quinta-feira, 9 de abril de 2015

O bife com um ovinho.


Quando eu ainda tinha lá alguns resquícios de juventude positiva circulando por mim, e era estagiário da biblioteca da faculdade, eu tinha um fetichismo por maionese verde. Era-me um luxo tão intenso em algumas noites sair do trabalho de guardar os livros nas prateleiras e comer um lanche com tal iguaria.
Um tempo depois, naquele período (inclusive já longínquo nas memórias) em que eu fui professor, o fetichismo alimentício mudou. 
Logo no primeiro dia na escola me ensinaram o caminho até a chave da cozinha, o caminho até a cozinha e o caminho até onde guardavam as panelas com as sobras da merenda das crianças, para que eu ficasse à vontade para almoçar. E como almocei à vontade e com vontade, muitas vezes, aquelas merendas.
No entanto, havia períodos do mês em que a verba estadual atrasava, ou mesmo já estava no final, ou mesmo a nutricionista do município estava com preguiça, e a merenda era, na verdade, uma triste merenda: pão com patê de salsicha, pão com margarina, mingau de chocolate, arroz temperado e outras iguarias nada sustantes para o pião do professorado (o quão não sustenta era, sobretudo, para as crianças em desenvolvimento).
Foi num desses dias que a diretora do colégio me ensinou o caminho até um dos dois restaurantes da cidade, dizendo: "lá você vai comer bastante, bem e pagando pouco, pode confiar em mim".
Naquela época eu já tinha entendido como funcionava o pagamento do governo do estado para os professores substitutos. Já tinha entendido que a gaita paga pelo meu trabalho era baixa, mas comer para trabalhar era essencial, mesmo que tivesse de gastar o equivalente a duas horas/aula para tal - não era o almoço que era caro, a hora/aula que é uma vergonha mesmo.
O esquema do restaurante era: pague R$12,90, e coma o quanto quiser do buffet, com direito a um bife - e que bifão - frito na hora. A moça que trazia o bife perguntava sempre: "professor, aceita um ovinho frito junto?", e eu sempre aceitava. 

Pois foi hoje, retornando para casa após duas horas depositadas em uma conferência (de índole duvidosa), quando dava soquinhos, no ritmo da música, nas correias de borracha da escada rolante de alguma estação de metrô, que pensei: "hoje eu só queria almoçar um bife com um ovinho naquele restaurante em Vera Cruz".


Nenhum comentário: