quarta-feira, 22 de abril de 2015

Amanhecer na praia.


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Ante ontem estava fazendo um calor descomunal para essa época do ano, ontem de manhã também, mas por volta das 13 horas o tempo começou a fechar, choveu bastante, em pancadas separadas por breves períodos de tempo com um sol envergonhado, escondido, e ai esfriou. Hoje, desde a hora que eu acordei, está frio e chovendo ininterruptamente, apenas varia a intensidade da quantidade dos pingos. O fato de haver barulho de chuva vindo de fora me causou certa confusão com o barulho de chuva que vinha de dentro, das caixas de som - acho que foi por isso que refinei a atenção à música e a todas as sensações subsequentes. Entraram chocalhos e violões, entraram e, em meio à chuva, era como se tivessem, na verdade, se sentado no banco de madeira - temos um na sala. Tinha um punhado de carne moída na geladeira, também uma panela com arroz, um pedaço de bacon cru e um pote descongelado de feijão. Juntei tudo numa panela baixa, com azeitonas e cebola picadas, pois eu precisava almoçar. Quando me sentei para comer, já estava mastigando aquela mistura semi pastosa, ou seja: quando me sentei para comer, eu já comia. Entraram violinos, em meio ao batuque discreto, em seguida se juntaram as trombetas, trombones e cornetas. Mascava a comida com calma, havia ali até que bastante sabor, o bacon era bom e o gosto da azeitona passou bem para a carne; eu gosto de arroz e feijão. De repente tinha areia, não na comida, mas nos meus pés, entre os meus dedos. E tinha aquele som da água corrente constante ao fundo, vindo da porta aberta do quintal para a cozinha, e eu realmente sentia a areia nos meus pés. Entraram também pratos mais intensos, garfos e facas. E era como se o sol estivesse nascendo a minha frente, e eu precisasse colocar uma camiseta dobrada por cima dos ombros, pois era o sol que engana, aquele que é nascente, mas mesmo assim queima a pele. A água do mar batia nas canelas, era clarinha, limpa. O cheiro das ondas quebrando, o barulho do vento chacoalhando as árvores altas na ponta da praia. Não tinha mais ninguém presenciando aquele amanhecer na praia, de ponta a ponta, era eu e aquele monte de sons e cheiros e sensações; passou um siri. Voltaram as trombetas, os trombones os pratos, um embolado sonoro empolgante, que quase parecia o meu viradão de outrora e, junto deles, surgiu um vidro de azeite indicando o fim. E de repente acabou mesmo. De repente.



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