terça-feira, 5 de maio de 2015

Fragmento.


Descia uma rua íngreme para chegar em uma avenida plana e lá esperar e embarcar em um ônibus. No meio da descida parei em um mercado e comprei uma lata de refrigerante. Ao dar o primeiro gole e sentir o frescor gélido batendo com certa agressividade nas minhas corrompidas gengivas e raízes de dentes, me recordei de uma situação. Estava junto de uma rapaziada, todo nós fazíamos o mesmo, todos nós sabíamos que o que fazíamos muito mal nos fazia mas ninguém deixou de o fazer. Aliás, não posso afirmar que todos sabiam, pois não realizei tal senso de opinião, mas não creio que alguém ali acreditasse estar consumindo vitalidade e saúde. Dado momento específico uma das pessoas se virou a mim e me disse: "Coiso, desse jeito que você faz deve fazer muito mal pra sua boca não faz mais assim não". Quando me reparei descendo a rua, bebendo um refrigerante e lembrando disso, fiz um desvio e segui pelo caminho mais cumprido até a avenida plana, para que bebesse todo o refrigerante sem o risco de entrar no ônibus (que estaria lotado) com a lata aberta na minha mão. Foi então que, passando a língua pela gelada gengiva superior, me visualizei sentado em algum banco do segundo ônibus que eu pegaria naquela noite, redigindo essa situação no caderninho que estava em minha mochila. A gente está sempre transitando entre vícios.



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