quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Fissura no vidro da panela (oscilação perigosa).


Às vezes a gente fica naquela oscilação perigosa, que parece que não quer mais nada, depois parece que você quer mais - e melhor que seja tudo. Ai você se enrijece todo e diz "não, eu não preciso", mas em seguida já é um "caramba-credo-me-perdoa-preciso-sim". Mas é ai, nesse ponto, acontece a tragédia: você tem um telefone. E nesse telefone (por que é século vim teum meu!) tem mais o número de um monte de telefone. E se no século 19, sobretudo na Franca, era "cada cabeça uma sentença", dá pra dizer que hoje em dia cada telefone é uma sentença. Ou cada cabeça é um telefone. E tem uma dessas cabeças para quem você pode ligar e perguntar se tem, se rola, se dá pra ser agora ou se vai virar só amanhã. Mas você ainda tem te azucrinando aquele mosquitinho diabólico da oscilação perigosa. Ele já picou umas dez pessoas, está recheado com sangues diversos (deve ter umas cinco ou seis doenças sanguinalmente transmissíveis sendo fermentadas dentro da barriga dele), ele está pesado, mas ainda consegue bater asas e voar e mirou no teu pescoço e "zzzzzuuuuiiimmmm", "plác", essa última foi sua resposta (cê tá ligado que esse último foi um tapa auto dado né?), mas é tarde demais. A oscilação perigosa ainda te ronda e te testa e te pica, com perguntas nada concretas como "você tem certeza disso?", "é isso mesmo que você quer?". Mas ai você já pegou o telefone, já ligou, já resolveu o assunto e é uma questão de horas pra você se esbaldar e matar o que tava te matando. 
Você, enfim, ligou pra sua tia avó e ela vai te ensinar a fazer aquele mingau que você comia quando era criança; ainda bem que ela atendeu o telefone. Agora vai lá campeão, vai matar essa fissura no vidro da panela.



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