quinta-feira, 23 de abril de 2015

Naquela época eu morei na barraca.


Teve um período, não me recordo exatamente quanto tempo ele durou, se foi uma semana, duas, ou um mês (mais do que isso eu sei que não foi). Fazia pouco tempo ocorrera uma situação desagradável, e eu me sentia entre desamparado e temeroso com a mesma frequência de minhas respirações. A sala de casa me soava tensa, idem para a cozinha, o quarto, o banheiro e o mini quintal. Não me recordo ao certo quando, mas numa noite eu inventei de abrir minha barraca de camping e a montar no meio do meu quarto. Nessa época eu já gostava de acampar, antes, quando comprei a barraca, eu julgava que a prática era desprezível e inútil; ainda bem que peguei gosto pela coisa e fiquei com a barraca. De certo modo, naquela semana (ou duas, ou um mês) a barraca me ajudou a dormir. Dentro dela o meu colchão (eu não tinha cama) e ao redor dela a escrivaninha, a cadeira e demais objetos que compunham a bagunça daquele cômodo. Teve uma noite que uma moça foi em casa, viu a barraca no chão do quarto e começou a desfilar firulas verbais sobre como eu era genial, inventivo, artístico e despreocupado ao fazer aquilo. Pedi pra ela ir embora, pois não era nada disso. Naquela época eu morei na barraca por puro simbolismo de criar mais uma barreira, por fina que fosse, entre o mundo e eu. Mas, no fim das contas, as noites tenebrosas foram poucas, e eu sabia que estava tenebrizando mais do que haviam trevas, e sinto saudades daquele quarto, sem tirar nem por.


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