caminha-te" das trajetórias passadas influenciem o "levanta-te e caminha-te" da trajetória atual.
Se o que faz mau não são só as coisas ruins que consumimos, mas sim acreditar que elas fazem bem, urge descrever algumas "picardias alcoólatras" - porres de paixões cretinas, amores por bebidas podres - como início de saída: recordar e escrever.

Ps: isso aqui é uma série, e este é o número 0/8.


Fragmento - IV.


Sinto saudades de quando o ônibus desce a Rio Branco, com calma, maneirando e sendo segurado pelo pé esquerdo do motorista, que capricha no pisão concentrado no pedal de freio. Isso é depois de realizar a parada na frente do banco do brasil. Em seguida, ele passa pela lombada e faz mais uma parada, na frente da lan house/restaurante, e ai depois da rapaziada descer e subir do ônibus, o motorista solta o freio de mão sem dó. A minha saudade, sobretudo, é de depois disso. O ônibus entra na pista principal da via e vai acelerando, tomando impulso com força, com vontade. Quando ele chega ali no topo (onde à direita tem um posto de combustíveis) raramente ele para, já vai aproveitando o embalo pra contornar uma rotatória/praça redonda antes de realizar mais uma parada. Quem está em pé tem que se segurar, e quem está sentado com sacolas no colo tem de as segurar. Por alguns pares de meses eu descia nessa parada, mas disso não tenho saudades. 


quinta-feira, 25 de junho de 2015

Fragmento - III.


Aquele dia chegou uma moça que a gente não conhecia. Na verdade ela estava dando uma força pra rapaziada que não falava português, estava só de passagem. Lembro também que ela tinha uma bolsa lateral bem grande, e que havia viajado apenas com a roupa do corpo e essa bolsa. "Meninas, alguma de vocês tem uma base pra me emprestar? Esqueci de pegar a minha". Era na época em que nós eramos os primeiros a chegar, ou os segundos, raramente os terceiros. Que época sacra da vida. Foi curioso que os rapazes que não falavam português queriam beber uma cerveja, e eles realmente gostaram das cervejas que beberam aqui. "Skôúl", falava um deles, rindo com a lata amarela na mão. A gente estava meio incrédulo dele ter gostado tanto da cerveja feita com milho pela ambev: "porra, os caras vem da europa, onde tem umas puta cerveja louca, pra tomar esse mijo e acham bom?". Rolou uma parceria tão simpática com a moça da bolsa, lembro que teve uma hora que ela até emprestou o cartão de crédito dela pra gente.


quarta-feira, 24 de junho de 2015

Personagens em filme de ação.


Do ponto de vista individualista, eu tenho coisas mais importantes a fazer agora do que este texto. Do ponto de vista comunitário, eu também teria outras tarefas por cumprir, mas quero preciso escrever esse breve texto.
Ontem dois canais de televisão aberta transmitiram ao vivo uma perseguição policial. No auge desta, um policial desce de sua motoca super motorizada e dispara vários tiros em dois rapazes, caídos à calçada e nomeados pelos apresentadores da mídia como "suspeitos". 
Quem tem um pouco de bom senso de humanidade fica meio espantado com as imagens. O teor de desprezo à vida, de desrespeito à própria noção de sociedade e a frieza do policial são chocantes.
Hoje à tarde vi homens em uma lanchonete vibrando com a atuação do policial: "mesmo se fosse meu filho, tem que meter fogo", disse um deles. No facebook e no twitter me alivio ao ver pessoas próximas comentando a situação com o espanto de que falei acima, e também lamento ao ver professores, maconheiros e/ou artistas declarando apoio ao policial.
A tentativa de homicídio realizada pelo homem de farda é chamada pela mídia de "ação". É curioso que este termo coincida com o gênero de cinema que mais excita a masculinidade belicosa ocidental. É "ação", como os filmes do Schwarzeneger ou do Stalone sujo de lama com a calça rasgada numa selva qualquer matando dezenas de pessoas sem rosto nem sabor, apenas identificadas como "inimigas", ou suspeitas.
Quando morava no interior, e a TV mostrava "imagens de ação violenta em São Paulo" eu pensava: "credo, São Paulo tá complicado", e sentia que aquilo estava afastado de mim. Hoje eu saí da lanchonete, ao lado dela, observando a movimentação das pessoas que atravessavam uma grande avenida, dois homens de farda ao lado de suas motocas super motorizadas - será que receberam o mesmo treinamento daquele que estrelou as imagens de ontem a poucos quilômetros dali? 
Chega até a dar uma pontada fria no baço quando a gente percebe que faz parte de um filme de ação. O passo seguinte é seguir caminhando, torcendo para não decidirem que estamos encenando a personagem do "suspeito". 


segunda-feira, 22 de junho de 2015

hoje eu chutei um ônibus.


Eu perambulo por uma trilha ácida, tensa e xarope: escrevo com floreios repetidos e bem inspirados sobre algo que odeio. Claro, ninguém me obriga a escrever como algo bom, mas quando me vejo falando (com floreios verbais) sobre a cidade e seus caminhos e os rearranjos orquestrados no íntimo da convivência do sujeito urbano por ai e tudo, acaba tendo uma pontinha de palavra elogiosa à coisa. Acho que se eu não passasse trinta minutos esperando um ônibus para depois ter de esperar outro, e viajar em pé espremido em ambos, os floreios soariam menos como imposições forçadas, necessárias ao texto, e mais como coisa viva, vivida e sincera. Pois quando o ônibus demora vinte e cinco minutos para surgir no horizonte da avenida congestionada, e ainda assim não para no ponto, a unica coisa que resta a ser feita é esticar a perna e dar-lhe um chute na lataria lateral.
Ps: acho válido também tirar o sapato e atirá-lo contra o vidro traseiro do veículo coletivo.




sábado, 20 de junho de 2015

Uma foto.


Precisando encontrar alguns arquivos importantes para a minha formação conclusão da etapa atual do trabalho iniciado em junho de 2013, quando decidi que o faria, eis que trombei com elas: as pastas de fotos. Diz graça. Em um pen drive uma destas pastas dizia respeito a um nobre final de semana de viagem, em que saí de casa no final da madrugada de sábado e retornei no início da de segunda. Menos de dois dias que parecem ter sido uns cinco, daqueles períodos em que respiramos outras temporalidades, tipo de coisa que parece que não tenho feito mais. Uma das fotos, vistas sem muita coragem no modo "exibir > ícones médios", ganhou a atenção de ser aberta em um tamanho maior. 
O meu modo de pensar nos passados se dá tendo por base três dispositivos de memórias: a da minha cabeça, que em geral falha; a das fotos que eu faço, que em geral me recordam das situações; e a dos micro textos que escrevo no caderninho que sempre tenho no bolso, que registram o que eu sentia na situação. Às vezes preciso acessar essas três bases de memórias para confirmar uma vivência, às vezes uma basta. 
Ao bater o olho naquela foto, me recordei do que sentia ao fazê-la, e o que me levou a fazê-la.
Havia bebido já bastante naquela noite, estava em uma cidade com a marca registrada das lembranças da juventude, mas isso não incomodava no momento. Bêbado, pensava não no lugar ou na situação em micro espaço temporal, mas sim no macro espaço temporal. O ano estava em seus últimos suspiros (na verdade faltava só mais uma reunião pro fim do ano de trabalho) e o que se anunciava não era meramente o próximo ano, mas sim, o próximo período - e é por viver este período, inclusive, que cheguei ao pen drive, pois precisava achar alguns arquivos...
"Às vezes eu me pergunto o que estou fazendo com a minha vida. Espero que eu não me foda muito", 15 de dezembro de 2013.


sexta-feira, 19 de junho de 2015

Entre botas e mexericas: oceanos.


Teve um dia, que foi mais ou menos nessa mesma época do ano, que estava frio e eu me sentei em um canto ensolarado do quintal pra aproveitar a agradável sensação de calor-no-frio. Me sentei ali para escrever algumas linhas de desabafo em meu caderninho. Antes de ir lá, duas vozes debochavam de mim, pelo mesmo motivo que vinham sendo ríspidas nas últimas semanas: "cala a boca que você vai fazer ciências sociais? pra que vai servir essa merda na sua vida?". Logo que me sentei ao sol uma das vozes gritou, "lá vai o cientistazinho social com seu diariozinho". 
Foi um dia difícil escroto, mas ajudou a firmar uma decisão pra vida dali em diante. Eu tinha plena noção de que, à parte esse tipo de chatice e certas chateações com a cidade, tinha na vida em São Paulo tudo muito confortável: a casa dos pais, a casa dos avós, amigos e amigas, lugares preferidos por ir, jogos do Corinthians por frequentar. Mas havia ali uma vontade palpitante no ser (classificado desde pequeno por "curioso") em sair, ver o que dava pra fazer em outro lugar, talvez um ritmo de vida um pouco diferente - em consonância, claro, com a faculdade praguejada pelas vozes.

Era um começo de tarde quente, o suor ainda saía do corpo carregando as porcarias consumidas nas últimas quarenta e oito horas. No ambiente persistia o aroma do frango assado, quando uma voz suave perguntou: "e agora?". As malas estavam prontas, as caixas fechadas. Embora esperasse uma carona que sairia de carro, sentia como se me lançasse novamente ao mar da troca do cotidiano seguro e confortável pelas navegações desconhecidas, expressas em certo retorno à uma cidade deplorável. Estive disposto a encarar esse tipo de troca, mais uma vez.
O tempo não voou e nem voará, eu jamais direi isso. Ele se arrastou e se arrasta como uma topera manca. Teve ali um riso bonito subindo no bonde pela janelinha, mas em geral, é arrasto. Em geral é a sensação de puxar uma rede que volta pesada do fundo do mar, que permite supor fartura em peixes, camarões e demais frutos do oceano, mas ao chegar às areias revela botas, pneus e outros lixos quaisquer.
Tal qual nas ofensas em dia frio e na pergunta com aroma de frango, agora recentemente também houve interlocução. Dessa vez parecia não ser nada de mais, um encontro corriqueiro com alguém que sabe quem sou e sei quem é. Algumas angústias em comum, cálculos de prazos, limites de tempo. 
Dessa vez não tem segurança, não tem lá muito conforto na rotina cotidiana. Esta página aqui não me deixa mentir: não há aquele dia a dia saboroso que enche a boca como gomo de mexerica colhida no ponto e saboreada na sombra duma árvore. Desta vez, quando chegar a hora do "e agora?", já planejado de antemão, será tão suave pegar o meu diariozinho e apenas registrar o momento em que me lanço novamente à algum mar de incertezas e curiosidades, onde tocarei a vida até cansar, novamente.



quinta-feira, 18 de junho de 2015

Imensidão translucida.


-Você lembra?
-Do que exatamente?
-Você lembra?
-Do que?
-Em geral, você lembra?
-Lembro. Mas do que?
-Especificamente. . . . . . . . . .
-Do que?
-Daquele dia em que corremos muito.
-Corremos onde? Pra que?
-Pra pegar o ônibus.
-Lembro. Mas qual deles.
-Qual dia?
-Não, qual ônibus?
-Foram tantos né?
-Foram.
-Você lembra?
-Sim, lembro.


quarta-feira, 17 de junho de 2015

Vento & Domingo.


Há duas coisas relevantes aqui: o vento e o domingo, e vice versa, sem hierarquia de importância. Na verdade, mas isso não qualifica mais ou menos um ou outro (fica a critério de quem lê), foi o primeiro que gerou o estopim para tal aglomerado verbal, no entanto, foi percebê-lo no segundo que provocou a explosão, notadamente marcada sob a oração: "está certo, vou escrever isso".
Amanheci em um domingo que deveria ser pleno e saboroso em sua plenitude, sem assim o sentir. Pelo contrário, tinha percorrendo as papilas gustativas o sabor amargo das obrigações azedas por cumprir.
É incrível como os sentimentos mudam drasticamente quando a coisa toda parece estar em desequilíbrio.
Como tem sido de praxe nos domingos (retomando), fiz uma série de alongamentos musculares ("calistenia Chaves!"), vesti o capacete e subi na bicicleta. Porém, era um domingo de fortes ventos na capital paulista. 
Desde que tornei a morar nesta cidade tenho vivido outra inversão interessante, que se não é da ordem do moral, é ao menos identitária. 
Quando morava em Marília, meus amigos diziam que eu era urbano demais para a vida interiorana. Agora, morando em São Paulo, qualquer lampejo de natureza não urbana erguida pelo concreto e graças ao conhecimento científico industrial ou industrializante me atrai e conforta.
O vento foi esse elemento neste domingo.
Embora estivesse na direção oposta a que eu seguia, e soasse como uma barreira a ser transposta, exigindo maior força nas pernas pedalantes e uma maior ainda concentração para estabilizar e equilibrar o tronco, foi um elemento positivamente experimentado.
Embora canalizado e de força potencializada, em razão das altas torres nas bordas da avenida, que a transformam em um corredor de sopros rápidos, vi com bons olhos aquela força na direção contrária ao meu deslocamento: como tudo nessa bosta nessas vivências recentes interpretei como uma metáfora, desta vez da natureza me dizendo "mais força Gabriel, você pode ser mais forte".
Quando, na verdade, o problema não é a força do vento ou a falta de força nas minhas pernas. É só um excesso de adjetivos e figuras de linguagens em horas e momentos errados.


quarta-feira, 10 de junho de 2015

Sambando entre extremos.


Quando começou o samba, e eu comecei a dar aquela aquecida, alguns tamborins rebatendo de leve e tudo o mais, eu ainda não estava muito integrado à rapaziada, e, envergonhado, não sabia direito como lidar com algumas coisas. Como o chuveiro, por exemplo. Eu não entendia como funcionava para mudar a temperatura dele, e acabei por tomar gélidos banhos algumas noites seguidas. Lembro que não tinha problemas em classificar: "esses são os piores banhos da minha vida".
Depois, já no meio da festa, quando o carnavalzão tá comendo solto brabo, não tem ninguém caindo de bêbado ainda e a animação faz jus ao termo "festa", decidi que realizaria uma mudança em meu cotidiano: tomava café solúvel, e migrei para o coado. Demorei em acertar a medida e, para piorar a situação, certa vez comprei um café de marca fantasma, paguei dois reais no quilo, e ele era realmente horrível. Após alguns amanheceres, novamente, não tive problemas em classificar: "esses são os piores cafés da minha vida".
Bom, dai chegou aquela fase em que o pessoal já está correndo apressado pra não estourar o tempo de avenida, e tem a rapaziada no fundo com as vassouronas limpando a pista pra iniciarem o próximo desfile. Foi mais ou menos nessa época que se tornou frequente assistir o sol nascer pelos vincos estriados dos vidros da pequena janela. Era todo um contexto, repleto de coisas únicas que me levavam a ver o sol nascer e a criar mais uma classificação: "esses são os melhores amanheceres da minha vida".
Extremos & Exageros. É nesta avenida que eu sambei em todos esses anos de fins de juventude. Como equilibrar a paçoca?


terça-feira, 9 de junho de 2015

Porra Vanderlei!


Descia a Rua Vanderlei. Na verdade teria que ver o sentido dos números das casas e prédios pra saber se eu descia mesmo, em sentido geográfico. No entanto, afirmo que a descia pois ela configura-se como uma ladeira, e eu seguia na direção do topo para a base dela, de modo que, se a organização numérica-geográfica da rua não era a de descer, o esforço físico empreendido por meu corpo era. 
Bom, descia a Rua Vanderlei quando me dei conta do nome dela, ao olhar sem notar para a placa posicionada na esquina. Tomava um refrigerante e arremessei a lata vazia em uma destas caçambas para recolher entulhos de obras, que acabam virando grandes lixeiras públicas aos transeuntes, como eu, e acabei batendo os olhos no nome, escrito em branco sobre azul em caixa alta: VANDERLEI.
Ao notar que a rua que eu descia era a Vanderlei me lembrei de uma intervenção feita por um jovem senhor, de mesmo nome da rua, em uma conversa que eu travava com um ex-colega há alguns anos. 
Embora tenha se passado mais ou menos meia década desta conversa, eu ainda me recordo dela, se não todos os dias, frequentemente a cito em outras conversas e a encontro em meus pensamentos durante conversas mentais com a rapaziada que habita a parte interna e macia do meu crânio.
Descia a Rua Vanderlei, já estava perto da base daquela ladeira, onde outrora deve ter existido um riacho ou córrego ou rio bem bacana, onde a rapaziada pescava e nadava e a rapaziada que nadava enroscava os pés nos anzóis da rapaziada que pescava. Hoje passa um pessoal xarope de bicicleta, ou correndo a favor do tempo ou passeando com os cachorros lustrados.
Me vi sozinho ali, ainda pensando na conversa e na fala do Vanderlei, e me vendo sozinho por ali, tinha mais ou menos uns 20 metros entre eu e um homem com um cachorro babando, não me privei de bradar com força "Porra Vanderlei!".
PORRA VANDERLEI!


sábado, 6 de junho de 2015

A casa do pão de queijo.


[Ou "uma história nojenta - III"]

-Amor. Acorda amor.
-Rãhn.
-Te fiz café - abre os olhos.
-Caramba! - exclamação ante uma jarra de suco, algumas torradas com geleia, duas bananas, um pequeno bule de inox (fumegando), duas xícaras e um cestinho com mini pães de queijo - caramba, que café, linda!
-Pra você não dizer nunca mais que eu nunca te trouxe café na cama.
-É, mas pra empatar comigo ainda falta, hein?
-É que eu gosto de dormir mais do que você.
-Nhé, preguiçosinha.
-Mas hoje acordei antes, pra te fazer surpresa.
-E que surpresa! Parece até propaganda de margarela.
-Nhé. Vamo comê?
Nem responde, já vai metendo a mão nos pães de queijo e os pães de queijo na boca. Pega um e passa no pescoço da moça, que dá uma risada larga, espaçosa e duradoura.
-Gostou? 
-Engraçado.
Repete, o ato. Dessa vez com um pão de queijo mordido e passado na geleia de uma das torradas. O desliza da lateral do pescoço até o limite da gola da camisola. 
-E se cair aqui - diz liberando a alça esquerda da camisola e deixando à mostra um dos seios. Ri, e repete a brincadeira, chegando até a borda dos mamilos.
Riram novamente. Ficou séria. Soltou um breve gemido, seguido de um riso tímido.
-Fecha o olho - falou, e fechou - não vale olhar.
-Tá! . . . . . . . . . Pode olhar?
-Não, espera mais um segundinho.
-Ai ai...
-
-
-
-
-
-
-Pronto, pode abrir!
-Cacete porra credo!
Conforme ela abria espaço, e o pão de queijo tornava a aparecer, mais ele parecia um coco branco amarelado, e não algo sexualmente atrativo de bate e pronto.