terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Perfume de Pimenta.


Entrei no ônibus no ponto inicial, estava vazio, pois não era horário de pico algum. Me senti em um espaçoso banco em cima da roda traseira. Alguns instantes depois de mim ela subiu, passou seu bilhete e enquanto vencia a catraca olhou para mim, olhou para todos os bancos vazios dentro do coletivo, olhou para o banco em que eu estava, por fim, olhou para mim novamente e sorriu. Aprendemos na escola que a terra teve várias eras até a atual: arqueozoica, paleozoica etc. No caso dela, era linda. Em dois curtos passos chegou ao banco, se sentou ao meu lado - notei que olhava para mim e retribui. Sorriu outro riso encantador. Antes do ônibus partir passou um batom rosa nos lábios, encarando-se sério em um espelhinho; em seguida abriu sua bolsa, tirou um tubo de desodorante e o esguichou nas axilas, guardou o desodorante e pegou um vidrinho de perfume. Notei como fechou as pálpebras lentamente, mantendo uma expressão de frescor, no instante em que deu duas borrifadas do perfume em seu pescoço. Tossi, espirrei, engasguei, quase vomitei.
-Você está bem? - ela perguntou.
Com os olhos ainda ardendo, respondi:
-Moça, você é de algum pelotão do batalhão de choque da pm? - ela riu.
-Não...
-Então por que você tá usando spray de pimenta como perfume?



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