terça-feira, 10 de março de 2015

Trabalhando o Autocontrole.


Desde muito tempo, pelo que me recordo, sou um ser humano com a desprezível mania de ter reações explosivas. Não sei se mania é o termo correto para classificar esse tipo de atitude, visto que não reajo explosivamente a acontecimentos da vida de maneira "não tão consciente assim" - como me parece ser qualidade das manias.
Recordo-me de uma prova de vestibular em que, dilacerando o cérebro ante questões incompreensíveis, explosivamente assinalei qualquer merda e fui embora.
Recordo-me de um término de relacionamento em que, dilacerado o peito em mil pedaços, reagi banalmente dizendo centenas de milhares de impropérios, ofensas e mentiras.
Recordo-me de uma discussão política em que, dilacerando os verbos e sujeitos das orações, acabei por me retirar da mesa e retornar para casa chutando cones, pequenas pedras e demais objetos que encontrava pelas calçadas e ruas no caminho.
Há tempos penso: "é, é necessário trabalhar esse autocontrole, não explodir tanto assim". E há tempos fracasso nesta missão. Até anteontem.
Anteontem (domingo, 08/03/2015) vivi uma experiência de autocontrole interessante. Experiência que foi produto de uma situação, conscientemente construída, em que explodir ou demonstrar a mínima reação emocional poderia resultar em sérios problemas para minha integridade física.

O Corinthians jogaria contra o São Paulo como visitante, no estádio do São Paulo, e eu queria ver o jogo in locco (in locco por ti Corinthians). No entanto, não consegui obter um ingresso dentre os (poucos) dois mil destinados aos torcedores Corinthianos. 
Pensei: "bom, vamos no setor da torcida são paulina mesmo, é só ir sem nada de roupa de time e ficar quietinho". O "ficar quietinho" era a grande questão.
Talvez seja no futebol, mais especificamente nos jogos do Corinthians, em que eu manifeste a minha mais sincera personalidade visceral explosiva. Talvez, aliás, tenha sido , nos tantos jogos em tantos anos de passionalidade torcedora, que assim me formei. Entre xingamentos, choros, berros, bicudas na parede, objetos quebrados, rojões queimados etc, aprendi que explodir, em momentos de vitórias ou de derrotas, é bom.
Aliás, quando explodo, o momento do bum sempre é bom, depois é que vem uma ressaca braba. Como no dia seguinte ao vestibular, no dia seguinte ao fim do relacionamento, no dia seguinte a discussão política...

Assistir ao jogo entre torcedores rivais, na casa deles, no meio deles, nos espaços deles, enfim, entre eles, significava se quer manifestar qualquer mínima satisfação ou insatisfação com os lances do jogo. E que jogo, diga-se de passagem.
Cheguei na região do estádio às 15 horas, e por volta das 19 horas me vi em um local sem torcedores São Paulinos ao meu redor. Foram quatro horas de olhares distantes, fortes inspirações de ar e tremeliques musculares nos lábios, pois eu pensava: "não pode rir, não pode sorrir, não pode demonstrar que está feliz com o gol".
Durante estas quatro horas, fiz toda uma reflexão sobre o meu lugar profissional atual, e, olhando por esse lado, aquele era um exercício extremamente prazeroso e rentável, que me instigou a conhecer outras torcidas em seus jogos. No entanto, eu ainda sou um pesquisador-torcedor, e essas duas coisas ficam brigando entre si dentro de mim.
Durante estas quatro horas, cheguei e sai sem demonstrar a mínima emoção aos lances do jogo ou ao fato de que todos ao meu redor soavam, por um lado, como outros, potencialmente perigosos, e, por outro, como pessoas em momentos de sofrego lazer urbano (visto que saíram de lá abatidos com a derrota e o péssimo desempenho do São Paulo).
Na saída do estádio, ainda, uma moça gritava de modo desembestado: "tem Corinthiano aqui, aquele cara ali é Corinthiano". Gelei, achei que era comigo. Mas, não era. Alguma confusão, um rapaz com nariz e boca sangrando, policiais afastando as pessoas. Observei tudo, e passei impune.
Aliás, "impune" não é o termo. Tal qual muita coisa do Futebol (sobreviva, Futebol!), que nos serve como "figura de linguagem da vida", registro estas quatro horas em um domingo como ótima metáfora pra pensar coisas da minha própria vida. No caso, minhas explosões no jogo-vida.





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