quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Aquele ano eu quase não lavei roupa.


Na frente da minha cama. Na frente do colchão que eu usava para desenrolar o sono havia dois armários embutidos. Não eram de madeira nobre, mas eram de boa qualidade, e satisfaziam a fome dos cupins. Em um dos cantos de um dos armários havia uma pilha, sempre crescente, de roupas sujas. E quanto mais roupas na pilha, mais sujas elas ficavam. Naquele ano eu não tinha máquina de lavar nem tanquinho, em casa, apenas um tanque velho com o cifão quebrado e a torneira ruim. Quando eu lavava roupas era o básico estrito necessário para vestir o corpo na semana seguinte. Não raro um par de meias durava uma semana; uma cueca durava três dias; uma bermuda um mês... Lembro que a primeira vez que passamos um pedaço da noite ao modo casalzinho teve uma briga na casa do vizinho e um programa estranho sobre incensamento vaginal na televisão. Lembro também que começaram a aparecer baratas na casa depois de um tempo, e que o meu medo era de que as baratas entrassem na pilha de roupas e nunca mais saíssem de lá. Foi mais ou menos por ai, nessa época, que eu comecei a lavar roupas com maior regularidade - alugando para usos fortuitos o tanquinho da vizinha mais bacana que já existiu em minha vida. As baratas, no entanto, continuavam aparecendo, tal qual o casalzinho.


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