quinta-feira, 19 de março de 2015

As peças da descarga - II.



Soou de meu celular o áudio que me informa que recebi notificações no twitter. Era um comentário, sobre uma publicação de uns três dias atrás, o respondi. Eu gosto do passarinho azul, e gosto também da outra rede, que tem o f azul e branco - por que é tudo azul? 
Às vezes eu penso que se as ciências sociais ditas contemporâneas demorarem mais muito tempo pra se debruçarem séria e volumosamente sobre estes modos virtuais de sociabilidade, estarão assinando um termo de conduta de vanguarda do atraso. Mas isso é um pensamento meu.
O diálogo na rede social do passarinho azul era sobre o tempo, as mensurações dos anos. Noções ocidentais e individualizadas de tempo como espaço para conquistas pessoais. Em suma era isso.
Em seguida fui usar o banheiro, me orgulhei ao dar a descarga e saber que aquela realização apenas se concretizava graças às minhas mãos, manejando as peças da descarga como peças de lego. Acho que foi a descargada mais cheia de brio que eu já dei na vida. 
Não sei ao certo por qual motivo, mas me recordei de uma situação que foi recorrente no período de dois anos e mais um pouco (talvez o correto seja dizer: "dois anos e contando"). 
Aliás, essas contagens sempre me confundem, às vezes me enchem de orgulho, às vezes me levam à vergonha, mas, em geral, me confundem - e isso não é necessariamente ruim.
Embaralhei sujeitos, embaralhei situações. Ainda dentro do banheiro foquei a cabeça em lembrar de quem era o documento, e também no dia do rolê com qual banda foi que rolou tal coisa. É complicado isso. Nem tanto pelas contagems, mas sim pelas embaralhagens.
Me olhei no espelho, ainda tentando encaixar na memória, como bloquinhos de lego, os sujeitos às situações a tudo, mas não aconteceu - e talvez nunca mais esses episódios sejam reconstruídos, apenas recordados sob a forma de imagens remotas e fragmentadas.
Então me lembrei daquela propaganda (vocês lembram?) do rapaz mascando um chiclete. Ele usava na orelha um brinco com uma correntinha, uma mão puxava a correntinha e fazia um barulho de descarga, e ainda diziam: "é isso que ele tem na cabeça". 
É chato passar por essas quatro situações num curtíssimo espaço de tempo e, ainda por cima, se identificar com o rapaz do brinco. Me tranquilizo apenas num ponto: eu repudio toda mão (invisível ou não) que se acha dona de poder para dizer o que as pessoas tem na cabeça.
É incrível como as coisas se confundem.

Ps: a descarga está funcionando legal.




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