quinta-feira, 21 de maio de 2015

Indianópolis a 40 por hora.


Lembro que naquela época tinha um papo de que a infância tinha acabado, e que não éramos mais crianças, e sim pré-adolescentes. Na televisão bombardeavam isso na nossa cabeça, exceto no final de setembro, quando as propagandas de brinquedos valorizavam a criança (e seu dia). Me recordo também de não ficar muito encanado com isso de querer ser pré-adolescente como algumas outras crianças, que repetiam um bordão: "eu não sou criança, eu sou pré-adolescente, e mereço respeito!".
Lembro que nessa época teve um dia em que eu fiquei feliz, me sentindo responsável, pois fui autorizado por meu pai, minha mãe, minha avó e meu avô a ir em um passeio ciclístico/ato exigindo mais respeito e espaço para os ciclistas na cidade. Num domingo qualquer centenas de bicicleteiros se encontraram no Parque das Bicicletas, perto do Parque do Ibirapuera, em São Paulo. O intuito era interromper o trânsito de algumas avenidas da região, o que foi feito sem muito alarde ou repercussão.
Me senti cheio de responsabilidade nesta situação, não por estar em um ato aparentemente político, mas sim pois ela envolvia pedalar para além dos limites do bairro, trafegar por avenidas movimentadas e largas, coisa de menino grande.
Em manhãs de domingos posteriores, mesmo sem o ato, eu e os menino (assim, com o plural parcial) lá da rua pegávamos nossas bicicletas e seguíamos rumo ao Parque do Ibirapuera. Pedalávamos um tanto por lá, e depois voltávamos para a rua de origem. Eu, morto, cansado, eles, de boa - sempre fui o menos saudável das turmas que frequentei.

Esses dias repeti o exercício de 'descer' a Indianópolis, avenida larga, cumprida e movimentada, que conecta a Avenida Jabaquara à Avenida Ibirapuera, de bicicleta. Era dia de semana, mas o trânsito estava livre e não havia ônibus no meu trajeto. Engatei uma marcha bem pesada, pra pegar bastante velocidade, e não me privei de, tal qual aquele garoto empolgado, bradar ao sentir o vento bater forte no rosto: "puta ventãããããão".


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