sábado, 21 de março de 2015

Basta!


Cheguei em casa e fui tomar um banho. Coloquei o chuveiro no modo semi quente, fechei a janela do banheiro. Me lembrei que ontem eu não havia tomado banho, e julguei que não teria problemas burlar um pouco as mensagens que estão espalhadas por toda a cidade, e tomar um banho mais cumprido - eu já havia economizado água ontem.
Meu cabelo está bem curto, sentia a água esquentando meu couro cabeludo. O vapor cobriu o espelhinho, e eu não me via mais nele. Bom. O sabonete estava no fim, e toda hora caía no chão. Quando encostei no registro, de metal frio, o choque térmico foi ruim, foi estranho e não bateu legal.
Me lembrei, então, de um trecho de ontem (o dia em que eu não tomei banho), quando a noite estava no começo, e prevaleciam os pirilampos sorridentes-agarrados. Me recordei de quando cruzamos a Paulista, que está passando por reformas. O canteiro de obras é sinalizado por placas brancas com setas laranjas, e em uma dessas placas havia um escrito, feito com um canetão preto: "BASTA!!!".
Se eu tivesse prestado mais atenção nesta mensagem (creio que vestígio das recentes manifestações), tenho certeza, o meu banho de desjejum seria menos pejorativamente registrável.
Ps: parodiando os versos de uma brincadeira de criança: "pe-diu pra bas-tar bas-tou" - e chega uma hora que bosta basta.


quinta-feira, 19 de março de 2015

As peças da descarga - II.



Soou de meu celular o áudio que me informa que recebi notificações no twitter. Era um comentário, sobre uma publicação de uns três dias atrás, o respondi. Eu gosto do passarinho azul, e gosto também da outra rede, que tem o f azul e branco - por que é tudo azul? 
Às vezes eu penso que se as ciências sociais ditas contemporâneas demorarem mais muito tempo pra se debruçarem séria e volumosamente sobre estes modos virtuais de sociabilidade, estarão assinando um termo de conduta de vanguarda do atraso. Mas isso é um pensamento meu.
O diálogo na rede social do passarinho azul era sobre o tempo, as mensurações dos anos. Noções ocidentais e individualizadas de tempo como espaço para conquistas pessoais. Em suma era isso.
Em seguida fui usar o banheiro, me orgulhei ao dar a descarga e saber que aquela realização apenas se concretizava graças às minhas mãos, manejando as peças da descarga como peças de lego. Acho que foi a descargada mais cheia de brio que eu já dei na vida. 
Não sei ao certo por qual motivo, mas me recordei de uma situação que foi recorrente no período de dois anos e mais um pouco (talvez o correto seja dizer: "dois anos e contando"). 
Aliás, essas contagens sempre me confundem, às vezes me enchem de orgulho, às vezes me levam à vergonha, mas, em geral, me confundem - e isso não é necessariamente ruim.
Embaralhei sujeitos, embaralhei situações. Ainda dentro do banheiro foquei a cabeça em lembrar de quem era o documento, e também no dia do rolê com qual banda foi que rolou tal coisa. É complicado isso. Nem tanto pelas contagems, mas sim pelas embaralhagens.
Me olhei no espelho, ainda tentando encaixar na memória, como bloquinhos de lego, os sujeitos às situações a tudo, mas não aconteceu - e talvez nunca mais esses episódios sejam reconstruídos, apenas recordados sob a forma de imagens remotas e fragmentadas.
Então me lembrei daquela propaganda (vocês lembram?) do rapaz mascando um chiclete. Ele usava na orelha um brinco com uma correntinha, uma mão puxava a correntinha e fazia um barulho de descarga, e ainda diziam: "é isso que ele tem na cabeça". 
É chato passar por essas quatro situações num curtíssimo espaço de tempo e, ainda por cima, se identificar com o rapaz do brinco. Me tranquilizo apenas num ponto: eu repudio toda mão (invisível ou não) que se acha dona de poder para dizer o que as pessoas tem na cabeça.
É incrível como as coisas se confundem.

Ps: a descarga está funcionando legal.




As peças da descarga - I.


Num dia uma peça da descarga ameaçou quebrar. No outro ela quebrou, e tivemos que deixar a caixa aberta e acionar o dispositivo manualmente. Em seguida, alguns dias depois, o dispositivo também quebrou, e eu tive que fazer uma gambiarra com um pedaço de barbante. Depois, no dia seguinte, criei vergonha na cara, e fomos comprar uma peça nova. 
É curioso, esse enredo aconteceu esses dias, entre a semana passada e hoje (quando, enfim, consertei a descarga). Mas ele é repetido - ou, hollywoodianamente falando, é a continuação aproveitadora de um filme de sucesso. Isso havia ocorrido também em 2009, ou 2010, ou no primeiro semestre de 2011, não me lembro ao certo.
Então, no final da tarde de hoje, desliguei o registro da água e fui trocar a peça. Monta daqui, desmonta de lá, limpa o nariz que está escorrendo com a manga da camisa, encaixa uma parte da peça em outra, levanta pra ver se ficou bom, não ficou, desmonta e remonta. 
Esse enredo também não me soou novo, me lembrou de quando eu esquecia de perceber o tempo passando, largado no chão de tacos da casa em que cresci, brincando de lego. Outro dia num filme chamavam lego de 'blocos de montar', e eu achei ridículo.
É incrível como as coisas se repetem. 






quarta-feira, 11 de março de 2015

Donas Florindas do meu Brasil...


A Dona Florinda mora na mesma vila que o Chaves, que não se alimenta todos os dias. Mora na mesma vila que o Seu Madruga, que sonega o aluguel por falta de emprego. A Dona Florinda recebe uma pensão, em razão do marido falecido, que lhe permite passar os dias trabalhando na casa e mantendo os pequenos luxos do filho, Quico. Dona Florinda crê que, por possuir um pequeno bem financeiro acima dos demais na vila, tem mais voz e merece mais benefícios que os outros. Seu filho, Quico, embora tenha lampejos do elitismo da mãe, cede a cada episódio, brincando com Chiquinha, a filha do pobre Seu Madruga, e com Chaves, órfão de pai, de mãe e do estado. O Senhor Barriga, hoje, nas redações da grande mídia, cria uma horda de Donas Florindas, fazendo-as crer que seus carros populares comprados a vista, ou a conexão no Facebook através de um 4G, lhes assegura mais voz do que os que parcelam em 48x ou usam o 3G (baratinho e lentinho). As Donas Florindas se acreditam mais valiosas do que os que não conseguem emprego ou não almoçam. As Donas Florindas reclamam de uma crise, mas nos hipermercados os ovos de páscoa estão sendo vendidos e repostos todos os dias. Não seja uma Dona Florinda, não ache que você manda mais na vila do que os outros. Seja mais um Quico, que cede às noções equivocadas de participação em uma classe privilegiada em nome da igualdade de que todos possam brincar.


terça-feira, 10 de março de 2015

Arruma as letrinhas da sopa ai meu.


Na época em que meu pai e minha mãe ingressaram, na marra, no processo de separação (e isso esta completando dois anos por agora) eu ouvia muito, de ambos os lados, frases como: "na vida a gente erra e a gente acerta" e "posso errar, mas só vou saber se tentar". Clichês pagodísticos ao modo Revelação. Se teve uma coisa que ficou pra mim daquela feijoada toda que foi aquela época, de cisão de lados e levantamento de muros, é que não dá pra ser radical em coisas da vida. Era meu aniversário, e meu bom amigo me deu um abraço e sorriu o seu sorriso meio retangular tão peculiar (que ele solta somente em situações de intenso e sincero prazer, já aprendi). Ele me disse uma mensagem positiva, e eu respondi com algum resmungo-ranzinza: "agora era uma boa hora pra você aprender a parar de reclamar, e aproveitar sua vida". Esse é o tipo de frase que só os seus verdadeiros amigos podem dizer; na verdade os zé ninguém também podem a dizer, mas eu não vou ouvir. Na verdade, naquela hora, eu não ouvi a frase, apenas a guardei, e segui destruindo o momento como havia planejado previamente que o faria. Confesso que nos dias seguintes houve certa satisfação perante tais ocorridos, mas aquela frase, aquele sorriso, quebrado por mim no instante, ficaram registrados em meu hd. Querido amigo, me valendo das lógicas de meu pai e de minha mãe (agora felizes e tranquilos, cada qual em seu corner), te digo que a gente erra e a gente acerta, e é bom por demais poder organizar as letrinhas da sopa pra entender bem o que se passa na paçoca cerebral - pra depois elas se embaralharem de novo. Não dá pra ser radical com coisas da vida, e achar que todo açúcar vai se assentar no fundo da xícara de uma vez por todas, mas dá pra se afastar das situações e entender, de uma vez por todas, quem tá do seu lado.


Trabalhando o Autocontrole.


Desde muito tempo, pelo que me recordo, sou um ser humano com a desprezível mania de ter reações explosivas. Não sei se mania é o termo correto para classificar esse tipo de atitude, visto que não reajo explosivamente a acontecimentos da vida de maneira "não tão consciente assim" - como me parece ser qualidade das manias.
Recordo-me de uma prova de vestibular em que, dilacerando o cérebro ante questões incompreensíveis, explosivamente assinalei qualquer merda e fui embora.
Recordo-me de um término de relacionamento em que, dilacerado o peito em mil pedaços, reagi banalmente dizendo centenas de milhares de impropérios, ofensas e mentiras.
Recordo-me de uma discussão política em que, dilacerando os verbos e sujeitos das orações, acabei por me retirar da mesa e retornar para casa chutando cones, pequenas pedras e demais objetos que encontrava pelas calçadas e ruas no caminho.
Há tempos penso: "é, é necessário trabalhar esse autocontrole, não explodir tanto assim". E há tempos fracasso nesta missão. Até anteontem.
Anteontem (domingo, 08/03/2015) vivi uma experiência de autocontrole interessante. Experiência que foi produto de uma situação, conscientemente construída, em que explodir ou demonstrar a mínima reação emocional poderia resultar em sérios problemas para minha integridade física.

O Corinthians jogaria contra o São Paulo como visitante, no estádio do São Paulo, e eu queria ver o jogo in locco (in locco por ti Corinthians). No entanto, não consegui obter um ingresso dentre os (poucos) dois mil destinados aos torcedores Corinthianos. 
Pensei: "bom, vamos no setor da torcida são paulina mesmo, é só ir sem nada de roupa de time e ficar quietinho". O "ficar quietinho" era a grande questão.
Talvez seja no futebol, mais especificamente nos jogos do Corinthians, em que eu manifeste a minha mais sincera personalidade visceral explosiva. Talvez, aliás, tenha sido , nos tantos jogos em tantos anos de passionalidade torcedora, que assim me formei. Entre xingamentos, choros, berros, bicudas na parede, objetos quebrados, rojões queimados etc, aprendi que explodir, em momentos de vitórias ou de derrotas, é bom.
Aliás, quando explodo, o momento do bum sempre é bom, depois é que vem uma ressaca braba. Como no dia seguinte ao vestibular, no dia seguinte ao fim do relacionamento, no dia seguinte a discussão política...

Assistir ao jogo entre torcedores rivais, na casa deles, no meio deles, nos espaços deles, enfim, entre eles, significava se quer manifestar qualquer mínima satisfação ou insatisfação com os lances do jogo. E que jogo, diga-se de passagem.
Cheguei na região do estádio às 15 horas, e por volta das 19 horas me vi em um local sem torcedores São Paulinos ao meu redor. Foram quatro horas de olhares distantes, fortes inspirações de ar e tremeliques musculares nos lábios, pois eu pensava: "não pode rir, não pode sorrir, não pode demonstrar que está feliz com o gol".
Durante estas quatro horas, fiz toda uma reflexão sobre o meu lugar profissional atual, e, olhando por esse lado, aquele era um exercício extremamente prazeroso e rentável, que me instigou a conhecer outras torcidas em seus jogos. No entanto, eu ainda sou um pesquisador-torcedor, e essas duas coisas ficam brigando entre si dentro de mim.
Durante estas quatro horas, cheguei e sai sem demonstrar a mínima emoção aos lances do jogo ou ao fato de que todos ao meu redor soavam, por um lado, como outros, potencialmente perigosos, e, por outro, como pessoas em momentos de sofrego lazer urbano (visto que saíram de lá abatidos com a derrota e o péssimo desempenho do São Paulo).
Na saída do estádio, ainda, uma moça gritava de modo desembestado: "tem Corinthiano aqui, aquele cara ali é Corinthiano". Gelei, achei que era comigo. Mas, não era. Alguma confusão, um rapaz com nariz e boca sangrando, policiais afastando as pessoas. Observei tudo, e passei impune.
Aliás, "impune" não é o termo. Tal qual muita coisa do Futebol (sobreviva, Futebol!), que nos serve como "figura de linguagem da vida", registro estas quatro horas em um domingo como ótima metáfora pra pensar coisas da minha própria vida. No caso, minhas explosões no jogo-vida.