sexta-feira, 29 de maio de 2015

Eu estou assustado.


Penso a composição de um texto como um balde de lego: cada frase é um bloco pequeno, que articulado, geram blocos maiores, que conectados, geram parágrafos, que quando se junta dezenas de blocos pequenos e grandes, tem-se o texto tal qual uma estrutura colorida, física e com forma. O texto adiante é mera junção de blocos, sem preocupação com a forma final.
Estava em pé na escada do micro-ônibus/lotação pois desceria no ponto seguinte. A porta a minha frente estava fechada quando ele parou em um semáforo que fica bem em frente a uma loja. Pelo vidro da porta vi uma mulher, que com uma mão segurava de maneira dolorosa e firme o braço de um garoto, com a outra mão segurava um cigarro. A boca alternava movimentos de tragar a fumaça do cigarro e de mandar o garoto calar a boca e parar quieto, sob a ameaça de que apanharia. Aquela moça estudou comigo na escola, mas isso já faz duas décadas; tínhamos a idade do garoto que ela repreendera.
No consultório do oculista um choro de criança era intenso e pesado, preenchia toda a sala de espera, e se alongava para o corredor externo. Gritos desesperados diziam "não, me solta, não quero, vai doer, me solta mãe". Falas amenas e calmas diziam: "a tia vai pingar só uma gotinha em cada olho, não dói", "deixa a tia pingar uma gota num olho, se doer eu não pingo no outro". Não sei como se resolveu a situação, sei que instantes mais tarde a criança que clamara em desespero por ser solta pela mãe, ouvia da mesma: "se você não vier sentar ao meu lado agora, eu vou chamar a tia pra pingar de novo no seu olho".
Domingo a noite no programão da TV. Lamenta-se a morte de um médico, não foi uma pessoa que morreu, foi um médico. Fala-se de quem o matou, não foi uma pessoa que o matou, foi um morador de tal região, com tais aspectos físicos e com tais reincidências. A violência choca, espanta, causa um nó na garganta do repórter. Uma vinheta toca: "vamos à Los Angeles, falar do UFC". A violência não mais choca, não espanta, pelo contrário: fascina.
Clínica para reabilitação de traumas musculares e ósseos. Profissionais formados, profissionais formando-se, pessoas com dores diversas, problemas distintos e histórias de vida e de lesões variados. Uma voz feminina, jovial e entusiasmada começa a entrar na sala onde estou há dez minutos aguardando pelo atendimento. Espio por uma fresta, dois profissionais e um profissional em formação se dedicam a ela. Ouvem-na, querem indicar qual o problema e qual a solução, querem conversar com ela e dedicar o conhecimento que adquiriram sobre o corpo humano apenas no dela.
Ainda no programaão de domingo dedicam um bom tempo em considerar heróis aqueles que conseguem perder peso. Com pesar se dedicam à moça jovem que não diminuiu a cintura, que prefere comer sem muitas regulações a se adequar à rotina de exercícios frenéticos que fez com que outra moça fratura-se um joelho: "ela se empolgou, quis dar o melhor de si". A moça jovem é enquadrada, música de tensão, falas sérias: "vamos consultar um nutricionista". 
Eu estou cada vez mais assustado com o nosso cotidiano.



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