sábado, 17 de janeiro de 2015

Uma sobremesa com Cláudia, Duílio e Sahlins.


Fui almoçar na casa de minha gloriosa e octogenária avó. Não era um almoço qualquer, era uma feijoada. Nos acompanhavam na mesa o irmão dela, Duílio, e a filha dela (e minha tia) Márcia. Após a feijoada, a sobremesa. E sobremesa, em termos de minha família, merece um parágrafo à parte.
Bananas com paçoca. Ou paçoca com bananas.
Foi então que outra companhia se juntou a nós na mesa: Marshall Sahlins, o antropólogo estadunidense gente boa, que em 1997 publicou o artigo intitulado "O 'pessimismo sentimental' e a experiência etnográfica: por que a cultura não é um 'objeto' em vias de extinção". Em linhas totalmente gerais, defende neste artigo que as culturas não ocidentais não estão (ou estavam, ao longo do século 20) sendo esmagadas pelas culturas dos europeus colonizadores, mas sim estavam passando por mudanças decorrentes dos encontros com estes. 'Coisas' europeias, modernas, industrializadas etc eram somadas às coisas e hábitos não ocidentais e "indígenas".
Dito isto, vamos retornar às bananas com paçocas.
Fazer, comer e distribuir potes de paçoca entre os parentes é algo que é realizado em minha família materna há muitos anos - chutaria que esse hábito já tem por volta de um século. Há, inclusive, um grande pilão que circula pelas casas de meus familiares, cada época está numa morada, embora esteja subutilizado nos últimos anos.
Apesar do pilão estar em um período de aposentadoria (que pode ser mais ou menos durador), a paçoca continua sendo feita, consumida, oferecida como presente aos sobrinhos/as, irmãos/ãs, filhos/as, netos/as (para uma das netas, inclusive, foi criada uma versão dietética) e demais parentes. 
Sem o pilão, os amendoins passaram a ser amassados e mesclados à farinha de mandioca e ao açúcar em um processador elétrico de alimentos. 
Na tarde de hoje minha avó colocou uma cumbuca com paçoca na mesa, Duílio olhou, comentou sorridente: "paçoca!". Minha vó lhe explicou o novo modo de fazer o sagrado doce da família: sem os transtornos do pilão, sem as dores nos braços, com mais rapidez, facilidade e - importantíssimo nessa história toda - mantendo o sabor e o hábito de termos a paçoca de amendoim, comida com bananas, entre nós.
O centenário pilão foi aposentado, o processador elétrico com lâminas de alumínio foi colocado em seu lugar. A paçoca, no entanto, continua firme e forte entre nós. Pena que Sahlins era só uma ilusão-referência textual-ilustrativa em minha cabeça, ele teria gostado muito da paçoca.


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