sábado, 11 de abril de 2015

Sem olfato nem paladar.


[ou: "uma história nojenta - II"].
Fazia quase seis meses que estávamos morando juntos. Após três anos e algum tempo partilhando momentos, ora mais, ora menos esparsos, resolvemos ajuntar nossas vidas, meiando os espaços de um apartamento e do valor de um aluguel.
Era tudo gostoso, um cotidiano que dava vistas à se desejar viver daquela maneira por um bom tempo.
Vivíamos um fim de mês apertado, tínhamos pouco dinheiro quando chegou aquele final de semana prolongado, com um feriado na segunda feira. Não iríamos para a cidade nem de um, nem de outro, e, para piorar, eu fiquei doente na quinta, um resfriado daqueles. Então, ficaríamos os três dias em casa, acompanhados de bons filmes.
No sábado à noite assistíamos ao episódio cinco da trilogia sextologia, quando tive uma crise de tosse. O corpo largado na cama, nadando fervente na própria febre e eu me afogando nas próprias tossidas repletas de umidade pulmonar. Nem precisei pedir, e já se prontificou em me fazer um chá, bem quentinho, com gengibre e mel.
Companheirismo e cuidado se manifestaram naquele ato de se levantar e correr à cozinha para fazer o chá para mim.
Ouvi o som estabanado de algumas panelas caindo ao chão, uma delas foi enchida com água, em seguida ouvi o som dela sendo apoiada sobre uma das bocas do fogão, o estralo do acendedor; portas de armário foram abertas e fechadas com a falta de delicadeza peculiar, até que uma pergunta entrou vocalmente pela porta do quarto:
-acabou o chá, ai ai. Posso te fazer um leite com chocolate bem quente?
-pode, claro, agradeço, amor.
Ouvi o barulho da água sendo despejada dentro de uma bacia plástica (tem que economizar água, Geraldinho), a geladeira sendo aberta e fechada, um barulho que imaginei ser o leite batendo no fundo da caneca de alumínio, e a caneca de alumínio voltando pra cima da boca do fogão. 
Ouvi também um pum estridente, e sorri: melhor lá do que aqui, embora eu esteja com o nariz tão constipado que não sinto cheiro algum de nada. Estranhei não ter ouvido barulho da lata de nescau.
Voltou para o quarto com minha xícara preta com bolinhas roxas toda fumegante. Me levantei um pouco e me sentei. Agradeci a caneca de leite quente com um sorriso e um beijo na bochecha, enquanto arrumava as cobertas em mim. 
Dei um gole curto naquele leite espesso e quente, afinal, não sabia o quão quente ele estaria. Não estava ruim, mas também não estava bom: "deve ser o paladar estraçalhado pela gripe", pensei. Mais um gole, e aquilo estava estranho mesmo:
-você colocou achocolatado em vez de nescau?, perguntei.
-Não, mas como não tinha nescau eu fiz um pouco de coco ai dentro.
Sorriu, soltou mais um pum, e continuou sorrindo. Espirrei, e o leite quente abrandou a tosse.


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