quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Quando o macarrão rola no tapete.


Olá, eu sou um macarrão parafuso. Não, eu não sou irmão dos demais que estavam no pacote. Não usamos a nomenclatura 'irmão', nosso termo para definir a linhagem de parentesco macarroão-parafusesco por pacote é baseada numa noção de "co-presença-de-situação-empacotada". Como? Assim: "cara, você não estava naquele mesmo pacote que eu?", "aquele que acabou de abrir e cair aqui no mar quente?", "isso! cara, caramba cara! nós somos co-presentes-de-situação-empacotada!", "não pode ser!", "somos sim!", "ei, eu também sou", "eu também!", "caramba a gente é tudo co-presente bicho!". Mas aos poucos os co-presentes vão morrendo, sentimos o corpo deixar de ser rígido aos poucos, ele vai amolecendo, amolecendo, endo, endo e ploft. Ainda tem um ou outro que sobrevive pra contar que veem bolhas no alto antes de morrer - achamos que os mais iluminados e mais próximos do deus-macarone são aqueles que veem as bolhas. Eu devo ser algum tipo de macarrão muito-super-ultra-iluminado, pois vi mais do que nenhum macarrão parafuso (somos extremamente diferentes dos espaguetes, e rivalizamos com os pennes ops) jamais havia visto. Eu vi bolhas sobre mim, e sobrevivi a elas; eu vi o grande garfo do capeta, de que alguns antepassados falaram; eu sobrevivi ao grande derramamento sobre a placa perfurada; eu resisti ao choque térmico da água fria; eu entrei em contato com um grande mar vermelho repleto de pequenos dejetos amarronzados e folículos verdes. E eu sobrevivi! Eu sou o macarrão parafuso sobrevivente! E então quando passei, junto de meus co-presentes-de-situação, que já estavam mortos (que deus-macarone os tenha) para uma outra superfície, aparentemente redonda, e aparentemente sólida e transparente, fui mais ligeiro, e rolei abruptamente para longe dali. Foi um salto, uau, que salto eu dei. E acho que tive sorte, que ali fui deixado. Eu meio que cai no chão e me deixaram ali. Era uma superfície macia, gostosa de estar. Um pouco áspera e, me parece, bastante suja. É um tapete, tenho certeza de que isso é um tapete. E tem muita coisa aqui, santo deus-macarone quanta coisa: moedas, pedaços de papel, sobra de fermento, pequenas tiras de adesivos, um pé de chinelo, co-presentes mortos a muito mais tempo, grãos de arroz, e acho que esse requeijão que eu acabei de lamber agora, na verdade, é sêmen. 
E um sorriso pra vocês!



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