terça-feira, 28 de abril de 2015

Orrecla Mão.


Lapa de baixo, depósito de doces, salgadinhos e bebidas comercializados a preços populares. O forró que toca no bar ao lado entra estridente pelas portas abertas e faz vibrar os pacotes de biscoito de polvilho na prateleira lateral. Bz bz bz. Entre potes de paçocas e caixas de pirulitos está o balcão do caixa em que se paga os produtos que se deseja adquirir ali. Nas minhas mãos uma garrafa com refresco líquido e um pacote com cinquenta gramas de amendoins, torrados e salgados. A pistola plástica de laser vermelho na mão da moça atrás do balcão indicou, conforme mostrado no monitor ao seu lado, que em troca desta refeição saudável devo entregar a ela cinco reais, o que faço sem haver necessidade de troco.
-Saco? - ela pergunta.
-Brigado moça, de saco já basta minha vida.


segunda-feira, 27 de abril de 2015

A festa na casa da menina linda.


Tinha uma menina que era linda, e essa definição não é minha. Muitos e muitas (não posso dizer todas e todos pois não fiz este levantamento preciso de dados) por ali a classificavam de tal maneira: "é a mais linda que já andou por aqui", "é tão linda que toda a beleza restante no mundo fica pequena", "quando eu tiver a idade dela quero ser linda como ela". Era curioso observar as pessoas a observando enquanto caminhava e cumprimentava quem ela conhecia, sempre com um sorriso e uma voz baixinha, mas tão atenciosa. Certa vez começaram a pipocar pelas paredes cartazes que anunciavam uma festa, num sábado a noite, para dali a treze dias. O endereço indicado no rodapé dos cartazes ocultava uma informação importante, mas que rapidamente começou a circular entre as pessoas: seria na casa da menina linda. Como num conto medieval, houve uma divertida empolgação com a possibilidade de se viver uma festa na casa da menina linda. Pessoas que não eram muito ligadas nestes tipo de evento afirmavam que iriam; no boca a boca, o tema da festa importava menos do que o local. Então chegou aquela noite, e, tal qual a maioria do bem, me dirigi para aquela casa. Cheguei cedo (isso sempre acontece), sai pra dar uma volta e retornei mais tarde. Dentro da casa, pelos cantos, pessoas apoiadas em seus pequenos grupos; no jardim da frente turminhas maiores conversando baixinho; no quintal dos fundos, onde aparentemente haveria música ao vivo, uma caixa de som sendo consertada às pressas e a menina linda acompanhando apreensiva o resgate do auto falante. Andei novamente pela casa inteira, e encontrava apenas o silêncio dos cochichos, apenas as pessoas olhando para todos os lados procurando sabemos quem para bajular-lhe a beleza, apenas garotas e garotos mordendo a borda de seus copos plásticos ou destacando com persistência os anéis de alumínio de suas latinhas de cerveja. Fui embora.


domingo, 26 de abril de 2015

Mudando os vínculos.


Dai aconteceu o que usualmente acontece com a rapaziada que faz traquitanas físicas com os próprios corpos em cima de corda bamba. Quem pratica isso no circo tem uma rede abaixo de si, quem pratica isso nas praias e parques (é moda isso agora né?) tem a grama ou a areia embaixo de si - nada de bater com a bunda no concreto duro do chão feito pelo homem. Bom, aconteceu o que sempre ocorre com essa rapaziada, e eu cai.
Não tinha grama, não tinha areia, não tinha rede. Não fisicamente, pois se trata de queda metafórica. Eu sempre soube que isso poderia acontecer, todo mundo que gosta de fazer remelexos em cima de cordas bambas é ciente do risco de cair, vocês sabem, vocês fazem.
Não tinha uma rede de elásticos, mas há uma rede de pessoas. Há também um gramado de resistentes e macias folhas de grama que permitiram uma queda não tão dolorida e, mais importante, conferiram maciez ao corpo na certeza da cabeça que lhe diz: "hey, vamos levantar?". A rede e o gramado acabaram sendo, na verdade, catapultas propulsoras, e isso é uma expressão de gratidão, mas eu não vou falar de pessoas (sobre isso falo diretamente com elas).
(Daria até pra fazer um parágrafo inteiro sobre aquele papo de que às vezes faz bem dar uma tropicada e beijar o chão pra levantar e andar pra frente, mas prefiro fazer só um parenteses).

Foi um ano, um mês e alguns pares de dias. Vinha levando uma vida fundamentada em 'ar' - resmungar, reclamar, procrastinar, merdar - olhei ao meu redor (ainda meio zonzo do capote), e a segunda atitude tomada (a primeira eu guardo pra mim) foi comprar uma bicicleta. "Bom, você já levantou e está andando legal, não manca nem nada, por que não buscar um outro modo de ir do ponto A pros pontos B's?".
Como eu odeio essa cidade! Mas reclamar disso/dela foi um dos fatores cruciais dentre os que me levaram ao tão relevante tombo, e buscar caminhos distintos para olhar as formas e conteúdos daqui de um outro modo me soou como a receita do dia para um programa de culinária.
Não é mais (apenas) no ônibus ou no metrô em que eu perco tempo pra me deslocar. Não dependo mais (apenas) da vagarosidade dos meus passos cansados para me mover. Agora eu pedalo, e vejo os postes passarem, e vejo os carros pararem à minha esquerda enquanto eu fluo, plano pela calçada, pelo piso vermelho ou pelo cantinho desabitado de motores.
Mudei o vínculo com a cidade. Mudei, também, o vínculo com o corpo. Mudei o vínculo com vocês e com a vida, eu ousaria dizer. Ousaria ainda, em tom jocoso (claro), dizer que entendo as propagandas de tênis que querem te fazer crer que ter uma rotina de exercícios é bom - estão certos, desgraçados marqueteiros - e a coisa toda não precisa ser tão ruidosamente dolorosa, destruidora e destrutiva (e essa ordem é importante).
Não adianta nada encher um carro com malas e caixas e dizer "estou fazendo uma mudança" se as espinhas dorsais da coisa toda não são pensadas com base neste mesmo verbo: mudar.


sexta-feira, 24 de abril de 2015

As coisas não duram mais nada.


O ano era dois mil e onze, se a memória não me trai, eram meados de maio, final de abril. Em um dia qualquer da semana anterior me convidou para uma breve viagem, uma noite, um dia inteiro, outra noite, um amanhecer e voltaríamos, nada além disso. "Tudo bem", eu pensei, faz até sentido fazer esse tipo de coisa por agora. Naquela época no apartamento em que eu morava, tinha um tanquinho elétrico muito bom. As únicas orientações eram não colocar muita roupa e acertar os instantes de enxague dele (para que a área de serviço e a cozinha não alagassem) que os panos ficavam bem limpos e cheirosos. Por alguma razão, quando chegou o dia da viagem, notei que não havia em minhas gavetas nem uma cueca limpa. Nem uma. Faltavam duas horas para nossa partida e, agravando o quadro, eu precisava almoçar. Não tive dúvidas, e fiz o prático: corri ao centro da cidade, onde comeria um prato de boa comida por R$3,75 e compraria um pacote com três cuecas, que custou R$9,00. Hoje a tarde tomei um banho, e quando voltei ao quarto para me vestir peguei a primeira cueca que vi na gaveta. O elástico está frouxo, um pequeno furo na lateral cresceu e se reproduziu. Em suma, ela não cumpre mais seus desígnios cuequísticos de maneira digna. "As coisas não duram mais nada", falou a cueca para mim, maltratada pela vida que levei no período da vida em que a usei com frequência, "você foi uma ótima cueca, aproveitemos, é nossa última noite juntos". Vou dormir e acordar aos prantos, adeus cueca.


quinta-feira, 23 de abril de 2015

Naquela época eu morei na barraca.


Teve um período, não me recordo exatamente quanto tempo ele durou, se foi uma semana, duas, ou um mês (mais do que isso eu sei que não foi). Fazia pouco tempo ocorrera uma situação desagradável, e eu me sentia entre desamparado e temeroso com a mesma frequência de minhas respirações. A sala de casa me soava tensa, idem para a cozinha, o quarto, o banheiro e o mini quintal. Não me recordo ao certo quando, mas numa noite eu inventei de abrir minha barraca de camping e a montar no meio do meu quarto. Nessa época eu já gostava de acampar, antes, quando comprei a barraca, eu julgava que a prática era desprezível e inútil; ainda bem que peguei gosto pela coisa e fiquei com a barraca. De certo modo, naquela semana (ou duas, ou um mês) a barraca me ajudou a dormir. Dentro dela o meu colchão (eu não tinha cama) e ao redor dela a escrivaninha, a cadeira e demais objetos que compunham a bagunça daquele cômodo. Teve uma noite que uma moça foi em casa, viu a barraca no chão do quarto e começou a desfilar firulas verbais sobre como eu era genial, inventivo, artístico e despreocupado ao fazer aquilo. Pedi pra ela ir embora, pois não era nada disso. Naquela época eu morei na barraca por puro simbolismo de criar mais uma barreira, por fina que fosse, entre o mundo e eu. Mas, no fim das contas, as noites tenebrosas foram poucas, e eu sabia que estava tenebrizando mais do que haviam trevas, e sinto saudades daquele quarto, sem tirar nem por.


quarta-feira, 22 de abril de 2015

Amanhecer na praia.


Dê play aqui e leia abaixo.
Ante ontem estava fazendo um calor descomunal para essa época do ano, ontem de manhã também, mas por volta das 13 horas o tempo começou a fechar, choveu bastante, em pancadas separadas por breves períodos de tempo com um sol envergonhado, escondido, e ai esfriou. Hoje, desde a hora que eu acordei, está frio e chovendo ininterruptamente, apenas varia a intensidade da quantidade dos pingos. O fato de haver barulho de chuva vindo de fora me causou certa confusão com o barulho de chuva que vinha de dentro, das caixas de som - acho que foi por isso que refinei a atenção à música e a todas as sensações subsequentes. Entraram chocalhos e violões, entraram e, em meio à chuva, era como se tivessem, na verdade, se sentado no banco de madeira - temos um na sala. Tinha um punhado de carne moída na geladeira, também uma panela com arroz, um pedaço de bacon cru e um pote descongelado de feijão. Juntei tudo numa panela baixa, com azeitonas e cebola picadas, pois eu precisava almoçar. Quando me sentei para comer, já estava mastigando aquela mistura semi pastosa, ou seja: quando me sentei para comer, eu já comia. Entraram violinos, em meio ao batuque discreto, em seguida se juntaram as trombetas, trombones e cornetas. Mascava a comida com calma, havia ali até que bastante sabor, o bacon era bom e o gosto da azeitona passou bem para a carne; eu gosto de arroz e feijão. De repente tinha areia, não na comida, mas nos meus pés, entre os meus dedos. E tinha aquele som da água corrente constante ao fundo, vindo da porta aberta do quintal para a cozinha, e eu realmente sentia a areia nos meus pés. Entraram também pratos mais intensos, garfos e facas. E era como se o sol estivesse nascendo a minha frente, e eu precisasse colocar uma camiseta dobrada por cima dos ombros, pois era o sol que engana, aquele que é nascente, mas mesmo assim queima a pele. A água do mar batia nas canelas, era clarinha, limpa. O cheiro das ondas quebrando, o barulho do vento chacoalhando as árvores altas na ponta da praia. Não tinha mais ninguém presenciando aquele amanhecer na praia, de ponta a ponta, era eu e aquele monte de sons e cheiros e sensações; passou um siri. Voltaram as trombetas, os trombones os pratos, um embolado sonoro empolgante, que quase parecia o meu viradão de outrora e, junto deles, surgiu um vidro de azeite indicando o fim. E de repente acabou mesmo. De repente.



sexta-feira, 17 de abril de 2015

A burocracia em pele humana não dá bom dia.


A burocracia, são pessoas. Não são os papeis que assinamos, os cartórios em que mofamos nas filas, os documentos que carregamos na carteira, as ranhuras nas pontas dos dedos que viram modos de identificação individual. A burocracia são pessoas.
Vez ou outra, nos trajetos que escolhi pra minha vida profissional (até o momento), as "atividades acadêmicas", tenho que lidar com essas pessoas, as burocracias, e seus papeis, assinaturas, documentos xerocados etc. Às vezes ocorrem situações engraçadas.
Certa vez, em um curto espaço de tempo, participei de uma série de encontros coletivos, em que todos os presentes eram obrigados a assinar uma espécie de "lista de presença". A lista ficava à disposição dos participantes em uma mesa, e era observada por um jovem senhor - não devia ter mais do que 53 anos de idade - que era uma espécie de "guardião das assinaturas dos presentes".
Cheguei cedo em um dos dias destes encontros, não havia ninguém assinando a folha, olhei para ela e para o senhor, lhe disse um singelo "bom dia", ao que me respondeu: "você já assinou?". No encontro seguinte, novamente, me apresentei a ele com simpatia, e lhe disse 'bom dia', antes de qualquer coisa, sua resposta foi a mesma: "já assinou?". 
Os encontros seguiam, e a cada "bom dia", "boa tarde", "até logo", eu recebia apenas respostas que eram perguntas sobre eu ter ou não cumprido com as obrigações burocráticas referentes às assinaturas e ao encontros. Como no último dia destes, em que, ao dizer 'bom dia' para o senhor, ele me respondeu: "preencha essa ficha e me entregue no fim do encontro". 
Ele era a burocracia em pele humana, e ela não te dá bom dia.



quarta-feira, 15 de abril de 2015

Tira a máscara de demônio.


Observando um ciclista andando na margem da avenida, negando a ciclofaixa que foi construída no meio dela para ele, pensei que talvez fosse uma boa chegar em casa e resolver uma já antiga desavença. Dois, três passos: "talvez não seja desavença, talvez seja só mais um traço dessa doença que se estabeleceu na sua cabeça". Pode ser verdade, essa vertente, aliás, deve ser verdade. Lembrei de períodos em que a coisa já esteve pior, e de como eu era radicalmente idiota: "vocês tem a vida de vocês ai e eu não tenho nada que ver com isso ai". Como que não tenho nada que ver com isso ai? Se eu os invejo? Se eu invejo a vida que levam. Me acusam de olhar como que de cima pra baixo e apontar dedos e julgar inferior todos os demais. Como que posso fazer isso se eu invejo a vida que levam? Como poderia eu ser isso se todas as manhãs eu acordo e me viro e penso: "que merda que eu tô fazendo com a minha vida?". Que merda esse ciclista tá fazendo fora da ciclofaixa? 
Comprei uma bicicleta, e minhas semanas têm sido menos repugnantes.




Ensaio sobre a lógica cotidiana retilínea e cética.


Fui ao mercado fazer uma compra esporádica para consumo no dia atual e no seguinte. Perambulava sem pretensões pelo setor dito 'verde' ou 'feirinha'. Sobre uma espécie de mesa havia uma série de bandejas de isopor branco com carambolas cobertas com um plástico filme transparente. Em cima do filme transparente uma etiqueta de papel com um código de barras e o valor numérico do preço daquela bandeja com carambolas. Eu gosto de carambolas. Embora carambolas não estivessem na lista da compra esporádica juntei uma das bandejas ao restante da compra no cestinho de alumínio que eu empunhava. Cheguei em casa e disse para o meu pai que havia comprado carambolas. Ele me disse que não sabe comprar carambolas e perguntou como se faz para comprar carambolas: “você vai ao mercado, descobre onde estão as carambolas, pega uma bandeja, coloca no cestinho, leva no caixa, paga por elas, coloca na mochila e leva para casa”, lhe expliquei.




sábado, 11 de abril de 2015

Sem olfato nem paladar.


[ou: "uma história nojenta - II"].
Fazia quase seis meses que estávamos morando juntos. Após três anos e algum tempo partilhando momentos, ora mais, ora menos esparsos, resolvemos ajuntar nossas vidas, meiando os espaços de um apartamento e do valor de um aluguel.
Era tudo gostoso, um cotidiano que dava vistas à se desejar viver daquela maneira por um bom tempo.
Vivíamos um fim de mês apertado, tínhamos pouco dinheiro quando chegou aquele final de semana prolongado, com um feriado na segunda feira. Não iríamos para a cidade nem de um, nem de outro, e, para piorar, eu fiquei doente na quinta, um resfriado daqueles. Então, ficaríamos os três dias em casa, acompanhados de bons filmes.
No sábado à noite assistíamos ao episódio cinco da trilogia sextologia, quando tive uma crise de tosse. O corpo largado na cama, nadando fervente na própria febre e eu me afogando nas próprias tossidas repletas de umidade pulmonar. Nem precisei pedir, e já se prontificou em me fazer um chá, bem quentinho, com gengibre e mel.
Companheirismo e cuidado se manifestaram naquele ato de se levantar e correr à cozinha para fazer o chá para mim.
Ouvi o som estabanado de algumas panelas caindo ao chão, uma delas foi enchida com água, em seguida ouvi o som dela sendo apoiada sobre uma das bocas do fogão, o estralo do acendedor; portas de armário foram abertas e fechadas com a falta de delicadeza peculiar, até que uma pergunta entrou vocalmente pela porta do quarto:
-acabou o chá, ai ai. Posso te fazer um leite com chocolate bem quente?
-pode, claro, agradeço, amor.
Ouvi o barulho da água sendo despejada dentro de uma bacia plástica (tem que economizar água, Geraldinho), a geladeira sendo aberta e fechada, um barulho que imaginei ser o leite batendo no fundo da caneca de alumínio, e a caneca de alumínio voltando pra cima da boca do fogão. 
Ouvi também um pum estridente, e sorri: melhor lá do que aqui, embora eu esteja com o nariz tão constipado que não sinto cheiro algum de nada. Estranhei não ter ouvido barulho da lata de nescau.
Voltou para o quarto com minha xícara preta com bolinhas roxas toda fumegante. Me levantei um pouco e me sentei. Agradeci a caneca de leite quente com um sorriso e um beijo na bochecha, enquanto arrumava as cobertas em mim. 
Dei um gole curto naquele leite espesso e quente, afinal, não sabia o quão quente ele estaria. Não estava ruim, mas também não estava bom: "deve ser o paladar estraçalhado pela gripe", pensei. Mais um gole, e aquilo estava estranho mesmo:
-você colocou achocolatado em vez de nescau?, perguntei.
-Não, mas como não tinha nescau eu fiz um pouco de coco ai dentro.
Sorriu, soltou mais um pum, e continuou sorrindo. Espirrei, e o leite quente abrandou a tosse.


quinta-feira, 9 de abril de 2015

O bife com um ovinho.


Quando eu ainda tinha lá alguns resquícios de juventude positiva circulando por mim, e era estagiário da biblioteca da faculdade, eu tinha um fetichismo por maionese verde. Era-me um luxo tão intenso em algumas noites sair do trabalho de guardar os livros nas prateleiras e comer um lanche com tal iguaria.
Um tempo depois, naquele período (inclusive já longínquo nas memórias) em que eu fui professor, o fetichismo alimentício mudou. 
Logo no primeiro dia na escola me ensinaram o caminho até a chave da cozinha, o caminho até a cozinha e o caminho até onde guardavam as panelas com as sobras da merenda das crianças, para que eu ficasse à vontade para almoçar. E como almocei à vontade e com vontade, muitas vezes, aquelas merendas.
No entanto, havia períodos do mês em que a verba estadual atrasava, ou mesmo já estava no final, ou mesmo a nutricionista do município estava com preguiça, e a merenda era, na verdade, uma triste merenda: pão com patê de salsicha, pão com margarina, mingau de chocolate, arroz temperado e outras iguarias nada sustantes para o pião do professorado (o quão não sustenta era, sobretudo, para as crianças em desenvolvimento).
Foi num desses dias que a diretora do colégio me ensinou o caminho até um dos dois restaurantes da cidade, dizendo: "lá você vai comer bastante, bem e pagando pouco, pode confiar em mim".
Naquela época eu já tinha entendido como funcionava o pagamento do governo do estado para os professores substitutos. Já tinha entendido que a gaita paga pelo meu trabalho era baixa, mas comer para trabalhar era essencial, mesmo que tivesse de gastar o equivalente a duas horas/aula para tal - não era o almoço que era caro, a hora/aula que é uma vergonha mesmo.
O esquema do restaurante era: pague R$12,90, e coma o quanto quiser do buffet, com direito a um bife - e que bifão - frito na hora. A moça que trazia o bife perguntava sempre: "professor, aceita um ovinho frito junto?", e eu sempre aceitava. 

Pois foi hoje, retornando para casa após duas horas depositadas em uma conferência (de índole duvidosa), quando dava soquinhos, no ritmo da música, nas correias de borracha da escada rolante de alguma estação de metrô, que pensei: "hoje eu só queria almoçar um bife com um ovinho naquele restaurante em Vera Cruz".


sexta-feira, 3 de abril de 2015

Cinza Grotesco.


Quando eu era um jovem bem jovem, e completei 16 anos de idade, na manhã daquela quinta feira (posterior à uma vitória do Corinthians na Copa do Brasil daquele ano), meus pais me deram um presente saboroso: algumas telas em branco, uma paleta para tintas e uma caixa com oito bisnagas de tintas acrílica. 
A Kalunga sempre foi um local a me acender fetichismos por mercadorias.
Naquela época os estímulos recebidos desde criança pelo gosto por artes diversas tomava um rumo específico, o de artes mais públicas, feitas nos espaços da cidade. No sentido de estimularem tais práticas, mas de me resguardarem ao espaço da casa, recebi tal presente com brilhos nos olhos.
Naquela época também, eu tinha aulas de artes com um rapaz de riso fácil, conhecimentos amplos e didática simpática. Muitas foram as situações em que mostrava as tralhas que eu criava para ele, e ele fazia críticas, dava sugestões, me apresentava novas técnicas etc.
O Jair foi um professor, no sentido intenso e extremo da palavra.
Certa vez, numa aula em que muitos de meus colegas preferiram se dedicar às artes de suas fofocas e intrigas juvenis, eu não me cansava de misturar cores e formar tintas para pintar trechos de um mural em papel paraná, onde afixaríamos algumas fotos.
Certo momento Jair parou ao meu lado, olhou o que eu fazia e não se absteve em comentar: "olha Gabriel, você se empolga, vai misturando um monte de tinta e chega nesse cinza grotesco, cuidado com o cinza grotesco!".
Chegar ao 'cinza grotesco', como fruto do não desejo de parar, e da empolgação por usufruir cada mínimo pedaço de prazer na vida, não raro, tem me levado a uma série de cinzas grotescos.

Ps: muito provavelmente a frase dita por Jair não tenha sido exatamente assim, visto que se passaram dez anos.