domingo, 26 de abril de 2015

Mudando os vínculos.


Dai aconteceu o que usualmente acontece com a rapaziada que faz traquitanas físicas com os próprios corpos em cima de corda bamba. Quem pratica isso no circo tem uma rede abaixo de si, quem pratica isso nas praias e parques (é moda isso agora né?) tem a grama ou a areia embaixo de si - nada de bater com a bunda no concreto duro do chão feito pelo homem. Bom, aconteceu o que sempre ocorre com essa rapaziada, e eu cai.
Não tinha grama, não tinha areia, não tinha rede. Não fisicamente, pois se trata de queda metafórica. Eu sempre soube que isso poderia acontecer, todo mundo que gosta de fazer remelexos em cima de cordas bambas é ciente do risco de cair, vocês sabem, vocês fazem.
Não tinha uma rede de elásticos, mas há uma rede de pessoas. Há também um gramado de resistentes e macias folhas de grama que permitiram uma queda não tão dolorida e, mais importante, conferiram maciez ao corpo na certeza da cabeça que lhe diz: "hey, vamos levantar?". A rede e o gramado acabaram sendo, na verdade, catapultas propulsoras, e isso é uma expressão de gratidão, mas eu não vou falar de pessoas (sobre isso falo diretamente com elas).
(Daria até pra fazer um parágrafo inteiro sobre aquele papo de que às vezes faz bem dar uma tropicada e beijar o chão pra levantar e andar pra frente, mas prefiro fazer só um parenteses).

Foi um ano, um mês e alguns pares de dias. Vinha levando uma vida fundamentada em 'ar' - resmungar, reclamar, procrastinar, merdar - olhei ao meu redor (ainda meio zonzo do capote), e a segunda atitude tomada (a primeira eu guardo pra mim) foi comprar uma bicicleta. "Bom, você já levantou e está andando legal, não manca nem nada, por que não buscar um outro modo de ir do ponto A pros pontos B's?".
Como eu odeio essa cidade! Mas reclamar disso/dela foi um dos fatores cruciais dentre os que me levaram ao tão relevante tombo, e buscar caminhos distintos para olhar as formas e conteúdos daqui de um outro modo me soou como a receita do dia para um programa de culinária.
Não é mais (apenas) no ônibus ou no metrô em que eu perco tempo pra me deslocar. Não dependo mais (apenas) da vagarosidade dos meus passos cansados para me mover. Agora eu pedalo, e vejo os postes passarem, e vejo os carros pararem à minha esquerda enquanto eu fluo, plano pela calçada, pelo piso vermelho ou pelo cantinho desabitado de motores.
Mudei o vínculo com a cidade. Mudei, também, o vínculo com o corpo. Mudei o vínculo com vocês e com a vida, eu ousaria dizer. Ousaria ainda, em tom jocoso (claro), dizer que entendo as propagandas de tênis que querem te fazer crer que ter uma rotina de exercícios é bom - estão certos, desgraçados marqueteiros - e a coisa toda não precisa ser tão ruidosamente dolorosa, destruidora e destrutiva (e essa ordem é importante).
Não adianta nada encher um carro com malas e caixas e dizer "estou fazendo uma mudança" se as espinhas dorsais da coisa toda não são pensadas com base neste mesmo verbo: mudar.


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