sexta-feira, 3 de abril de 2015

Cinza Grotesco.


Quando eu era um jovem bem jovem, e completei 16 anos de idade, na manhã daquela quinta feira (posterior à uma vitória do Corinthians na Copa do Brasil daquele ano), meus pais me deram um presente saboroso: algumas telas em branco, uma paleta para tintas e uma caixa com oito bisnagas de tintas acrílica. 
A Kalunga sempre foi um local a me acender fetichismos por mercadorias.
Naquela época os estímulos recebidos desde criança pelo gosto por artes diversas tomava um rumo específico, o de artes mais públicas, feitas nos espaços da cidade. No sentido de estimularem tais práticas, mas de me resguardarem ao espaço da casa, recebi tal presente com brilhos nos olhos.
Naquela época também, eu tinha aulas de artes com um rapaz de riso fácil, conhecimentos amplos e didática simpática. Muitas foram as situações em que mostrava as tralhas que eu criava para ele, e ele fazia críticas, dava sugestões, me apresentava novas técnicas etc.
O Jair foi um professor, no sentido intenso e extremo da palavra.
Certa vez, numa aula em que muitos de meus colegas preferiram se dedicar às artes de suas fofocas e intrigas juvenis, eu não me cansava de misturar cores e formar tintas para pintar trechos de um mural em papel paraná, onde afixaríamos algumas fotos.
Certo momento Jair parou ao meu lado, olhou o que eu fazia e não se absteve em comentar: "olha Gabriel, você se empolga, vai misturando um monte de tinta e chega nesse cinza grotesco, cuidado com o cinza grotesco!".
Chegar ao 'cinza grotesco', como fruto do não desejo de parar, e da empolgação por usufruir cada mínimo pedaço de prazer na vida, não raro, tem me levado a uma série de cinzas grotescos.

Ps: muito provavelmente a frase dita por Jair não tenha sido exatamente assim, visto que se passaram dez anos.

Nenhum comentário: